§6
Visto, porém, que ambas estas faculdades são imperfeitas, é possível, como frequentemente se vê, que a razão proponha algo que não é realmente bom, mas que tem a aparência de bem, e que a vontade escolha de acordo com isso. Pois, assim como a possibilidade do erro, e o erro atual, são defeitos da mente e atestam sua imperfeição, assim também a busca do que tem falsa aparência de bem, embora prova da nossa liberdade, assim como uma doença é prova da nossa vitalidade, implica defeito na liberdade humana. A vontade também, simplesmente por causa de sua dependência da razão, tão logo deseja algo contrário a ela, abusa de sua liberdade de escolha e corrompe sua própria essência. Assim é que o Deus infinitamente perfeito, embora soberanamente livre, por causa da supremacia do Seu intelecto e da Sua bondade essencial, não pode, no entanto, escolher o mal; nem podem os anjos e santos, que gozam da visão beatífica. Santo Agostinho e outros argumentaram admiravelmente contra os pelagianos que, se a possibilidade de desvio do bem pertencesse à essência ou perfeição da liberdade, então Deus, Jesus Cristo, e os anjos e santos, que não têm este poder, não teriam liberdade alguma, ou teriam menos liberdade do que o homem tem no seu estado de peregrinação e imperfeição. Este assunto é frequentemente discutido pelo Doutor Angélico na sua demonstração de que a possibilidade de pecar não é liberdade, mas escravidão. Bastará citar o seu sutil comentário sobre as palavras de Nosso Senhor: “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado.”[3] “Tudo”, diz ele, “é aquilo que lhe pertence naturalmente. Quando, portanto, age por um poder fora de si mesmo, não age por si, mas por outro, isto é, como escravo. Ora, o homem é por natureza racional. Quando, portanto, age segundo a razão, age por si mesmo e segundo o seu livre arbítrio; e isto é liberdade. Ao passo que, quando peca, age em oposição à razão, é movido por outro, e é vítima de falsas apreensões alheias. Portanto, ‘Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado’.”[4] Até os filósofos pagãos reconheceram claramente esta verdade, especialmente aqueles que sustentavam que o sábio somente é livre; e pelo termo “sábio” entendia-se, como é bem sabido, o homem instruído para viver de acordo com a sua natureza, isto é, na justiça e na virtude.