Santo Hilário de Poitiers
1Que Deus seja glorificado n’Ele refere-se à glória do corpo, glória que é a glória de Deus, porquanto o corpo toma emprestada a sua glória da sua associação com a natureza divina, porque Deus é glorificado n’Ele; portanto, Ele O glorificará em Si mesmo, n’isto: Aquele que reina na glória proveniente da glória de Deus, logo passa para a glória de Deus, deixando a economia da sua humanidade inteiramente para habitar em Deus. Nem se cala quanto ao tempo: E logo O glorificará. Isto referindo-se à glória da sua ressurreição, que imediatamente se seguiria à sua paixão, a qual menciona como presente, porque Judas já havia saído para traí-Lo; ao passo que o facto de Deus O glorificar em Si mesmo, reserva para o futuro. A glória de Deus foi manifestada n’Ele pelo milagre da ressurreição; mas Ele permanecerá na glória de Deus quando tiver deixado a economia da sujeição. O sentido destas primeiras palavras, «Agora é glorificado o Filho do homem», não é duvidoso: é a glória da carne que se entende, não a do Verbo. Mas que significa o que se segue: E Deus é glorificado n’Ele? O Filho do homem não é outra pessoa que o Filho de Deus, porque o Verbo se fez carne (João 1,14). Como é Deus glorificado neste Filho do homem, que é o Filho de Deus? A cláusula seguinte ajuda-nos: Se Deus é glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo. Um homem não é glorificado em si mesmo, nem, por outro lado, Deus, que é glorificado no homem, por receber glória, deixa de ser Deus. Assim, as palavras «Deus é glorificado n’Ele» ou significam que Cristo é glorificado na carne, ou que Deus é glorificado em Cristo. Se «Deus» significa Cristo, é Cristo quem é glorificado na carne; se o Pai, então é o Sacramento da unidade, o Pai glorificado no Filho. Outrossim, Deus glorifica em Si mesmo a Deus glorificado no Filho do homem. Isto derruba a doutrina ímpia de que Cristo não é verdadeiro Deus, na verdade da natureza. Pois como pode estar fora d’Ele aquilo que Deus glorifica em Si mesmo? Aquele a quem o Pai glorifica deve ser confessado na sua glória, e aquele que é glorificado na glória do Pai, deve ser entendido no mesmo caso que o Pai.
Hilarius de Trin · séc. IV
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