Comentário patrístico

Lc 18, 9-14

Veja o que os Padres da Igreja escreveram sobre esta passagem.

Trechos

23

Revisados

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Autores distintos

7

Matos Soares

9Disse também esta parábola a uns que confiavam muito em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros. 10"Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu, outro publicano. 11O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12Jejuo duas vezes na semana; pago o dízimo de tudo o que possuo, 13O publicano, porém, conservando-se a distância, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim pecador. 14Digo-vos que este voltou justificado para sua casa, o outro não; porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado."

Matos Soares · domínio público

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Comentários dos Padres

23

Expositor Grego (anônimo)

1

Ser diligente na oração foi a lição ensinada por nosso Senhor na parábola da viúva e do juiz; Ele agora nos instrui como devemos dirigir-Lhe as nossas orações, a fim de que as nossas orações não sejam infrutíferas. O fariseu foi condenado porque orou descuidadamente. Como se segue: O fariseu se pôs em pé e orava consigo mesmo.

Expositor Grego (anônimo)

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São Basílio Magno

3

«Orou consigo mesmo», isto é, não com Deus; seu pecado de soberba o fez voltar a si mesmo. Segue-se: «Deus, graças Te dou.»

séc. IV

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A diferença entre o homem soberbo e o escarnecedor está somente na forma exterior. Um ocupa-se em maldizer os outros, o outro em exaltar-se a si mesmo presunçosamente.

séc. IV

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Da mesma sorte é possível ser-se honrosamente exaltado, quando, na verdade, vossos pensamentos não são baixos, mas a vossa mente, pela grandeza da alma, se eleva para a virtude. Esta altivez de espírito vê-se numa alegria em meio à tristeza, ou numa espécie de nobre intrepidez na tribulação, num desprezo das coisas terrenas e numa conversação no céu. E esta altivez de espírito parece diferir daquela elevação que é engendrada pelo orgulho, assim como a robustez de um corpo bem regulado difere da inchação da carne que procede da hidropisia.

séc. IV

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São Gregório Magno

2

Várias são as formas pelas quais a soberba dos homens presunçosos se manifesta: quando imaginam que o bem que neles há procede deles mesmos; ou quando, crendo que lhes é dado do alto, julgam que o receberam por seus próprios méritos; ou, de qualquer modo, quando se vangloriam de ter aquilo que não têm; ou, finalmente, quando, desprezando os outros, procuram parecer singulares na posse daquilo que têm. E a este respeito o fariseu atribui a si mesmo especialmente o mérito das boas obras.

Gregorius Moralium · séc. VII

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Foi, pois, a soberba que desnudou aos seus astutos inimigos a cidadela do seu coração, que a oração e o jejum em vão mantiveram fechada. De nada servem todas as demais fortificações, enquanto há um lugar que o inimigo deixou indefeso.

Gregorius Moralium · séc. VII

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Santo Agostinho

6

Visto que a fé não é dom dos soberbos, mas dos humildes, nosso Senhor prossegue acrescentando uma parábola acerca da humildade e contra a soberba.

Augustinus de Verb. Dom · séc. V

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A sua falta não foi ter dado graças a Deus, mas não ter pedido nada mais. Porque estais cheio e abundais, não tendes necessidade de dizer: Perdoai-nos as nossas dívidas. Que culpa, pois, deve ter aquele que impiamente luta contra a graça, quando é condenado quem orgulhosamente dá graças? Ouçam aqueles que dizem: «Deus me fez homem, eu me fiz justo». Ó pior e mais odioso do que o fariseu, que orgulhosamente se declarou justo, e todavia deu graças a Deus por ser assim.

séc. V

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Ao menos poderia ter dito «tantos homens»; pois que quer dizer com «outros homens» senão todos exceto ele mesmo? «Eu sou justo, diz ele, os demais são pecadores.»

