§39
Poderá talvez parecer a alguns, Veneráveis Irmãos, que Nos detivemos demasiado longamente nesta exposição das doutrinas dos Modernistas. Mas era necessário que assim fizéssemos, tanto para responder à sua costumeira acusação de que não compreendemos as suas ideias, como para mostrar que o seu sistema não consiste em teorias dispersas e desconexas, mas, por assim dizer, num todo intimamente ligado, de modo que não é possível admitir uma sem admitir todas. Por esta razão também fomos obrigados a dar a esta exposição uma forma algo didática e a não recuar diante do emprego de certos termos inusitados que os Modernistas introduziram no uso. E agora, fixando o olhar sobre todo o sistema, ninguém se surpreenderá de que o definamos como a síntese de todas as heresias. Sem dúvida, se alguém tentasse recolher todos os erros que foram proferidos contra a fé e concentrar numa só a seiva e a substância deles todos, não poderia fazê-lo melhor do que o fizeram os Modernistas. Mais ainda, foram além disto, pois, como já insinuámos, o seu sistema significa a destruição não só da religião católica, mas de toda a religião. Por isso não faltam aplausos por parte dos racionalistas, e os mais francos e sinceros entre eles congratulam-se por terem encontrado nos Modernistas os mais valiosos de todos os aliados.
Volvamos por um momento, Veneráveis Irmãos, para aquela doutrina tão desastrosa do agnosticismo. Por ela, todo o acesso a Deus pelo lado do intelecto é barrado ao homem, enquanto se supõe abrir-se um caminho melhor pelo lado de um certo sentido da alma e da ação. Mas quem não vê quão errada é tal afirmação? Pois o sentido da alma é a resposta à ação da coisa que o intelecto ou os sentidos externos lhe apresentam. Tirai a inteligência, e o homem, já inclinado a seguir os sentidos, torna-se seu escravo. Duplamente errada, de outro ponto de vista, porque todas estas fantasias do sentido religioso nunca poderão destruir o senso comum, e o senso comum diz-nos que a emoção e tudo o que leva cativo o coração constitui um obstáculo, e não um auxílio, para a descoberta da verdade. Falamos da verdade em si mesma — pois aquela outra verdade puramente subjetiva, fruto do sentido e da ação internos, se serve para o jogo de palavras, não traz benefício algum ao homem que quer acima de tudo saber se fora de si existe um Deus em cujas mãos há de cair um dia. É verdade que os Modernistas invocam a experiência para completar o seu sistema, mas o que acrescenta esta experiência àquele sentido da alma? Absolutamente nada, senão uma certa intensidade e um proporcional aprofundamento da convicção da realidade do objeto. Mas estas duas coisas nunca farão do sentido da alma outra coisa senão sentido, nem alterarão a sua natureza, que é passível de engano quando a inteligência não o guia; pelo contrário, confirmam e fortalecem esta natureza, pois quanto mais intenso é o sentido, mais é realmente sentido.
E como aqui tratamos do sentido religioso e da experiência que lhe é inerente, sabeis, Veneráveis Irmãos, quão necessária é em tal matéria a prudência e a ciência pela qual a prudência se guia. Sabeis-o pelo vosso trato com as almas, e especialmente com aquelas em que predomina o sentimento; sabeis-o também pela leitura das obras de teologia ascética — obras pelas quais os Modernistas têm pouco apreço, mas que testemunham uma ciência e uma solidez muito maiores do que as deles, e um refinamento e subtileza de observação muito além de qualquer coisa que os Modernistas se arrogam possuir. Parece-Nos não menos que loucura, ou pelo menos suma temeridade, aceitar como verdadeiras, e sem investigação, estas experiências incompletas de que se vangloria o Modernista.
Coloquemos por um momento a questão: Se as experiências têm tanta força e valor na sua estimativa, por que não atribuem igual peso à experiência de tantos milhares de católicos de que os Modernistas estão no caminho errado? Porventura as experiências católicas são as únicas falsas e enganadoras? A imensa maioria dos homens sustenta e sempre sustentará firmemente que só o sentido e a experiência, quando não iluminados e guiados pela razão, não podem alcançar o conhecimento de Deus. Que resta, então, senão o ateísmo e a ausência de toda a religião? Certamente não é a doutrina do simbolismo que nos salvará disto. Pois se todos os elementos intelectuais, como eles lhes chamam, da religião são nada mais que meros símbolos de Deus, o próprio nome de Deus ou de personalidade divina não será também um símbolo, e, se isto for admitido, a personalidade de Deus tornar-se-á matéria de dúvida e abrir-se-á a porta ao panteísmo?
E ao panteísmo puro e simples conduz diretamente aquela outra doutrina da imanência divina. Pois esta é a questão que perguntamos: Esta imanência deixa Deus distinto do homem ou não? Se deixa, em que difere da doutrina católica, e por que rejeita a doutrina da revelação externa? Se não deixa, é panteísmo. Ora, a doutrina da imanência na acepção modernista sustenta e professa que todo fenómeno de consciência procede do homem enquanto homem. A conclusão rigorosa disto é a identidade do homem com Deus, o que significa panteísmo. A distinção que os Modernistas fazem entre ciência e fé leva à mesma conclusão. O objeto da ciência, dizem, é a realidade do cognoscível; o objeto da fé, pelo contrário, é a realidade do incognoscível. Ora, o que torna o incognoscível incognoscível é o facto de não haver proporção entre o seu objeto e o intelecto — um defeito de proporção que nada, nem mesmo na doutrina do Modernista, pode suprimir. Portanto o incognoscível permanece e permanecerá eternamente incognoscível tanto para o crente como para o filósofo. Logo, se alguma religião é possível, só pode ser a religião de uma realidade incognoscível. E por que esta não poderia ser aquela alma do universo, de que certos racionalistas falam, é algo que certamente não Nos parece evidente.
Estas razões bastam para mostrar abundantemente por quantas vias o Modernismo conduz ao ateísmo e à aniquilação de toda a religião. O erro do Protestantismo deu o primeiro passo neste caminho; o do Modernismo dá o segundo; o ateísmo dá o seguinte.