§2
Quem quer que dirija a sua atenção para as amargas contendas destes dias e busque uma razão para os problemas que afligem a vida pública e privada, deve chegar à conclusão de que uma causa fecunda dos males que agora nos afligem, bem como daqueles que nos ameaçam, reside nisto: que conclusões falsas acerca das coisas divinas e humanas, que tiveram origem nas escolas de filosofia, se infiltraram agora em todas as ordens do Estado e foram aceites pelo consentimento comum das massas. Pois, sendo da própria natureza do homem seguir o guia da razão nas suas ações, se o seu intelecto peca de algum modo, a sua vontade logo o seguirá; e assim acontece que as opiniões falsas, cuja sede está no entendimento, influenciam as ações humanas e as pervertem. Ao passo que, por outro lado, se os homens forem de mente sã e se firmarem em princípios verdadeiros e sólidos, resultará uma vasta quantidade de benefícios para o bem público e privado. Não atribuímos, de facto, tal força e autoridade à filosofia que a julguemos capaz de combater e extirpar todos os erros; pois, assim como, quando a religião cristã foi primeiramente constituída, veio à terra para a restaurar à sua primitiva dignidade pela admirável luz da fé, difundida “não com palavras persuasivas de sabedoria humana, mas com demonstração do Espírito e de poder”,[3] assim também, no tempo presente, olhamos acima de tudo para o poderoso auxílio de Deus Todo-Poderoso para trazer de volta ao reto entendimento as mentes dos homens e dissipar as trevas do erro.[4] Mas os auxílios naturais com que a graça da divina sabedoria, dispondo todas as coisas forte e suavemente, tem suprido o género humano não devem ser desprezados nem negligenciados, entre os quais evidentemente se destaca o reto uso da filosofia. Pois, não foi em vão que Deus colocou a luz da razão na mente humana; e tão longe está a luz sobre acrescentada da fé de extinguir ou diminuir o poder da inteligência, que antes o completa e, acrescentando-lhe força, a torna capaz de coisas maiores.