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Magistério da Igreja

Aeterni Patris

Leão XIII · 1879

33 parágrafos no totalTexto oficial
  1. §2

    Quem quer que dirija a sua atenção para as amargas contendas destes dias e busque uma razão para os problemas que afligem a vida pública e privada, deve chegar à conclusão de que uma causa fecunda dos males que agora nos afligem, bem como daqueles que nos ameaçam, reside nisto: que conclusões falsas acerca das coisas divinas e humanas, que tiveram origem nas escolas de filosofia, se infiltraram agora em todas as ordens do Estado e foram aceites pelo consentimento comum das massas. Pois, sendo da própria natureza do homem seguir o guia da razão nas suas ações, se o seu intelecto peca de algum modo, a sua vontade logo o seguirá; e assim acontece que as opiniões falsas, cuja sede está no entendimento, influenciam as ações humanas e as pervertem. Ao passo que, por outro lado, se os homens forem de mente sã e se firmarem em princípios verdadeiros e sólidos, resultará uma vasta quantidade de benefícios para o bem público e privado. Não atribuímos, de facto, tal força e autoridade à filosofia que a julguemos capaz de combater e extirpar todos os erros; pois, assim como, quando a religião cristã foi primeiramente constituída, veio à terra para a restaurar à sua primitiva dignidade pela admirável luz da fé, difundida “não com palavras persuasivas de sabedoria humana, mas com demonstração do Espírito e de poder”,[3] assim também, no tempo presente, olhamos acima de tudo para o poderoso auxílio de Deus Todo-Poderoso para trazer de volta ao reto entendimento as mentes dos homens e dissipar as trevas do erro.[4] Mas os auxílios naturais com que a graça da divina sabedoria, dispondo todas as coisas forte e suavemente, tem suprido o género humano não devem ser desprezados nem negligenciados, entre os quais evidentemente se destaca o reto uso da filosofia. Pois, não foi em vão que Deus colocou a luz da razão na mente humana; e tão longe está a luz sobre acrescentada da fé de extinguir ou diminuir o poder da inteligência, que antes o completa e, acrescentando-lhe força, a torna capaz de coisas maiores.

  2. §3

    Portanto, a própria Divina Providência requer que, ao chamar o povo de volta aos caminhos da fé e da salvação, se tire proveito também da ciência humana — uma prática aprovada e sábia que a história testemunha ter sido observada pelos Padres mais ilustres da Igreja. Eles, de facto, não costumavam menosprezar nem subestimar o papel que a razão tinha a desempenhar, como é resumido pelo grande Agostinho quando atribui a esta ciência “aquilo pelo qual a fé salutaríssima é gerada... é alimentada, defendida e fortalecida”.[5]

  3. §4

    Em primeiro lugar, a filosofia, se corretamente usada pelos sábios, de certo modo tende a suavizar e fortalecer o caminho para a verdadeira fé, e a preparar as almas dos seus discípulos para a recepção adequada da revelação; pelo que é bem chamada pelos escritores antigos ora de degrau para a fé cristã,[6] ora de prelúdio e auxílio do Cristianismo,[7] ora de mestra do Evangelho.[8] E, certamente, o Deus de toda a bondade, em tudo o que pertence às coisas divinas, não só manifestou pela luz da fé aquelas verdades que a inteligência humana não podia atingir por si mesma, mas também outras, não de todo inatingíveis pela razão, para que, com o auxílio da autoridade divina, fossem conhecidas por todos de uma só vez e sem qualquer mistura de erro. Daí que certas verdades, que ou foram divinamente propostas para serem cridas, ou estavam ligadas pelos mais estreitos laços à doutrina da fé, foram descobertas por sábios pagãos com o único auxílio da sua razão natural, foram demonstradas e provadas por argumentos adequados. Pois, como diz o Apóstolo, as coisas invisíveis d’Ele, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo entendidas pelas coisas que são feitas: o Seu eterno poder e divindade;[9] e os gentios, que não têm a Lei, mostram, contudo, a obra da Lei escrita nos seus corações.[10] Mas é muito conveniente voltar estas verdades, que foram descobertas até pelos sábios pagãos, para o uso e propósito da doutrina revelada, a fim de mostrar que tanto a sabedoria humana como o próprio testemunho dos nossos adversários servem para apoiar a fé cristã — um método que não é de introdução recente, mas de uso estabelecido, e foi muitas vezes adotado pelos santos Padres da Igreja. O que é mais, aqueles veneráveis homens, testemunhas e guardiães das tradições religiosas, reconhecem uma certa forma e figura disto na ação dos hebreus, que, estando prestes a partir do Egito, foram ordenados a levar consigo os vasos de ouro e prata e as vestes preciosas dos egípcios, para que, por uma mudança de uso, as coisas fossem dedicadas ao serviço do verdadeiro Deus, que anteriormente tinham sido instrumentos de ritos ignóbeis e supersticiosos. Gregório de Neocesareia[11] louva a Orígenes expressamente porque, com singular destreza, como quem arranca armas ao inimigo, converteu em defesa da sabedoria cristã e em destruição da superstição muitos argumentos extraídos dos escritos dos pagãos. E tanto Gregório de Nazianzo[12] como Gregório de Nissa[13] louvam e encomendam um modo semelhante de disputar em Basílio Magno; enquanto Jerónimo[14] o encomenda especialmente em Quadrato, discípulo dos Apóstolos, em Aristides, Justino, Ireneu e muitos outros. Agostinho diz: “Não vemos Cipriano, aquele doutor suavíssimo e beatíssimo mártir, sair do Egito carregado de ouro e prata e vestes? E também Lactâncio, e Vitorino, Optato e Hilário? E, para não falar dos vivos, quantos gregos fizeram o mesmo?”[15] Mas se a razão natural primeiro semeou este rico campo de doutrina antes de ser tornado fecundo pelo poder de Cristo, deve certamente tornar-se mais prolífico depois de a graça do Salvador ter renovado e acrescentado as faculdades nativas da mente humana. E quem não vê que um caminho plano e fácil se abre para a fé por tal método de estudo filosófico?

