Santo Agostinho
2O Evangelho, portanto, não está à venda, para que seja pregado por recompensa. Pois se assim o vendem, vendem uma grande coisa por pequeno preço. Recebam, pois, os pregadores do povo o sustento necessário, e de Deus a recompensa do seu trabalho. Porquanto o povo não dá salário aos que o servem no amor do Evangelho, mas como que um estipêndio que os possa sustentar para os habilitar a trabalhar.
Serm. · Serm., 46 · séc. V
tradução automáticaDe outro modo: Quando o Senhor disse aos Apóstolos: «Não possuais ouro», acrescentou imediatamente: «Digno é o operário do seu salário», para mostrar por que não queria que possuíssem e levassem consigo tais coisas; não que essas coisas não fossem necessárias ao sustento desta vida, mas que os enviou de tal maneira que mostrasse serem-lhes essas coisas devidas por aqueles a quem pregavam o Evangelho, como o soldo aos soldados. É claro que este preceito do Senhor não implica de modo algum que não devessem, segundo o Evangelho, viver por outro meio qualquer senão pelas contribuições daqueles a quem pregavam; de outro modo Paulo teria transgredido este preceito quando viveu do trabalho de suas próprias mãos. Mas deu aos Apóstolos a autoridade de que essas coisas lhes eram devidas da casa em que se hospedassem. Ora, quando o Senhor promulga um mandamento, se não for cumprido, é o pecado da desobediência; quando concede um privilégio, está no poder de qualquer um não usá-lo, e como que abster-se de reclamar o seu direito. Tendo, pois, o Senhor sancionado esta máxima, de que os que pregam o Evangelho devem viver do Evangelho, disse essas coisas aos Apóstolos, para que, confiantes, não possuíssem nem levassem consigo o necessário à vida, nem coisas grandes nem coisas pequenas. Por isso acrescenta: «Nem um bordão», para mostrar que do seu povo todas as coisas são devidas aos seus ministros, e que estes não requerem supérfluos. Esta autoridade significa pelo bordão, dizendo em Marcos: «Não leveis nada senão somente um bordão.» E quando lhes proíbe (em Mateus) levar consigo calçado, proíbe aquela solicitude e cuidado que se inquietaria por levá-lo com receio de que viesse a faltar. Assim também devemos entender acerca das duas túnicas, que ninguém julgue necessário levar outra além daquela que vestia, supondo que dela viesse a precisar; pois estaria em seu poder obter uma por esta autoridade que o Senhor lhe deu. Ademais, o que lemos em Marcos, que se calçassem de sandálias, parece implicar que esta espécie de calçado encerra em si um sentido místico, a saber, que o pé não fosse coberto por cima, nem tampouco ficasse nu por baixo, isto é, que o Evangelho não fosse ocultado, nem tampouco repousasse sobre vantagem terrena. Também, ao proibir-lhes levar duas túnicas, advertiu-os a não andarem com dissimulação, mas em simplicidade. Assim não podemos duvidar de que todas estas coisas foram ditas pelo Senhor, parte em sentido direto, parte em sentido figurado; e que dos dois Evangelistas um inseriu algumas coisas, o outro outras, em sua narrativa. Se alguém pensar que o Senhor não pudesse num só discurso dizer algumas coisas em sentido direto e outras em sentido místico, olhe para qualquer outra de suas sentenças, e verá quão precipitada e ignorante é a sua opinião. Quando o Senhor manda que a mão esquerda não saiba o que faz a direita, julga ele que a esmola, e os demais preceitos que ali estão, hão de tomar-se figuradamente?
De Cons. Evan. · De Cons. Evan., ii, 30 · séc. V
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