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Magistério da Igreja

E Supremi Apostolatus

Pio X · 1903

14 parágrafos no totalTexto oficial
  1. §2

    Na verdade, não faltaram razões, numerosas e gravíssimas, que justificassem esta Nossa resistência. Pois, além do fato de Nos considerarmos totalmente indigno, pela Nossa pequenez, da honra do Pontificado, quem não se teria perturbado ao ver-se designado para suceder Àquele que, governando a Igreja com suma sabedoria por quase vinte e seis anos, se mostrou adornado de tão sublime engenho, de tão fulgente esplendor de todas as virtudes, a ponto de atrair a Si a admiração até dos adversários e deixar a Sua memória gravada em gloriosos feitos? Depois, para omitir outros motivos, fomos aterrorizado, acima de tudo, pelo estado desastroso da sociedade humana nos dias de hoje. Pois quem não vê que a sociedade, no tempo presente, mais do que em qualquer época passada, sofre de uma terrível e profunda enfermidade, que, desenvolvendo-se cada dia e corroendo-lhe o íntimo ser, a arrasta para a ruína? Vós compreendeis, Veneráveis Irmãos, qual é esta doença — a apostasia de Deus, do que, na verdade, nada é mais aliado à ruína, segundo a palavra do Profeta: “Pois eis que os que se afastam de Ti perecerão” (Sl 72, 17). Vimos, portanto, que, em virtude do ministério do Pontificado, que nos havia de ser confiado, devíamos apressar-nos a encontrar remédio para este grande mal, considerando como dirigido a Nós aquele mandamento divino: “Eis que hoje te estabeleci sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derrubares, para arruinares e destruíres, e para edificares e plantares” (Jr 1, 10). Mas, ciente da Nossa fraqueza, recuamos aterrorizados diante de uma tarefa tão urgente quanto árdua.

  2. §4

    Visto, porém, que aprouve à Vontade Divina elevar a nossa baixeza a tal sublimidade de poder, cobramos ânimo Naquele que nos fortalece; e, dispondo‑nos ao trabalho, confiando no poder de Deus, proclamamos não ter outro programa no Supremo Pontificado senão o de “restaurar todas as coisas em Cristo” (Efés. 1,10), a fim de que “Cristo seja tudo em todos” (Col. 3,2). Haverá certamente quem, medindo as coisas divinas por padrões humanos, procure descobrir desígnios ocultos nossos, torcendo‑os para um escopo terreno e para projetos partidários. Para eliminar toda vã ilusão a tais, dizemos‑lhes com ênfase que não desejamos ser, e, com o auxílio divino, jamais seremos perante a sociedade humana senão o Ministro de Deus, de cuja autoridade somos depositários. Os interesses de Deus serão o nosso interesse, e por eles estamos resolvidos a gastar todas as nossas forças e a própria vida. Por conseguinte, se alguém nos pedir um símbolo como expressão da nossa vontade, daremos este e nenhum outro: “Renovar todas as coisas em Cristo”. Ao empreender esta gloriosa tarefa, somos grandemente animados pela certeza de que teremos a todos vós, Veneráveis Irmãos, como generosos cooperadores. Se disso duvidássemos, dever‑íamos considerar‑vos, injustamente, como inconscientes ou descuidados daquela guerra sacrílega que agora, quase por toda parte, se suscita e fomenta contra Deus. Pois, na verdade, “As nações se enfureceram e os povos imaginaram coisas vãs” (Sl. 2,1) contra o seu Criador, tão frequente é o grito dos inimigos de Deus: “Afasta‑te de nós” (Jó 21,14). E, como era de esperar, encontra‑se extinto entre a maioria dos homens todo o respeito pelo Deus Eterno, e não se dá atenção, nas manifestações da vida pública e privada, à Vontade Suprema — antes, todo esforço e todo artifício se emprega para destruir por completo a memória e o conhecimento de Deus.

