Santo Ambrósio de Milão
1Maria, mãe do nosso Senhor, estava diante da cruz de seu Filho. Nenhum dos Evangelistas me disse isto senão João. Os outros relataram como na Paixão do Senhor a terra tremeu, o céu se cobriu de trevas, o sol fugiu, o ladrão foi levado ao paraíso após a confissão. João nos disse o que os outros não disseram: como da cruz onde estava pendurado, Ele chamou Sua mãe. Ele considerou maior coisa mostrar-Se vencedor do castigo, cumprindo os ofícios de piedade para com Sua mãe, do que dar o reino dos céus e a vida eterna ao ladrão. Pois se era religioso dar vida ao ladrão, muito mais rica obra de piedade é que um filho honre sua mãe com tal afeto. Eis, diz Ele, teu filho; eis tua mãe. Cristo fez Seu Testamento da cruz, e dividiu os ofícios de piedade entre a Mãe e os discípulos. Nosso Senhor fez não somente um Testamento público, mas também doméstico. E este Seu Testamento João selou, testemunha digna de tal Testador. Bom testamento foi, não de dinheiro, mas de vida eterna, que não foi escrito com tinta, mas com o espírito do Deus vivo: Minha língua é a pena de um escriba veloz. Maria, como convinha à mãe do Senhor, estava diante da cruz, quando os Apóstolos fugiam, e com olhos piedosos contemplava as feridas de seu Filho. Pois ela não olhava para a morte do Penhor, mas para a salvação do mundo; e talvez sabendo que a morte de seu Filho traria esta salvação, ela que fora a habitação do Rei, pensou que com sua morte poderia aumentar aquele dom universal. Mas Jesus não necessitava de nenhuma ajuda para salvar o mundo, como se lê no Salmo: Fui feito como um homem sem socorro, livre entre os mortos. Ele recebeu de fato o afeto de mãe, mas não buscou o auxílio de outrem. Imitai-a, vós, santas matronas, que, como para com seu único e amadíssimo Filho, vos deu exemplo de tal virtude; pois não tendes filhos mais doces, nem a Virgem buscou consolação em tornar-se mãe novamente.
séc. IV
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