  4. §5

    Mas a vantagem a tirar de tal escola de filosofia não deve ser confinada a estes limites. A insensatez daqueles homens que “por estes bens que se veem não puderam compreender Aquele que é, isto é, nem, atendendo às obras, reconhecer quem era o Artífice”[16] é gravemente reprovada nas palavras da Sabedoria Divina. Em primeiro lugar, pois, colhe-se este grande e nobre fruto da razão humana: que ela demonstra que Deus existe; porque, pela grandeza da formosura e da criatura, o Criador delas pode ser visto, de modo a ser conhecido por elas.[17] Além disso, mostra que Deus excede na altura de todas as perfeições, especialmente na sabedoria infinita diante da qual nada está oculto, e na justiça absoluta que nenhuma afeição depravada poderia abalar; e que Deus, portanto, não é só verdadeiro, mas a própria verdade, que não pode enganar nem ser enganada. Donde claramente se segue que a razão humana encontra a mais plena fé e autoridade unidas na palavra de Deus. Do mesmo modo, a razão declara que a doutrina do Evangelho, desde o seu próprio início, foi manifestada por certos sinais maravilhosos, as provas estabelecidas, por assim dizer, da verdade inabalável; e que, portanto, todos os que depositam fé no Evangelho não creem temerariamente, como que seguindo fábulas engenhosamente urdidas,[18] mas, por um consentimento racionalíssimo, sujeitam a sua inteligência e juízo a uma autoridade que é divina. E de não menor importância é que a razão clarissimamente expõe que a Igreja instituída por Cristo (como está estabelecido no Concílio Vaticano), por causa da sua admirável propagação, da sua maravilhosa santidade e da sua inexaurível fecundidade em todos os lugares, bem como da sua unidade católica e estabilidade inabalável, é em si mesma um grande e perpétuo motivo de credibilidade e um testemunho irrefragável da sua própria missão divina.[19]

  5. §6

    Lançados assim os seus sólidos fundamentos, requer-se ainda da filosofia um perpétuo e variado serviço, para que a teologia sagrada possa receber e assumir a natureza, a forma e o génio de uma verdadeira ciência. Pois neste, o mais nobre dos estudos, é da máxima necessidade ligar, por assim dizer, num só corpo as muitas e várias partes das doutrinas celestes, para que, sendo cada uma alocada ao seu próprio lugar próprio e derivada dos seus próprios princípios, o todo se una numa completa união; a fim de que, finalmente, todas e cada uma das partes sejam fortalecidas pelos seus próprios argumentos e pelos das outras, invencíveis. Nem se deve silenciar ou menosprezar aquele conhecimento mais exato ou mais pleno das coisas que são cridas, e a compreensão algo mais lúcida, tanto quanto pode ir, dos próprios mistérios da fé, que Agostinho e os outros Padres encomendaram e se esforçaram por alcançar, e que o próprio Concílio Vaticano[20] declarou ser fecundíssima. Aqueles certamente alcançarão mais plena e facilmente esse conhecimento e compreensão que à integridade de vida e ao amor da fé juntam uma mente formada e aperfeiçoada por estudos filosóficos, como o mesmo Concílio Vaticano ensina que o conhecimento de tais dogmas sagrados deve ser buscado tanto pela analogia das coisas que são naturalmente conhecidas, como pela conexão desses mistérios entre si e com o fim último do homem.[21]

  6. §7

    Finalmente, o dever de defender religiosamente as verdades divinamente entregues e de resistir àqueles que ousam opor-se-lhes pertence aos estudos filosóficos. Por isso, é glória da filosofia ser considerada como o baluarte da fé e a forte defesa da religião. Como testemunha Clemente de Alexandria, a doutrina do Salvador é de facto perfeita em si mesma e nada necessita, pois é o poder e a sabedoria de Deus. E o auxílio da filosofia grega não torna a verdade mais poderosa; mas, na medida em que enfraquece os argumentos contrários dos sofistas e repele os ataques velados contra a verdade, foi acertadamente chamada a sebe e a vedação da vinha.[22] Pois, assim como os inimigos do nome católico, quando se preparam para atacar a religião, costumam tomar emprestadas as suas armas dos argumentos dos filósofos, assim também os defensores da ciência sagrada tiram muitos argumentos do tesouro da filosofia que podem servir para sustentar os dogmas revelados. E não é pequeno o triunfo da fé cristã em usar a razão humana para repelir poderosa e rapidamente os ataques dos seus adversários com as mesmas armas hostis que a própria razão humana forneceu. Esta espécie de combate religioso, São Jerónimo, escrevendo a Magno, nota que foi adotada pelo próprio Apóstolo dos Gentios; Paulo, o chefe do exército cristão e o orador invencível, combatendo pela causa de Cristo, habilmente converte até uma inscrição ocasional num argumento para a fé; pois aprendera do verdadeiro David a arrancar a espada das mãos do inimigo e a cortar a cabeça do soberbo Golias com a sua própria arma.[23] Além disso, a própria Igreja não só urge, mas até manda, que os mestres cristãos busquem auxílio da filosofia. Pois, o Concílio de Latrão V, depois de ter decidido que “toda a asserção contrária à verdade da fé revelada é de todo falsa, pela razão de que contradiz, ainda que levemente, a verdade”,[24] aconselha os professores de filosofia a prestar muita atenção à exposição dos argumentos falaciosos; visto que, como testemunha Agostinho, “se a razão se volta contra a autoridade da Sagrada Escritura, por mais especiosa que pareça, erra na semelhança da verdade; pois verdadeira não pode ser”.[25]