  3. §5

    Considerado tudo isto, há justo motivo para temer que esta grande perversidade seja como que um prelúdio, e talvez o início, daqueles males que estão reservados para os últimos dias; e que já exista no mundo o “Filho da Perdição” de quem fala o Apóstolo (II Tess. 2,3). Tal é, na verdade, a audácia e a ira que se empregam por toda parte em perseguir a religião, em combater os dogmas da fé, no esforço descarado de arrancar e destruir todas as relações entre o homem e a Divindade! Enquanto, por outro lado, e isto, segundo o mesmo Apóstolo, é a nota distintiva do Anticristo, o homem, com infinita temeridade, se colocou no lugar de Deus, elevando-se acima de tudo o que se chama Deus; de tal modo que, embora não possa extinguir completamente em si todo conhecimento de Deus, desprezou a majestade de Deus e, por assim dizer, fez do universo um templo onde ele mesmo deve ser adorado. “Senta-se no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus” (II Tess. 2,2).

  4. §6

    Na verdade, ninguém de são juízo pode duvidar do desfecho desta contenda entre o homem e o Altíssimo. O homem, abusando da sua liberdade, pode violar o direito e a majestade do Criador do Universo; mas a vitória será sempre de Deus — mais ainda, a derrota está iminente no momento em que o homem, iludido pelo seu triunfo, se ergue com maior audácia. Disto nos asseguram nas Sagradas Escrituras o próprio Deus. Como que esquecido da sua força e grandeza, “deixa passar os pecados dos homens” (Sab., XI, 24), mas, após estes aparentes recuos, “despertou como um forte embriagado de vinho” (Sl., LXXVII, 65), “e quebrantará a cabeça dos seus inimigos” (Sl., LXVII, 22), para que todos saibam “que Deus é o rei de toda a terra” (Sl., LXVI, 8), “e que as nações reconheçam que são homens” (Sl., IX, 20).

  5. §7

    Tudo isto, Veneráveis Irmãos, Nós cremos e esperamos com fé inabalável. Mas isto não nos impede também, segundo a medida dada a cada um, de nos esforçarmos por apressar a obra de Deus — e não apenas rezando assiduamente: “Levanta-te, Senhor, não prevaleça o homem” (Ib. ix., 19), mas, o que é ainda mais importante, afirmando tanto por palavra como por ação e à luz do dia, o supremo domínio de Deus sobre o homem e sobre todas as coisas, de modo que o seu direito de mandar e a sua autoridade sejam plenamente reconhecidos e respeitados. Isto nos é imposto não só como um dever natural, mas pelo nosso interesse comum. Pois, Veneráveis Irmãos, quem pode deixar de ficar horrorizado e aflito ao ver, em meio a um progresso da civilização justamente louvado, a maior parte dos homens combaterem-se tão ferozmente que parece ser universal a contenda? O desejo da paz está certamente abrigado em todo peito, e não há quem não a invoque ardentemente. Mas querer a paz sem Deus é um absurdo, pois onde Deus está ausente, dali também foge a justiça, e, tirada a justiça, é vã a esperança da paz. “A paz é obra da justiça” (Is. xxii., 17). Muitos há, bem o sabemos, que, no seu desejo de paz, isto é da tranquilidade da ordem, se unem em sociedades e partidos, a que chamam partidos da ordem. Esperança e trabalho perdidos. Porque há um só partido da ordem capaz de restaurar a paz em meio a toda esta agitação, e é o partido de Deus. É este partido, portanto, que devemos promover, e para ele atrair quantos pudermos, se somos verdadeiramente impelidos pelo amor da paz.

