Concílio de Éfeso (431), Segunda Carta de São Cirilo a Nestório
Ao religiosíssimo e amado de Deus, companheiro de ministério Nestório, Cirilo envia saudação no Senhor. Ouço que alguns falam temerariamente da estima em que tenho a vossa santidade, e que isto acontece com frequência, especialmente nas ocasiões em que se realizam reuniões dos que estão em autoridade. E talvez pensem que, agindo assim, digam algo que vos agrade, mas falam insensatamente, pois de mim não sofreram injustiça alguma, mas foram por mim expostos apenas para seu proveito; este como opressor dos cegos e necessitados, aquele como quem feriu sua mãe com uma espada. Outro, porque roubou, em conluio com sua criada, o dinheiro alheio, e sempre laborou sob a imputação de tais crimes como ninguém desejaria que nem mesmo um de seus mais acerbos inimigos estivessem carregados. Pouco me importam as palavras de tais pessoas, pois o discípulo não está acima do seu Mestre, nem eu esticaria a medida do meu estreito entendimento acima dos Padres, pois qualquer caminho de vida que se siga, dificilmente se escapa da mácula dos maus, cujas bocas estão cheias de maldição e amargura, e que por fim hão de dar contas ao Juiz de todos. Mas volto ao ponto que especialmente tinha em mente. E agora exorto-vos, como irmão no Senhor, a propor ao povo a palavra do ensino e a doutrina da fé com toda a exatidão, e a considerar que o escândalo dado a um dos pequeninos que creem em Cristo expõe um corpo à insuportável indignação de Deus. E de quão grande diligência e habilidade há necessidade quando a multidão dos que se magoam é tão grande, para que possamos administrar a palavra curativa da verdade aos que a buscam. Mas isto conseguiremos otimamente se meditarmos nas palavras dos santos Padres e nos empenharmos em obedecer aos seus mandamentos, examinando-nos a nós mesmos se estamos na fé, segundo o que está escrito, e conformando os nossos pensamentos ao seu reto e irrepreensível ensino. Diz, portanto, o santo e grande Sínodo, que o Filho unigênito, nascido segundo a natureza de Deus Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz, pelo qual o Pai fez todas as coisas, desceu, e se encarnou, e se fez homem, padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus. A estas palavras e a estes decretos devemos seguir, considerando o que significa o Verbo de Deus ter-se encarnado e feito homem. Pois não dizemos que a natureza do Verbo se mudou e se fez carne, ou que se converteu num homem completo consistindo de alma e corpo; mas antes que o Verbo, tendo unido pessoalmente a si a carne animada por alma racional, se fez homem de modo inefável e inconcebível, e foi chamado Filho do Homem, não apenas por querer ou comprazer-se em ser assim chamado, nem por ter assumido uma pessoa, mas porque, tendo sido as duas naturezas reunidas em verdadeira união, há de ambas um só Cristo e um só Filho; pois a diferença das naturezas não é suprimida pela união, mas antes a divindade e a humanidade nos aperfeiçoam o único Senhor Jesus Cristo pela sua inefável e inexprimível união. Assim, pois, aquele que existia antes de todos os séculos e nasceu do Pai, diz-se que nasceu segundo a carne de uma mulher, não como se a sua natureza divina tivesse recebido o princípio da sua existência na santa Virgem (pois não necessitava de uma segunda geração depois da do Pai, porque seria absurdo e insensato dizer que aquele que existia antes de todos os séculos, coeterno com o Pai, necessitava de um segundo princípio de existência), mas porque, para nós e para a nossa salvação, uniu pessoalmente a si um corpo humano, e saiu de uma mulher, por isso se diz que nasceu segundo a carne; pois não nasceu primeiro um homem comum da santa Virgem, e depois o Verbo desceu e entrou nele, mas, tendo-se feito a união no próprio seio, diz-se que sofreu um nascimento segundo a carne, atribuindo a si o nascimento da sua própria carne. Por isso dizemos que padeceu e ressuscitou; não como se Deus Verbo padecesse na sua própria natureza açoites, ou a perfuração dos cravos, ou quaisquer outras feridas, pois a natureza divina é incapaz de sofrimento, porquanto é incorpórea, mas porque aquilo que se tornara seu próprio corpo padeceu desta maneira, também se diz que ele padeceu por nós; pois aquele que em si mesmo é incapaz de sofrer estava num corpo sofredor. Do mesmo modo também pensamos acerca da sua morte; pois o Verbo de Deus é por natureza imortal e incorruptível, e vida e vivificante; contudo, porque o seu próprio corpo, como diz Paulo, pela graça de Deus provou a morte por todos, ele mesmo se diz que sofreu a morte por nós, não como se tivesse tido qualquer experiência da morte na sua própria natureza (pois seria loucura dizer ou pensar isto), mas porque, como acabo de dizer, a sua carne provou a morte. Do mesmo modo, a sua carne sendo ressuscitada, fala-se da sua ressurreição, não como se ele tivesse caído na corrupção (Deus nos livre!), mas porque o seu próprio corpo foi ressuscitado. Nós, portanto, confessamos um só Cristo e Senhor, não adorando um homem juntamente com o Verbo (para que esta expressão "juntamente com o Verbo" não sugira à mente a ideia de divisão), mas adorando-O como um só e o mesmo, porquanto o corpo do Verbo, com o qual está sentado com o Pai, não está separado do próprio Verbo, não como se dois filhos estivessem sentados com Ele, mas um só pela união com a carne. Se, porém, rejeitamos a união pessoal como impossível ou inconveniente, caímos no erro de falar de dois filhos, pois será necessário distinguir e dizer que aquele que era propriamente homem foi honrado com a denominação de Filho, e que aquele que é propriamente o Verbo de Deus tem por natureza tanto o nome como a realidade da filiação. Não devemos, portanto, dividir o único Senhor Jesus Cristo em dois filhos. Nem de nada servirá para uma fé sã sustentar, como alguns fazem, uma união de pessoas; pois a Escritura não disse que o Verbo uniu a si a pessoa do homem, mas que se fez carne. Esta expressão, porém, "o Verbo se fez carne", não pode significar outra coisa senão que ele se tornou participante de carne e sangue como nós; fez nosso corpo seu, e saiu homem de uma mulher, não despojando-se da sua existência como Deus, nem da sua geração de Deus Pai, mas mesmo ao assumir a carne permanecendo o que era. Isto a declaração da reta fé proclama por toda a parte. Este era o sentimento dos santos Padres; por isso ousaram chamar à santa Virgem, Mãe de Deus, não como se a natureza do Verbo ou a sua divindade tivesse princípio da santa Virgem, mas porque dela nasceu aquele santo corpo com alma racional, ao qual o Verbo, unido pessoalmente, se diz que nasceu segundo a carne. Estas coisas, portanto, vos escrevo agora por amor de Cristo, suplicando-vos como irmão e testemunhando-vos diante de Cristo e dos anjos eleitos, que penseis e ensineis estas coisas conosco, para que a paz das Igrejas seja preservada e o vínculo da concórdia e do amor permaneça íntegro entre os Sacerdotes de Deus.