  7. §8

    Mas para que a filosofia seja capaz de colher aqueles preciosos frutos que indicámos, importa que ela, acima de tudo, nunca se aparte daquele caminho que os Padres trilharam desde uma venerável antiguidade, e que o Concílio Vaticano solene e autorizadamente aprovou. Como é evidente que devem ser aceites muitíssimas verdades da ordem sobrenatural que estão muito além do alcance do mais agudo intelecto, a razão humana, consciente da sua própria fraqueza, não ousa atribuir a si mesma poderes demasiado grandes, nem negar essas verdades, nem medi-las pelo seu próprio padrão, nem interpretá-las a seu bel-prazer; mas recebê-las, antes, com uma fé plena e humilde, e ter como a mais alta honra poder servir as doutrinas celestes como serva e atendente, e, pela bondade de Deus, alcançá-las de qualquer maneira que seja. Mas, no caso daquelas doutrinas que a inteligência humana pode perceber, é igualmente justo que a filosofia use o seu próprio método, princípios e argumentos — não, de facto, de tal modo que pareça afastar-se temerariamente da autoridade divina. Mas, uma vez que está estabelecido que aquelas coisas que se tornam conhecidas pela revelação têm a força de verdade certa, e que aquelas coisas que guerreiam contra a fé guerreiam igualmente contra a reta razão, o filósofo católico saberá que viola ao mesmo tempo a fé e as leis da razão se aceitar qualquer conclusão que entenda ser oposta à doutrina revelada.

  8. §9

    Sabemos que há alguns que, na sua superestimação das faculdades humanas, sustentam que, logo que o intelecto do homem se torna sujeito à autoridade divina, cai da sua nativa dignidade e, embaraçado pelo jugo deste tipo de escravidão, é muito retardado e impedido no seu progresso para a verdade e excelência supremas. Tal ideia é falsíssima e enganadora, e a sua única tendência é induzir homens insensatos e ingratos a repudiar voluntariamente as verdades mais sublimes e a rejeitar o dom divino da fé, do qual as fontes de todos os bens jorram para a sociedade civil. Pois a mente humana, sendo confinada dentro de certos limites, e esses bastante estreitos, está exposta a muitos erros e ignora muitas coisas; ao passo que a fé cristã, repousando na autoridade de Deus, é a mestra infalível da verdade, e quem a segue não será enredado nos laços do erro nem será lançado cá e lá nas ondas de opinião flutuante. Aqueles, portanto, que ao estudo da filosofia unem a obediência à fé cristã, filosofam da melhor maneira possível; pois o esplendor das verdades divinas, recebido na mente, ajuda o entendimento, e não só em nada diminui a sua dignidade, mas acrescenta grandemente à sua nobreza, perspicácia e estabilidade. Pois certamente é um exercício digno e utilíssimo da razão quando os homens dedicam as suas mentes a refutar aquelas coisas que são repugnantes à fé e a provar as coisas que estão de acordo com a fé. No primeiro caso, cortam o terreno debaixo dos pés do erro e expõem a viciosidade dos argumentos em que o erro se baseia; enquanto no segundo caso, tornam-se senhores de razões ponderosas para a demonstração sólida da verdade e a instrução satisfatória de qualquer pessoa razoável. Quem quer que negue que tal estudo e prática tendem a acrescentar aos recursos e a expandir as faculdades da mente, terá necessária e absurdamente de sustentar que a mente nada ganha em discernir entre o verdadeiro e o falso. Justamente, portanto, o Concílio Vaticano comemora nestas palavras os grandes benefícios que a fé conferiu à razão: A fé liberta e salva a razão do erro, e a dota de múltiplo conhecimento.[26] Um homem sábio, portanto, não acusaria a fé e a consideraria oposta à razão e às verdades naturais, mas antes daria graças a Deus de todo o coração, e sinceramente se alegraria de que, na densidade da ignorância e na maré cheia do erro, a santa fé, como uma estrela amiga, brilhe sobre o seu caminho e lhe aponte a bela porta da verdade, fora de todo o perigo de errar.

  9. §10

    Se, veneráveis irmãos, abris a história da filosofia, encontrareis tudo o que acabamos de dizer confirmado pela experiência. Os filósofos antigos, que, carentes do dom da fé, foram contudo tidos por tão sábios, caíram em muitos erros espantosos. Sabeis quantas vezes, entre algumas verdades, ensinaram coisas falsas e incongruentes; que opiniões vagas e duvidosas sustentaram acerca da natureza da Divindade, da primeira origem das coisas, do governo do mundo, do conhecimento divino do futuro, da causa e princípio do mal, do fim último do homem, da bem-aventurança eterna, acerca da virtude e do vício, e de outras matérias, cujo conhecimento verdadeiro e certo é sumamente necessário ao gênero humano; enquanto, por outro lado, os primeiros Padres e Doutores da Igreja, que bem compreenderam que, segundo o plano divino, o restaurador da ciência humana é Cristo, que é poder e sabedoria de Deus,[27] e em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência,[28] tomaram e investigaram os livros dos filósofos antigos, e compararam seus ensinamentos com as doutrinas da revelação, e, cuidadosamente os examinando, acarinharam o que neles era verdadeiro e sábio e emendaram ou rejeitaram todo o resto. Pois, assim como o Deus onividente, contra a crueldade dos tiranos, suscitou mártires poderosos em defesa da Igreja, homens pródigos de suas grandes vidas, da mesma forma, aos falsos filósofos e hereges opôs homens de grande sabedoria, para defender, até mesmo com o auxílio da razão humana, o tesouro das verdades reveladas. Assim, desde os primeiros séculos da Igreja, a doutrina católica encontrou uma multidão de adversários acérrimos, que, zombando dos dogmas e instituições cristãs, sustentavam que havia muitos deuses, que o mundo material nunca teve começo ou causa, e que o curso dos acontecimentos era de uma necessidade cega e fatal, não regulado pela vontade da Divina Providência.