  6. §8

    Porém, Veneráveis Irmãos, nunca, por mais que nos esforcemos, conseguiremos chamar os homens de volta à majestade e ao império de Deus, senão por meio de Jesus Cristo. “Ninguém”, adverte o Apóstolo, “pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, que é Jesus Cristo” (I Cor 3,11). Só Cristo é “aquele a quem o Pai santificou e enviou a este mundo” (Jo 10,36), “o esplendor do Pai e a imagem da sua substância” (Hb 1,3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem; sem Ele ninguém pode conhecer a Deus com o conhecimento que salva, “nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). Donde se segue que restaurar todas as coisas em Cristo e conduzir os homens de volta à submissão a Deus é um só e mesmo fim. Para isto, portanto, convém que dediquemos o nosso cuidado — conduzir a humanidade de volta sob o domínio de Cristo; feito isto, tê-la-emos reconduzido a Deus. Quando dizemos a Deus, não nos referimos àquele ser inerte, indiferente a todas as coisas humanas, que o sonho dos materialistas imaginou, mas ao Deus verdadeiro e vivo, uno na natureza, trino nas pessoas, Criador do mundo, sapientíssimo Ordenador de todas as coisas, Legislador justíssimo, que pune os maus e reserva recompensa para a virtude.

  7. §9

    Ora, o caminho para chegar a Cristo não é difícil de encontrar: é a Igreja. Com razão inculca Crisóstomo: “A Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refúgio.” (Hom. de capto Euthropio, n. 6.) Foi para isso que Cristo a fundou, adquirindo-a ao preço do Seu sangue, e a fez depositária da Sua doutrina e das Suas leis, concedendo-lhe ao mesmo tempo um tesouro inesgotável de graças para a santificação e salvação dos homens. Vedes, pois, Veneráveis Irmãos, o dever que foi imposto igualmente a Nós e a vós de reconduzir à disciplina da Igreja a sociedade humana, agora afastada da sabedoria de Cristo; a Igreja então a sujeitará a Cristo, e Cristo a Deus. Se Nós, pela bondade do próprio Deus, levarmos esta tarefa a feliz termo, nos alegraremos ao ver o mal dar lugar ao bem, e ouvir, para nossa alegria, “uma grande voz do céu que diz: Agora veio a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus e o poder do seu Cristo” (Ap 12,10). Mas se o nosso desejo de alcançar isto deve ser cumprido, devemos usar todos os meios e empregar toda a nossa energia para conseguir o total desaparecimento da enorme e detestável maldade, tão característica do nosso tempo — a substituição do homem por Deus; feito isto, resta restaurar à sua antiga honra as santíssimas leis e conselhos do evangelho; proclamar em alta voz as verdades ensinadas pela Igreja, e os seus ensinamentos sobre a santidade do matrimônio, sobre a educação e disciplina da juventude, sobre a posse e uso dos bens, os deveres dos homens para com os que governam o Estado; e, por último, restaurar o equilíbrio entre as diferentes classes da sociedade segundo o preceito e costume cristão. Isto é o que Nós, submetendo-Nos às manifestações da vontade divina, propomo-nos a alcançar durante o Nosso Pontificado, e empregaremos toda a nossa diligência para o conseguir. É a vós, Veneráveis Irmãos, que compete secundar os Nossos esforços com a vossa santidade, conhecimento e experiência, e sobretudo com o vosso zelo pela glória de Deus, sem outro objetivo senão que Cristo seja formado em todos.

  8. §10

    Quanto aos meios a empregar para alcançar este grande fim, parece supérfluo nomeá-los, pois por si mesmos são óbvios. Seja vosso primeiro cuidado formar Cristo naqueles que, pelo dever da sua vocação, estão destinados a formá-Lo nos outros. Falamos dos sacerdotes, Veneráveis Irmãos. Pois todos os que trazem o selo do sacerdócio devem saber que têm a mesma missão para com o povo em meio ao qual vivem, como aquela que Paulo proclamou ter recebido nestas ternas palavras: “Meus filhinhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19). Mas como poderão cumprir este dever se eles mesmos não estiverem primeiro revestidos de Cristo? e tão revestidos de Cristo que possam dizer com o Apóstolo: “Vivo, mas já não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21). Portanto, embora todos estejam incluídos na exortação “de avançar para o homem perfeito, na medida da idade da plenitude de Cristo” (Ef 4,13), ela se dirige antes de todos os outros àqueles que exercem o ministério sacerdotal; assim, estes são chamados outro Cristo, não apenas pela comunicação do poder, mas também pela imitação das suas obras, e devem, portanto, trazer estampada em si mesmos a imagem de Cristo.