séc. V

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Vede como ele tira do publicano que está perto dele uma nova ocasião para soberba. Segue-se: «Ou mesmo como este publicano»; como se dissesse: «Eu estou só, ele é um dos outros.»

séc. V

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Se atentardes às suas palavras, achareis que nada pediu a Deus. Sobe, na verdade, para orar, mas, em vez de suplicar a Deus, louva-se a si mesmo; e até insulta aquele que orava. O Publicano, ao contrário, impelido pela consciência ferida para longe, pela sua piedade se aproxima.

séc. V

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Por que, pois, vos maravilhais de que Deus perdoe, já que Ele mesmo o reconhece? O publicano ficou ao longe, mas se aproximou de Deus. E o Senhor estava perto dele e o ouviu, porque o Senhor está nas alturas, contudo atenta para os humildes. Não ousava levantar os olhos ao céu, para que fosse olhado, ele não olhava. A consciência o oprimia, a esperança o erguia; batia no peito, exigia julgamento sobre si mesmo. Portanto, o Senhor poupou o penitente. Ouvistes a acusação do soberbo, ouvistes a humilde confissão do acusado. Ouvi agora a sentença do Juiz: Em verdade vos digo, este desceu justificado para sua casa, mais do que aquele.

séc. V

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Teofilacto de Ócrida

5

A soberba, além de todas as outras paixões, também perturba a mente do homem. E daí as tão freqüentes advertências contra ela. É, além disso, um desprezo de Deus; porque quando o homem atribui a si mesmo, e não a Deus, o bem que faz, que outra coisa é senão negar a Deus? Por amor, pois, daqueles que tanto confiam em si mesmos, que não querem atribuir tudo a Deus, e por isso desprezam os outros, propõe uma parábola, para mostrar que a justiça, embora possa elevar o homem até Deus, contudo, se ele está vestido de soberba, o precipita no inferno.

séc. XII

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Diz-se «de pé» para denotar o seu temperamento arrogante. Pois a sua própria postura atesta a sua extrema soberba.

séc. XII

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Observai a ordem da oração do fariseu. Ele primeiro fala daquilo que não tinha, e depois daquilo que tinha. Como se segue: Que não sou como os outros homens.

séc. XII

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Convém-nos não só evitar o mal, mas também fazer o bem; e assim, depois de ter dito: “Não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros”, acrescenta algo a título de contraste: “Jejuno duas vezes na semana”. Chamavam à semana o sábado, a partir do último dia de descanso. Os fariseus jejuavam no segundo e no quinto dia. Ele opõe, pois, o jejum à paixão do adultério, porque a concupiscência nasce da luxúria; mas aos extorsionários e usurários opõe o pagamento dos dízimos; como se segue: “Dou o dízimo de tudo que possuo”; como se dissesse: Estou tão longe de me entregar à extorsão ou de causar dano, que até entrego o que é meu.

séc. XII

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Mas, se alguém porventura se maravilha de que o fariseu, por proferir algumas palavras em seu próprio louvor, seja condenado, enquanto Jó, embora tenha derramado muitas, é coroado, respondo que o fariseu falou estas coisas ao mesmo tempo que acusava os outros sem fundamento; mas Jó foi compelido por uma urgente necessidade a enumerar suas próprias virtudes para a glória de Deus, a fim de que os homens não se desviassem do caminho da virtude.

séc. XII

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São João Crisóstomo

5

Desprezar todo o gênero humano não lhe bastava; cumpria-lhe ainda atacar o Publicano. Teria pecado, mas muito menos se houvera poupado o Publicano; porém agora, numa só palavra, assalta o ausente e inflige uma ferida no presente. Dar graças não é acumular vitupérios sobre outrem. Quando dais graças a Deus, que Ele seja tudo em todos para vós. Não volvais os vossos pensamentos para os homens, nem condeneis o vosso próximo.