  10. §11

    Mas os homens eruditos que chamamos apologistas logo enfrentaram esses mestres da doutrina insensata e, sob a guia da fé, encontraram argumentos também na sabedoria humana para provar que um só Deus, que se sobressai em todo o gênero de perfeição, deve ser adorado; que todas as coisas foram criadas do nada pelo Seu poder onipotente; que pela Sua sabedoria florescem e servem cada uma aos seus fins especiais. Entre estes, São Justino Mártir ocupa o primeiro lugar. Depois de ter frequentado as mais celebradas academias dos gregos, viu claramente, como ele mesmo confessa, que só poderia extrair as verdades em sua plenitude da doutrina da revelação. Abraçou-as com todo o ardor da sua alma, purificou-as da calúnia, defendeu-as corajosa e plenamente diante dos imperadores romanos, e conciliou com elas não poucos ditos dos filósofos gregos.

  11. §12

    Também Quadrato, e Aristides, Hermias e Atenágoras se ergueram nobremente naquele tempo. Nem Irineu, o invencível mártir e Bispo de Lyon, conquistou menor glória na mesma causa, quando, refutando energicamente as perversas opiniões dos orientais, obra dos gnósticos, espalhadas por todos os territórios do Império Romano, explicou (segundo Jerônimo) a origem de cada heresia e em que fonte filosófica teve seu início.[29] Mas quem não conhece as disputas de Clemente de Alexandria, que o mesmo Jerônimo assim honrosamente comemora: “Que há nelas que não seja erudito, e que não seja do âmago mesmo da filosofia?”[30] Ele mesmo, na verdade, com maravilhosa versatilidade, tratou de muitas coisas da maior utilidade para preparar uma história da filosofia, para o exercício da arte dialética, e para mostrar a concordância entre a razão e a fé. Depois dele veio Orígenes, que adornou a cátedra da escola de Alexandria, e foi muito versado nos ensinamentos dos gregos e orientais. Publicou muitos volumes, envolvendo grande trabalho, que eram admiravelmente adequados para explicar as divinas Escrituras e ilustrar os sagrados dogmas; os quais, embora, como agora se apresentam, não estejam totalmente isentos de erro, contêm, todavia, uma riqueza de conhecimento que tende ao crescimento e avanço das verdades naturais. Tertuliano opõe-se aos hereges com a autoridade das sagradas Escrituras; com os filósofos muda de argumento e disputa filosoficamente; mas de modo tão erudito e preciso os confundiu que ousou dizer: “Nem em ciência nem em instrução somos iguais, como imaginais.”[31] Arnóbio, também, em suas obras contra os pagãos, e Lactâncio, nas Instituições Divinas especialmente, com igual eloquência e força se esforçam para levar os homens a aceitar os dogmas e preceitos da sabedoria católica, não por jogos filosóficos, ao modo dos acadêmicos, mas vencendo-os, em parte com suas próprias armas, e em parte com argumentos tirados das mútuas contendas dos filósofos.[32] Mas os escritos sobre a alma humana, os atributos divinos e outras questões de grande importância, que o grande Atanásio e Crisóstomo, o príncipe dos oradores, nos deixaram, são, por comum consentimento, tão sumamente excelentes que parece que dificilmente algo poderia ser acrescentado à sua sutileza e plenitude. E, para não cobrir um campo muito vasto, acrescentamos ao número dos grandes homens de quem se fez menção os nomes de Basílio Magno e dos dois Gregórios, que, ao saírem de Atenas, aquela pátria de todo o saber, completamente equipados com toda a armadura da filosofia, voltaram a riqueza de conhecimento que cada um havia colhido num curso de estudo zeloso para a obra de refutar hereges e preparar cristãos.

  12. §13

    Mas Agostinho parece ter arrebatado a palma de todos. De engenho potentíssimo e totalmente saturado de ciência sagrada e profana, com fé altíssima e igual conhecimento, combateu vigorosamente todos os erros de seu tempo. Que tópico de filosofia não investigou? Que região dela não explorou diligentemente, seja ao expor aos fiéis os altíssimos mistérios da fé, seja ao defendê-los contra o assalto total dos adversários, ou ainda quando, ao demolir as fábulas dos acadêmicos ou dos maniqueus, lançou os seguros fundamentos e a firme estrutura da ciência humana, ou perseguiu a razão, a origem e as causas dos males que afligem o homem? Quão sutilmente raciocinou sobre os anjos, a alma, a mente humana, a vontade e o livre arbítrio, sobre a religião e a vida dos bem-aventurados, sobre o tempo e a eternidade, e até sobre a própria natureza dos corpos mutáveis. Depois, no Oriente, João Damasceno, seguindo as pegadas de Basílio e de Gregório de Nazianzo, e no Ocidente, Boécio e Anselmo, seguindo as doutrinas de Agostinho, acrescentaram grandemente ao patrimônio da filosofia.