  9. §11

    Sendo assim, Veneráveis Irmãos, de que natureza e magnitude é o cuidado que deveis ter na formação do clero para a santidade! Todas as outras tarefas devem ceder a esta. Por isso, a parte principal da vossa diligência será dirigida a governar e ordenar bem os vossos seminários, para que floresçam igualmente na solidez do ensino e na pureza dos costumes. Considerai o vosso seminário como a alegria do vosso coração, e não negligencieis, por ele, nenhuma das disposições que o Concílio de Trento com admirável previsão prescreveu. E quando chegar o tempo de promover os jovens candidatos às sagradas ordens, ah! não vos esqueçais do que Paulo escreveu a Timóteo: “A ninguém imponhas as mãos levianamente” (I Tim. v, 22), tendo cuidadosamente presente que, em regra geral, os fiéis serão tais quais aqueles que chamais ao sacerdócio. Não atenteis, pois, a interesses particulares de nenhuma espécie, mas tende no coração somente a Deus, a Igreja e a salvação eterna das almas, para que, como adverte o Apóstolo, “não sejais participantes dos pecados alheios” (Ibid.). Outrossim, não falteis de solicitude para com os jovens sacerdotes que acabam de sair do seminário. Do íntimo do Nosso coração, exortamo-vos a trazê-los frequentemente junto ao vosso peito, que deve arder com fogo celeste — acendei-os, inflamai-os, para que aspirem unicamente a Deus e à salvação das almas. Ficai certos, Veneráveis Irmãos, que Nós, de nossa parte, empregaremos a máxima diligência para impedir que os membros do clero sejam atraídos aos laços de uma certa ciência nova e falaciosa, que não sabe a Cristo, mas com argumentos disfarçados e astuciosos se esforça por abrir a porta aos erros do racionalismo e do semi-racionalismo; contra a qual o Apóstolo admoestou Timóteo a estar em guarda, quando escreveu: “Guarda o depósito que te foi confiado, evitando as profanas novidades de palavras e as oposições da falsamente chamada ciência, a qual alguns professando, erraram acerca da fé” (I Tim. vi, 20 s.). Isto não impede que Nós consideremos dignos de louvor aqueles jovens sacerdotes que se dedicam a estudos úteis em todos os ramos do saber, para melhor se prepararem a defender a verdade e refutar as calúnias dos inimigos da fé. Contudo, não podemos ocultar, antes proclamamos do modo mais aberto possível, que a Nossa preferência é e será sempre por aqueles que, cultivando a erudição eclesiástica e literária, se dedicam mais de perto ao bem das almas mediante o exercício daqueles ministérios próprios de um sacerdote zeloso da glória divina. “É uma grande tristeza e uma contínua dor no nosso coração” (Rom. ix, 2) ver que a lamentação de Jeremias se aplica ao nosso tempo: “Os pequeninos pediam pão, e não havia quem lho partisse” (Lam. iv, 4). Pois não faltam no clero aqueles que se adaptam, segundo a sua inclinação, a obras de mais aparência do que solidez real — mas não são talvez tão numerosos aqueles que, a exemplo de Cristo, tomam para si as palavras do Profeta: “O Espírito do Senhor me ungiu, enviou-me a evangelizar os pobres, a curar os contritos de coração, a anunciar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos” (Lc iv, 18-19).

