Comentário patrístico

Lc 6, 24-26

Veja o que os Padres da Igreja escreveram sobre esta passagem.

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Matos Soares

24Mas, ai de vós, ó ricos! porque tendes a vossa consolação (neste mundo). 25Ai de vós os que estais saciados! porque vireis a ter fome. Ai de vós os que agora rides! porque gemereis e chorareis. 26Ai de vós, quando todos os homens vos louvarem! porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles.

Matos Soares · domínio público

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Comentários dos Padres

12

São Basílio Magno

2

Ora, é manifesto que a regra da abstinência é necessária, porque o Apóstolo a menciona entre os frutos do Espírito. Pois a sujeição do corpo não se obtém por nada tanto como pela abstinência, pela qual, como que por um freio, nos convém refrear o fervor da juventude. A abstinência, portanto, é a mortificação do pecado, a extirpação das paixões, o princípio da vida espiritual, embotando em si mesma o aguilhão das tentações. Mas para que não haja qualquer concordância com os inimigos de Deus, devemos aceitar tudo conforme a ocasião exige, para mostrar que, para os puros, todas as coisas são puras, vindo, na verdade, às necessidades da vida, mas abstendo-nos inteiramente daquelas que conduzem ao prazer. Contudo, visto que não é possível que todos guardem as mesmas horas, ou o mesmo modo, ou a mesma proporção, haja, todavia, um só propósito: nunca esperar estar saciado, porque a plenitude do ventre torna o próprio corpo inapto para suas funções próprias, sonolento e inclinado ao que é nocivo.

séc. IV

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Enquanto o Senhor repreende os que agora riem, é manifesto que jamais haverá casa de riso para os fiéis, sobretudo sendo tão grande a multidão dos que morrem em pecado, pelos quais devemos chorar. O riso excessivo é sinal de falta de moderação e movimento de um espírito desenfreado; mas exprimir sempre os sentimentos do coração com uma suavidade de semblante não é inconveniente.

séc. IV

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São Cirilo de Alexandria

1

Tendo dito antes que a pobreza por amor de Deus é a causa de todo bem, e que a fome e o choro não serão sem o prêmio dos santos, passa a denunciar o oposto destas coisas como fonte de condenação e castigo. Mas ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação.

séc. V

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São João Crisóstomo

3

Pois esta expressão, ai, é sempre dita nas Escrituras àqueles que não podem escapar do castigo futuro.

séc. V

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Mas dizei-me, por que vos distraís e consumis com prazeres, vós que haveis de comparecer ante o formidável juízo e dar conta de todas as coisas feitas aqui?

séc. V

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Isto que aqui se diz não se opõe ao que o Senhor noutro lugar afirma: «Brilhe a vossa luz diante dos homens»; ou seja, que devemos ser zelosos em fazer o bem para glória de Deus, não para a nossa própria. Porque a vanglória é coisa perniciosa, e dela nascem a iniquidade, o desespero e a avareza, mãe de todo o mal. Se, porém, queres apartar-te dela, ergue sempre os olhos a Deus e contenta-te com aquela glória que d'Ele provém. Pois, se em todas as coisas devemos escolher os mais doutos por juízes, como confias à multidão o juízo da virtude, e não antes Àquele que, acima de todos, a conhece, pode dá-la e recompensá-la, cuja glória, portanto, se desejas, foge do louvor dos homens. Porquanto ninguém mais suscita a nossa admiração do que aquele que rejeita a glória. E, se nós assim fazemos, muito mais o faz o Deus de todas as coisas. Lembra-te, pois, de que a glória dos homens cedo perece, passando, com o tempo, ao esquecimento. Segue-se: «Porque assim faziam os seus pais aos falsos profetas.»

séc. V

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Santo Ambrósio de Milão

2

Mas, ainda que na abundância das riquezas muitos sejam os atrativos para o crime, muitos também são os estímulos para a virtude. Embora a virtude não necessite de amparo, e a oferenda do pobre seja mais louvável do que a liberalidade do rico, todavia não são aqueles que possuem riquezas, mas sim os que não sabem usá-las, que são condenados pela autoridade da sentença celestial. Pois, assim como é mais digno de louvor o pobre que dá sem mesquinhez, assim também é mais culpado o rico, que deveria dar graças pelo que recebeu, e não esconder, sem usar, a quantia que lhe foi dada para o bem comum. Não é, portanto, o dinheiro, mas o coração do possuidor que está em falta. E, embora não haja punição mais grave do que preservar com ansioso temor aquilo que há de servir para o proveito dos sucessores, contudo, porque os desejos cobiçosos se alimentam de um certo prazer de acumular, aqueles que tiveram a sua consolação na vida presente perderam o galardão eterno. Podemos, porém, aqui entender pelo rico o povo judeu, ou os hereges, ou ao menos os fariseus, que, regozijando-se na abundância de palavras e numa espécie de orgulho hereditário de eloquência, traspassaram a simplicidade da verdadeira fé e granjearam para si tesouros inúteis.

séc. IV

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E notai que Mateus, por meio de recompensas, chamou o povo à virtude e à fé, mas Lucas também os atemorizou, afastando-os dos seus pecados e iniquidades pela denúncia do castigo futuro.

séc. IV

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São Beda, o Venerável

4

Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Aquele rico vestido de púrpura estava farto, banquetando-se esplendidamente cada dia, mas suportou com fome aquele terrível “ai,” quando do dedo de Lázaro, a quem desprezara, suplicou uma gota d’água.

séc. VIII

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De outra maneira. Se são bem-aventurados os que sempre têm fome das obras de justiça, são, ao contrário, contados por infelizes os que, comprazendo-se nos próprios desejos, não padecem fome do verdadeiro bem. Segue-se: Ai de vós, os que rides, etc.

séc. VIII

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Mas porque a lisonja, sendo a própria nutriz do pecado, como azeite às chamas, costuma ministrar lenha aos que ardem em pecado, acrescenta: «Ai de vós quando todos os homens falarem bem de vós.»

séc. VIII

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Pelos falsos profetas entendem-se aqueles que, para ganhar o favor da multidão, procuram predizer acontecimentos futuros. O Senhor, no monte, pronuncia apenas as bênçãos dos bons; mas, na planície, descreve também o «ai» dos ímpios, porque os ouvintes ainda não instruídos devem primeiro ser levados por terrores às boas obras, ao passo que os perfeitos precisam apenas ser convidados por recompensas.

séc. VIII

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Lc 6, 24-26 — os Padres da Igreja · AUREA