  13. §14

    Mais tarde, os doutores da idade média, que são chamados escolásticos, dedicaram-se a uma grande obra — a de diligentemente colher, e examinar, e como que armazenar em um só lugar, para uso e comodidade da posteridade, as ricas e fecundas searas da ciência cristã espalhadas nas volumosas obras dos santos Padres. E quanto à origem, ao alcance e à excelência desta ciência escolástica, pode ser oportuno, veneráveis irmãos, falar aqui mais amplamente com as palavras de um dos mais sábios de Nossos predecessores, Sisto V: “Pelo favor divino dAquele que só dá o espírito de ciência, e sabedoria, e entendimento, e que, através de todos os tempos, conforme a necessidade, enriquece a Sua Igreja com novos bens e a fortalece com novos auxílios, foi fundada por Nossos pais, homens de eminente sabedoria, a teologia escolástica, a qual dois gloriosos doutores em particular, o angélico São Tomás e o seráfico São Boaventura, ilustres mestres desta faculdade, . . . com engenho sobre-excelente, com incansável diligência, e à custa de longos trabalhos e vigílias, ordenaram e embelezaram, e, habilmente disposta e claramente explicada de várias maneiras, transmitiram à posteridade.

  14. §15

    “E, na verdade, o conhecimento e o uso de tão salutar ciência, que flui das fecundas fontes das sagradas Escrituras, dos sumos Pontífices, dos santos Padres e dos concílios, deve ser sempre da máxima utilidade para a Igreja, seja com o fim de realmente e sadiamente entender e interpretar as Escrituras, seja para ler e explicar os Padres de modo mais seguro e mais proveitoso, seja para expor e refutar os vários erros e heresias; e nestes últimos dias, quando já sobrevieram aqueles tempos perigosos descritos pelo Apóstolo, quando os blasfemadores, os soberbos e os sedutores vão de mal a pior, errando eles mesmos e fazendo outros errar, há certamente uma grande necessidade de confirmar os dogmas da fé católica e confutar as heresias.”

  15. §16

    Embora estas palavras pareçam referir-se unicamente à teologia escolástica, podem, todavia, ser claramente aceitas como igualmente verdadeiras acerca da filosofia e seus louvores. Pois, as nobres qualidades que tornam a teologia escolástica tão temível aos inimigos da verdade — a saber, como acrescenta o mesmo Pontífice, “aquela pronta e estreita coerência de causa e efeito, aquela ordem e disposição como de um exército disciplinado em batalha, aquelas claras definições e distinções, aquele vigor de argumento e aquelas discussões agudas, pelas quais a luz se distingue das trevas, o verdadeiro do falso, expõem e desnudam, por assim dizer, as falsidades dos hereges envoltas numa nuvem de subterfúgios e falácias”[33] — essas nobres e admiráveis qualidades, dizemos, só se encontram no reto uso daquela filosofia que os mestres escolásticos costumavam usar cuidadosa e prudentemente até mesmo nas disputas teológicas. Além disso, sendo próprio e especial ofício dos teólogos escolásticos ligar com a mais firme cadeia a ciência humana e divina, certamente a teologia em que eles se distinguiram não teria ganho tal honra e recomendação entre os homens se tivessem usado de uma filosofia coxa e imperfeita ou vã.

  16. §17

    Entre os Doutores Escolásticos, o principal e mestre de todos se eleva Tomás de Aquino, que, como observa Caetano, porque “venerou sumamente os antigos Doutores da Igreja, de certo modo parece ter herdado o intelecto de todos.”[34] As doutrinas daqueles homens ilustres, como os membros dispersos de um corpo, Tomás as coligiu e cimentou, distribuiu em ordem maravilhosa, e tanto aumentou com importantes acréscimos que é justa e merecidamente considerado o baluarte e a glória especial da fé católica. Com seu espírito ao mesmo tempo humilde e rápido, sua memória pronta e tenaz, sua vida imaculada em tudo, amante da verdade por si mesma, ricamente dotado de ciência humana e divina, como o sol aqueceu o mundo com o calor de suas virtudes e o encheu com o esplendor de seu ensino. A filosofia não tem parte alguma que ele não tenha tratado fina e profundamente ao mesmo tempo; sobre as leis do raciocínio, sobre Deus e as substâncias incorpóreas, sobre o homem e outras coisas sensíveis, sobre as ações humanas e seus princípios, ele raciocinou de tal maneira que nele não falta nem uma plena série de questões, nem uma apta disposição das várias partes, nem o melhor método de proceder, nem a solidez dos princípios ou o vigor do argumento, nem a clareza e elegância do estilo, nem a facilidade para explicar o que é abstruso.

  17. §18

    Além disso, o Doutor Angélico levou sua investigação filosófica às razões e princípios das coisas, os quais, porque são compreensivíssimos e contêm em seu seio, por assim dizer, as sementes de quase infinitas verdades, haveriam de ser desdobrados no tempo oportuno por mestres posteriores e com boa colheita. E como ele também usou este método filosófico na refutação do erro, conquistou para si este título de distinção: que, sozinho, combateu vitoriosamente os erros dos tempos passados, e forneceu armas invencíveis para pôr em fuga os que pudessem surgir nos tempos futuros. De novo, distinguindo claramente, como convém, a razão da fé, enquanto associava felizmente uma com a outra, preservou os direitos e teve respeito pela dignidade de ambas; tanto assim, que a razão, levada sobre as asas de Tomás à sua altura humana, dificilmente pode subir mais alto, enquanto a fé dificilmente poderia esperar mais ou mais fortes auxílios da razão do que aqueles que já obteve através de Tomás.

