Santo Agostinho
1Esta declaração do Senhor, «Não é o que entra pela boca que contamina o homem», não é contrária ao Antigo Testamento. Como diz também o Apóstolo: «Tudo é puro para os puros»; [Tit 1:15] e «Toda a criatura de Deus é boa». [1 Tim 4:4] Entendam os maniqueus, se puderem, que o Apóstolo disse isto acerca das próprias naturezas e qualidades das coisas; ao passo que aquela letra da lei ritual declarava certos animais imundos, não em sua natureza, mas tipicamente, para certas figuras que eram necessárias por um tempo. Portanto, para tomar um exemplo no porco e no cordeiro, por natureza ambos são puros, porque naturalmente toda a criatura de Deus é boa; mas em certo sentido típico o cordeiro é puro e o porco imundo. Tomai as duas palavras «tolo» e «sábio» em sua própria natureza, como sons ou letras: ambas são puras; mas uma delas, por causa do significado que lhe está ligado, e não por coisa alguma que haja em sua própria natureza, pode ser dita impura. E talvez o que os porcos são na representação típica, isso seja entre os homens o tolo; e o animal e esta palavra de duas sílabas significam uma só e mesma coisa. Aquele animal é considerado imundo na lei porque não rumina; mas isso não é sua falta, mas sua natureza. Porém os homens de que esse animal é emblema são impuros por culpa própria, não por natureza; ouvem prontamente as palavras da sabedoria, mas nunca mais as meditam. Evocar do fundo da memória, pela doçura da recordação, ao palato do pensamento, o que quer que de útil tenhas ouvido — que outra coisa é isto senão ruminar espiritualmente? Os que não fazem isto são representados por esta espécie de animal. Tais semelhanças como estas, na palavra ou nas cerimônias, tendo significação figurativa, movem proveitosa e agradavelmente a mente racional; mas pelo povo de outrora, muitas dessas coisas não deviam apenas ser ouvidas, mas guardadas como preceitos. Pois era então o tempo em que convinha profetizar não somente em palavras, mas também em obras, aquelas coisas que haveriam de ser reveladas. Quando estas foram reveladas por Cristo e em Cristo, os encargos das observâncias não foram impostos à fé dos gentios; mas a autoridade da profecia foi ainda confirmada. Pergunto porém aos maniqueus se esta declaração do Senhor, quando disse que o homem não é contaminado pelo que entra em sua boca, é verdadeira ou falsa. Se é falsa, por que então o seu doutor Adimanto a aduz contra o Antigo Testamento? Se é verdadeira, por que, contrariamente ao seu teor, entendem eles que assim são contaminados?
cont. Faust. · cont. Faust., vi, 6 · séc. V
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