séc. V

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Aquele que vitupera os outros causa grande dano tanto a si mesmo quanto aos outros. Primeiro, os que o ouvem tornam-se piores, pois, se são pecadores, alegram-se ao encontrar alguém tão culpado quanto eles; se são justos, exaltam-se, levados pelos pecados alheios a pensar mais altivamente de si mesmos. Segundo, o corpo da Igreja padece, porque os que o ouvem não se contentam em culpar apenas o réu, mas lançam a censura também sobre a religião cristã. Terceiro, a glória de Deus é blasfemada, porque, assim como o nosso bem-fazer faz o nome de Deus ser glorificado, assim os nossos pecados fazem com que ele seja blasfemado. Quarto, o objeto da censura fica confundido e torna-se mais temerário e inflexível. Quinto, o que censura torna-se ele próprio passível de castigo por proferir coisas que não convêm.

séc. V

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Ouviu as palavras: «Não sou como o publicano.» Não se irritou, mas foi compungido no coração. Um descobriu a chaga, o outro procura o remédio. Ninguém, pois, jamais apresente desculpa tão fria como: «Não ouso, envergonho-me, não posso abrir a boca.» Os demônios têm essa espécie de medo. O diabo quereria fechar contra vós toda porta de acesso a Deus.

séc. V

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Esta parábola nos apresenta dois carros no hipódromo, cada um com dois aurigas. Num dos carros coloca a justiça com a soberba; no outro, o pecado e a humildade. Vês o carro do pecado superar o da justiça, não pela sua própria força, mas pela excelência da humildade que lhe está unida; o outro, porém, é derrotado não pela justiça, mas pelo peso e inchação da soberba. Porque, assim como a humildade, pela sua elasticidade, se eleva acima do peso da soberba e, saltando, chega a Deus, assim a soberba, pelo seu grande peso, facilmente abate a justiça. Portanto, ainda que sejas zeloso e constante no bem-fazer, se pensas em te vangloriar, estás totalmente desprovido dos frutos da oração. Mas tu, que carregas mil fardos de culpa na consciência, e apenas pensas isto de ti mesmo, que és o mais ínfimo de todos os homens, ganharás grande confiança diante de Deus. E então Ele prossegue atribuindo a razão da Sua sentença: Porque todo o que se exalta será abatido, e o que se humilha será exaltado. A palavra humildade tem vários significados. Há a humildade da virtude, como: «Um coração contrito e humilde, ó Deus, não desprezarás.» Há também uma humildade proveniente das aflições, como: «Humilhou a minha vida sobre a terra.» Há uma humildade derivada do pecado, e da soberba e insaciabilidade das riquezas. Porque pode haver algo mais baixo e aviltado do que aqueles que se arrastam nas riquezas e no poder, e as têm por grandes coisas?

séc. V

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Esta inflação de soberba pode derrubar do céu até mesmo o homem que não se acautela, mas a humildade pode erguer um homem do mais profundo abismo de culpa. Uma salvou o publicano diante do fariseu e trouxe o ladrão ao Paraíso antes dos Apóstolos; a outra penetrou até mesmo nas potências espirituais. Mas se a humildade, ainda que acrescentada ao pecado, fez tão rápidos progressos a ponto de ultrapassar a soberba unida à justiça, quão mais veloz será seu curso quando lhe acrescentardes a justiça? Estará junto ao tribunal de Deus no meio dos anjos com grande confiança. Além disso, se a soberba unida à justiça teve poder para abatê-la, a que inferno precipitará os homens quando acrescentada ao pecado? Isto digo, não para que negligenciemos a justiça, mas para que evitemos a soberba.

séc. V

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São Beda, o Venerável

1

Em figura, o fariseu é o povo judeu, que se vangloria dos seus ornamentos por causa da justiça da lei, mas o publicano são os gentios, que, estando distantes de Deus, confessam os seus pecados. Dos quais um, pela sua soberba, voltou humilhado; o outro, pela sua contrição, foi julgado digno de se aproximar e ser exaltado.

séc. VIII

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