  18. §19

    Por estas razões, homens muito doutos, especialmente nos séculos passados, da mais alta reputação em teologia e filosofia, depois de dominarem com infinito trabalho as imortais obras de Tomás, entregaram-se não tanto a ser instruídos na sua sabedoria angélica, mas a ser nela nutridos. Sabe-se que quase todos os fundadores e legisladores das ordens religiosas ordenaram a seus membros que estudassem e aderissem religiosamente aos ensinamentos de São Tomás, receosos de que algum deles se desviasse, ainda que levemente, das pegadas de tão grande homem. Para não falar da família de São Domingos, que justamente reivindica este grande mestre para sua glória, os estatutos dos beneditinos, dos carmelitas, dos agostinianos, da Companhia de Jesus e de muitos outros testificam que estão obrigados por esta lei.

  19. §20

    E, aqui, quão prazerosamente o pensamento voa de volta àquelas célebres escolas e universidades que floresceram outrora na Europa — a Paris, Salamanca, Alcalá, a Douai, Toulouse e Lovaina, a Pádua e Bolonha, a Nápoles e Coimbra, e a muitas outras! Todos sabem como a fama dessas sedes de saber cresceu com os anos, e que seu julgamento, muitas vezes solicitado em assuntos de grave momento, teve grande peso em toda parte. E sabemos como naqueles grandes lares da sabedoria humana, como em seu próprio reino, Tomás reinou supremo; e que as mentes de todos, tanto de mestres como de discípulos, repousavam em maravilhosa harmonia sob o escudo e a autoridade do Doutor Angélico.

  20. §21

    Mas, além disso, Nossos predecessores no pontificado romano celebraram a sabedoria de Tomás de Aquino com excepcionais tributos de louvor e os mais amplos testemunhos. Clemente VI na bula “In Ordine”; Nicolau V em seu breve aos frades da Ordem dos Pregadores, em 1451; Bento XIII na bula “Pretiosus”, e outros testemunham que a Igreja universal recebe esplendor de seu admirável ensino; enquanto São Pio V declara na bula “Mirabilis” que as heresias, confundidas e convencidas pelo mesmo ensino, foram dissipadas, e o mundo inteiro diariamente libertado de erros fatais; outros, como Clemente XII na bula “Verbo Dei”, afirmam que bênçãos fertilíssimas se espalharam de seus escritos por toda a Igreja, e que ele é digno da honra que é concedida aos maiores Doutores da Igreja, a Gregório e Ambrósio, Agostinho e Jerônimo; enquanto outros não hesitaram em propor São Tomás como exemplar e mestre das universidades e grandes centros de saber, para que O sigam com passos inabaláveis. Sobre o que são dignas de recordação as palavras do Beato Urbano V à Universidade de Toulouse: “É Nossa vontade, que por este ato vos impomos, que sigais o ensino do Bem-aventurado Tomás como a verdadeira e católica doutrina e que trabalheis com toda a vossa força para aproveitar da mesma.”[35] Inocêncio XII seguiu o exemplo de Urbano no caso da Universidade de Lovaina, na carta em forma de breve dirigida a essa universidade em 6 de fevereiro de 1694, e Bento XIV na carta em forma de breve dirigida em 26 de agosto de 1752 ao Colégio Dionisiano de Granada; enquanto a estes juízos de grandes Pontífices sobre Tomás de Aquino vem juntar-se o coroamento do testemunho de Inocêncio VI: “O seu ensino, acima do dos outros, excetuados apenas os escritos canônicos, goza de tal precisão de linguagem, tal ordem de matérias, tal verdade de conclusões, que aqueles que a ele se apegam nunca são encontrados a desviar-se do caminho da verdade, e quem ousar atacá-lo será sempre suspeito de erro.”[36]

  21. §22

    Os concílios ecumênicos também, onde floresce a flor de toda a sabedoria terrena, sempre se preocuparam em ter Tomás de Aquino em singular honra. Nos Concílios de Lião, Viena, Florença e do Vaticano, quase se poderia dizer que Tomás participou e presidiu as deliberações e decretos dos Padres, contendendo contra os erros dos gregos, dos hereges e racionalistas, com força invencível e com os mais felizes resultados. Mas a glória principal e especial de Tomás, que ele não partilhou com nenhum dos Doutores católicos, é que os Padres de Trento fizeram parte da ordem do conclave colocar sobre o altar, juntamente com a sagrada Escritura e os decretos dos sumos Pontífices, a “Suma” de Tomás de Aquino, donde buscar conselho, razão e inspiração.

  22. §23

    Um último triunfo estava reservado para este homem incomparável — a saber, compelir a homenagem, o louvor e a admiração até dos próprios inimigos do nome católico. Pois veio à luz que não faltaram entre os chefes de seitas heréticas alguns que declararam abertamente que, se o ensino de Tomás de Aquino fosse apenas removido, eles poderiam facilmente batalhar com todos os mestres católicos, obter a vitória e abolir a Igreja.[37] Uma vã esperança, na verdade, mas não um vão testemunho.