  10. §12

    Quem, Veneráveis Irmãos, pode deixar de ver que, sendo os homens guiados pela razão e pela liberdade, o principal meio de restaurar o império de Deus nas suas almas é a instrução religiosa? Quantos há que imitam Cristo e abominam a Igreja e o Evangelho mais por ignorância do que por malícia de espírito, dos quais bem se pode dizer: “Blasfemam das coisas que ignoram” (Judas 10). Isto verifica-se não só entre o povo em geral e entre as classes mais baixas, que assim facilmente se deixam iludir, mas ainda entre os mais cultos e entre aqueles que são dotados, além disso, de instrução não vulgar. Daí resulta para muitos a perda da fé. Pois não é verdade que o progresso do conhecimento extinga a fé; é antes a ignorância, e quanto mais a ignorância predomina, maior é o estrago causado pela incredulidade. E por isso Cristo mandou aos Apóstolos: “Ide e ensinai todas as nações” (Mt 28, 19).

  11. §13

    Mas para que deste apostolado e deste zelo pelo ensino se colha o fruto desejado, e Cristo seja formado em todos, lembrai-vos, Veneráveis Irmãos, que nenhum meio é mais eficaz que a caridade. “Pois o Senhor não está no terremoto” (I Reis 19, 11) — é vão esperar atrair almas a Deus por um zelo amargo. Pelo contrário, mais dano do que bem se faz ao censurar duramente os homens por suas faltas e ao reprovar seus vícios com aspereza. Verdade que o Apóstolo exortou a Timóteo: “Acusa, suplica, repreende”, mas cuidou de acrescentar: “com toda a paciência” (II Timóteo 4, 2). Jesus certamente nos deixou exemplos disto. “Vinde a mim”, encontramo-Lo dizendo, “vinde a mim todos os que trabalhais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11, 28). E por aqueles que trabalham e estão sobrecarregados, Ele entendia apenas aqueles que são escravos do pecado e do erro. Que mansidão foi aquela mostrada pelo Divino Mestre! Que ternura, que compaixão por todos os tipos de miséria! Isaías descreveu maravilhosamente o Seu coração nas palavras: “Porei o meu espírito sobre ele; não contenderá, nem clamará; a cana quebrada não quebrará, não apagará o pavio fumegante” (Isaías 42, 1 ss.). Esta caridade, “paciente e benigna” (1 Coríntios 13, 4), estender-se-á também àqueles que nos são hostis e nos perseguem. “Somos injuriados”, assim protestava São Paulo, “e bendizemos; somos perseguidos e suportamos; somos blasfemados e suplicamos” (1 Coríntios 4, 12 ss.). Talvez pareçam piores do que realmente são. Suas relações com outros, o preconceito, o conselho, o parecer e o exemplo de outrem, e finalmente uma vergonha mal aconselhada os arrastaram para o lado dos ímpios; mas suas vontades não são tão depravadas como eles próprios procurariam fazer crer. Quem nos impedirá de esperar que a chama da caridade cristã dissipe as trevas de suas mentes e lhes traga a luz e a paz de Deus? Pode ser que o fruto de nossos trabalhos tarde a chegar, mas a caridade não se cansa de esperar, sabendo que Deus prepara Seus prêmios não pelos resultados do esforço, mas pela boa vontade nele demonstrada.