  23. §24

    Portanto, veneráveis irmãos, quantas vezes contemplamos o bem, a força e as vantagens singulares a serem derivadas de sua disciplina filosófica, que Nossos Padres tão caramente amaram, pensamos ser arriscado que sua honra especial não permaneça sempre e em toda parte, especialmente quando está estabelecido que a experiência diária, e o juízo dos maiores homens, e, para culminar tudo, a voz da Igreja, favoreceram a filosofia escolástica. Além disso, ao velho ensino sucedeu aqui e ali um novo sistema de filosofia, no qual deixamos de perceber aqueles frutos desejáveis e salutares que a Igreja e a própria sociedade civil prefeririam. Pois aprouve aos inovadores contendores do século XVI filosofar sem nenhum respeito pela fé, sendo pedido e dado por cada um o poder de inventar segundo seu próprio prazer e inclinação. Daí, foi natural que os sistemas de filosofia se multiplicassem desmedidamente, e conclusões divergentes e conflitantes surgissem acerca daquelas mesmas coisas que são as mais importantes no conhecimento humano. De uma massa de conclusões, os homens chegam frequentemente à vacilação e à dúvida; e quem não sabe quão facilmente a mente escorrega da dúvida ao erro? Mas, como os homens são propensos a seguir a liderança que lhes é dada, esta nova busca parece ter capturado as almas de certos filósofos católicos, que, lançando de lado o patrimônio da antiga sabedoria, preferiram edificar um novo edifício a fortalecer e completar o antigo com o auxílio do novo — inadvertidamente, na verdade, e não sem detrimento para as ciências. Pois, um sistema multiforme deste tipo, que depende da autoridade e escolha de qualquer professor, tem um fundamento sujeito a mudança, e consequentemente nos dá uma filosofia não firme, e estável, e robusta como a antiga, mas vacilante e frágil. E se, porventura, ela às vezes se encontra quase incapaz de suportar o choque de seus inimigos, deve reconhecer que a causa e a culpa estão nela mesma. Ao dizer isto, não temos intenção de desencorajar os homens doutos e hábeis que trazem sua indústria e erudição, e, o que é mais, a riqueza de novas descobertas, ao serviço da filosofia; pois, claro, entendemos que isto tende ao desenvolvimento do saber. Mas deve-se ter muito cuidado para que todo o seu ou o seu principal trabalho não se esgote nestas buscas e mera erudição. E o mesmo é verdadeiro acerca da teologia sagrada, que, na verdade, pode ser auxiliada e ilustrada por todo o gênero de erudição, embora seja absolutamente necessário abordá-la no grave modo dos Escolásticos, a fim de que, unidas nela as forças da revelação e da razão, continue a ser “o invencível baluarte da fé.”[38]

  24. §25

    Com previdente sabedoria, portanto, não poucos dos defensores dos estudos filosóficos, ao dirigirem recentemente suas mentes para a reforma prática da filosofia, visaram e visam restaurar o renomado ensinamento de Tomás de Aquino e reconduzi-lo à sua antiga beleza.

  25. §26

    Com grande alegria soubemos que muitos membros da vossa ordem, veneráveis irmãos, tomaram a peito este plano; e, enquanto louvamos ardentemente os seus esforços, exortamo-los a manter-se firmes no seu propósito, e recordamos a cada um e a todos vós que o nosso primeiro e mais querido pensamento é que forneçais à juventude estudiosa uma generosa e copiosa dádiva desses puríssimos rios de sabedoria que fluem inesgotavelmente da preciosa fonte do Doutor Angélico.

  26. §27

    Muitas são as razões pelas quais desejamos isto tão ardentemente. Em primeiro lugar, pois, visto que na tempestade que nos assola a fé cristã é constantemente assaltada pelas maquinações e astúcia de uma certa falsa sabedoria, todos os jovens, mas especialmente aqueles que são a esperança crescente da Igreja, devem ser alimentados com o alimento forte e robusto da doutrina, para que, fortes em vigor e armados em todos os pontos, se habituem a promover a causa da religião com força e juízo, "estando sempre prontos, segundo o conselho apostólico, a dar a razão da esperança que há em vós a todo aquele que a pedir"[39] e para que possam exortar na sã doutrina e convencer os contraditores.[40] Muitos daqueles que, com mentes afastadas da fé, odeiam as instituições católicas, reivindicam a razão como sua única senhora e guia. Ora, pensamos que, além do auxílio sobrenatural de Deus, nada é mais adequado para curar essas mentes e trazê-las ao favor da fé católica do que a sólida doutrina dos Padres e dos Escolásticos, que tão clara e vigorosamente demonstram os firmes fundamentos da fé, sua origem divina, sua certeza verdadeira, os argumentos que a sustentam, os benefícios que conferiu ao gênero humano e sua perfeita concordância com a razão, de maneira a satisfazer completamente as mentes abertas à persuasão, por mais relutantes e repugnantes que sejam.

  27. §28

    A sociedade doméstica e civil, que, como todos veem, está exposta a grande perigo por esta praga de opiniões perversas, certamente gozaria de uma existência muito mais pacífica e segura se uma doutrina mais salutar fosse ensinada nas universidades e escolas superiores — uma mais conforme com o ensino da Igreja, tal como está contida nas obras de Tomás de Aquino.