  12. §14

    É verdade, Veneráveis Irmãos, que nesta árdua tarefa da restauração do gênero humano em Cristo nem vós nem o vosso clero deveis excluir toda a ajuda. Sabemos que Deus recomendou a cada um que cuidasse do seu próximo (Eclo 17,12). Pois não só os sacerdotes, mas todos os fiéis sem exceção devem ocupar-se dos interesses de Deus e das almas – não, certamente, segundo as suas próprias opiniões, mas sempre sob a direção e as ordens dos bispos; porque a ninguém na Igreja, exceto a vós, é dado presidir, ensinar, “governar a Igreja de Deus que o Espírito Santo vos constituiu para governar” (At 20,28). Os nossos predecessores há muito aprovaram e abençoaram aqueles católicos que se uniram em sociedades de vários tipos, mas sempre religiosas no seu propósito. Nós também não hesitamos em conceder o Nosso louvor a esta grande ideia, e desejamos ardentemente vê-la propagada e florescer nas cidades e nos campos. Mas desejamos que todas essas associações tenham por objetivo primeiro e principal a constante manutenção da vida cristã entre os que a elas pertencem. Pois verdadeiramente de pouco vale discutir questões com sutil elegância, ou discorrer eloquentemente sobre direitos e deveres, quando tudo isso está desconectado da prática. Os tempos em que vivemos exigem ação – mas ação que consiste inteiramente em observar com fidelidade e zelo as leis divinas e os preceitos da Igreja, na profissão franca e aberta da religião, no exercício de todo tipo de obras de caridade, sem consideração de interesse próprio ou vantagem mundana. Tais exemplos luminosos dados pelo grande exército de soldados de Cristo serão de muito maior proveito para mover e atrair os homens do que palavras e sublimes dissertações; e facilmente acontecerá que, banido o respeito humano, e postos de lado os preconceitos e as dúvidas, grande número será conquistado para Cristo, tornando-se por sua vez promotores do Seu conhecimento e amor, que são o caminho para a verdadeira e sólida felicidade. Oh! quando em cada cidade e aldeia a lei do Senhor for fielmente observada, quando houver respeito pelas coisas sagradas, quando os Sacramentos forem frequentados e as ordenanças da vida cristã cumpridas, certamente não haverá mais necessidade de trabalharmos ainda para ver todas as coisas restauradas em Cristo. Nem será isto útil apenas para alcançar o bem eterno – contribuirá também grandemente para o bem temporal e a vantagem da sociedade humana. Pois quando estas condições estiverem garantidas, as classes superiores e ricas aprenderão a ser justas e caridosas para com os humildes, e estes poderão suportar com tranquilidade e paciência as provações de uma condição muito dura; os cidadãos obedecerão não à concupiscência, mas à lei; a reverência e o amor serão considerados um dever para com os que governam, “cujo poder vem somente de Deus” (Rm 13,1). E então? Então, por fim, ficará claro para todos que a Igreja, tal como foi instituída por Cristo, deve gozar de plena e inteira liberdade e independência de todo domínio estrangeiro; e Nós, ao exigir essa mesma liberdade, defendemos não apenas os sagrados direitos da religião, mas também consultamos o bem comum e a segurança das nações. Pois continua sendo verdade que “a piedade é útil para todas as coisas” (1Tm 4,8) – quando esta for forte e florescente, “o povo verdadeiramente se sentará na plenitude da paz” (Is 32,18).

  13. §15

    Deus, “que é rico em misericórdia” (Efésios 2,4), apresse benignamente esta restauração do género humano em Jesus Cristo, porque “não é do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia” (Romanos 9,16). E nós, Veneráveis Irmãos, “no espírito de humildade” (Daniel 3,39), peçamos-Lhe isto com oração contínua e instante, pelos merecimentos de Jesus Cristo. Recorramos também à potentíssima intercessão da Mãe Divina — para a obter, Nós, dirigindo-vos esta Nossa Carta no dia especialmente destinado à comemoração do Santo Rosário, ordenamos e confirmamos todas as prescrições do Nosso Predecessor a respeito da consagração do presente mês à augusta Virgem, pela recitação pública do Rosário em todas as igrejas; exortando ainda que se recorra também, como intercessores junto de Deus, ao puríssimo Esposo de Maria, Padroeiro da Igreja Católica, e aos santos Príncipes dos Apóstolos, Pedro e Paulo.

  14. §16

    E para que tudo isto se realize em cumprimento do Nosso ardente desejo, e para que tudo seja próspero convosco, invocamos sobre vós os mais abundantes dons da graça divina. E agora, em testemunho daquela terníssima caridade com que Vos abraçamos, a vós e a todos os fiéis que a Divina Providência Nos confiou, Nós, com todo o afeto no Senhor, concedemos a Bênção Apostólica a vós, Veneráveis Irmãos, ao clero e ao vosso povo. Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 4 de outubro de 1903, primeiro ano do Nosso Pontificado.