  28. §29

    Pois os ensinamentos de Tomás sobre o verdadeiro significado da liberdade, que neste tempo está se degenerando em libertinagem, sobre a origem divina de toda autoridade, sobre as leis e sua força, sobre o governo paterno e justo dos príncipes, sobre a obediência aos poderes superiores, sobre a caridade mútua uns para com os outros — sobre todos estes e assuntos afins — têm força muito grande e invencível para derrubar aqueles princípios da nova ordem que são bem conhecidos por serem perigosos para a ordem pacífica das coisas e para a segurança pública. Em suma, todos os estudos devem encontrar esperança de progresso e promessa de auxílio nesta restauração da disciplina filosófica que propusemos. As artes costumavam extrair da filosofia, como de uma sábia mestra, o juízo são e o método reto, e dela também o seu espírito, como da fonte comum da vida. Quando a filosofia se manteve sem mancha na honra e sábia no juízo, então, como os fatos e a experiência constante mostraram, as artes liberais floresceram como nunca antes ou depois; mas, negligenciadas e quase apagadas, jazeram prostradas, desde que a filosofia começou a inclinar-se para o erro e a aliar-se à loucura. Nem as próprias ciências físicas, que estão agora em tão grande reputação, e pela fama de tantas invenções atraem para si tão universal admiração, sofrerão prejuízo, mas encontrarão grandíssimo auxílio na restauração da antiga filosofia. Pois a investigação dos fatos e a contemplação da natureza não são suficientes por si sós para o seu proveitoso exercício e avanço; mas, quando os fatos estão estabelecidos, é necessário elevar-se e aplicar-nos ao estudo da natureza das coisas corpóreas, inquirir as leis que as regem e os princípios de onde procedem a sua ordem e unidade variada e a sua mútua atração na diversidade. Para tais investigações, é admirável a força, a luz e o auxílio que a filosofia escolástica, se ensinada judiciosamente, traria.

  29. §30

    E aqui convém notar que a nossa filosofia só pode, pela mais grave injustiça, ser acusada de se opor ao avanço e desenvolvimento da ciência natural. Pois, quando os Escolásticos, seguindo a opinião dos santos Padres, sempre sustentaram na antropologia que a inteligência humana só é levada ao conhecimento das coisas sem corpo e matéria pelas coisas sensíveis, eles bem compreenderam que nada era de maior utilidade para o filósofo do que investigar diligentemente os mistérios da natureza e ser sério e constante no estudo das coisas físicas. E isto eles confirmaram pelo seu próprio exemplo; pois São Tomás, o Beato Alberto Magno e outros líderes dos Escolásticos nunca estavam tão inteiramente absortos no estudo da filosofia que não dedicassem grande atenção ao conhecimento das coisas naturais; e, de fato, não é pequeno o número dos seus ditos e escritos sobre estes assuntos, que os recentes professores aprovam e admitem estar em harmonia com a verdade. Além disso, nesta mesma época, muitos ilustres professores das ciências físicas testemunham abertamente que entre certas e aceitas conclusões da física moderna e os princípios filosóficos das escolas não há conflito digno desse nome.

  30. §31

    Portanto, embora sustentemos que toda palavra de sabedoria, toda coisa útil, por quem quer que seja descoberta ou planejada, deve ser recebida com mente disposta e grata, exortamos-vos, veneráveis irmãos, com toda a seriedade, a restaurar a áurea sabedoria de São Tomás e a difundi-la amplamente para a defesa e beleza da fé católica, para o bem da sociedade e para o proveito de todas as ciências. A sabedoria de São Tomás, dizemos; pois se alguma coisa é tratada com demasiada subtileza pelos doutores escolásticos, ou afirmada com demasiado descuido — se há algo que não concorda bem com as descobertas de uma era posterior, ou, em suma, improvável de qualquer maneira — não entra em nosso pensamento propô-la para imitação à nossa época. Que professores cuidadosamente selecionados se esforcem por implantar a doutrina de Tomás de Aquino nas mentes dos estudantes e exponham claramente a sua solidez e excelência sobre as outras. Que as universidades já fundadas ou a fundar por vós ilustrem e defendam esta doutrina e a usem para a refutação dos erros prevalecentes. Mas, para que não se beba o falso pelo verdadeiro ou o corrupto pelo puro, vigiai para que a doutrina de Tomás seja extraída das suas próprias fontes, ou pelo menos daqueles riachos que, derivados da própria fonte, fluíram até agora, segundo o acordo estabelecido dos homens doutos, puros e claros; cuidai de guardar as mentes dos jovens daqueles que se dizem daí fluir, mas na realidade são colhidos de correntes estranhas e insalubres.

  31. §32

    Mas bem sabemos que serão vãos os nossos esforços a menos que, veneráveis irmãos, ajude a nossa causa comum Aquele que, nas palavras da divina Escritura, é chamado o Deus de toda a ciência;[41] pelo qual também somos advertidos que "toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes"[42] e ainda: "Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á dada."[43]

  32. §33

    Portanto, também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico, que nunca se dedicou à leitura ou à escrita sem primeiro implorar a bênção de Deus, que modestamente confessou que tudo o que sabia não o adquirira tanto pelo seu próprio estudo e trabalho como pelo dom divino; e, portanto, todos nós, em humilde e unida oração, supliquemos a Deus que envie o espírito de conhecimento e de entendimento aos filhos da Igreja e abra os seus sentidos para a compreensão da sabedoria. E para que recebamos frutos mais plenos da bondade divina, ofereçamos a Deus o patrocínio eficacíssimo da Bem-aventurada Virgem Maria, que é chamada sede da sabedoria; tendo ao mesmo tempo como advogados São José, o castíssimo esposo da Virgem, e Pedro e Paulo, os príncipes dos Apóstolos, cuja verdade renovou a terra que havia caído sob a impura mancha do erro, enchendo-a com a luz da sabedoria celeste.

  33. §34

    Finalmente, confiando no auxílio divino e confiando no vosso zelo pastoral, com muito amor concedemos a todos vós, veneráveis irmãos, a todo o clero e aos rebanhos confiados aos vossos cuidados, a bênção apostólica como penhor de dons celestiais e sinal da nossa especial estima. Dado em São Pedro, em Roma, no quarto dia de agosto de 1879, segundo ano do nosso pontificado.

Aeterni Patris — texto integral | Aurea