§22
Ora, como exorta o Apóstolo Paulo, esta unanimidade deve ser perfeita. A fé cristã não se apoia na autoridade humana, mas na divina, pois o que Deus revelou “nós cremos não por causa da evidência intrínseca da verdade percebida pela luz natural da nossa razão, mas por causa da autoridade de Deus revelante, que não pode enganar-Se nem enganar-nos.”[24] Segue-se como consequência que tudo quanto é manifestamente revelado por Deus devemos receber com um assentimento semelhante e igual. Recusar crer em qualquer uma destas verdades equivale a rejeitá-las todas, pois aqueles que negam que Deus falou aos homens, ou que põem em dúvida a Sua infinita verdade e sabedoria, destroem de uma só vez o próprio fundamento da fé. Determinar, porém, quais são as doutrinas divinamente reveladas pertence à Igreja docente, a quem Deus confiou a guarda e a interpretação dos Seus oráculos. Ora, o mestre supremo na Igreja é o Romano Pontífice. Portanto, a união de espíritos requer, juntamente com um perfeito acordo na única fé, a completa submissão e obediência da vontade à Igreja e ao Romano Pontífice, como ao próprio Deus. Esta obediência deve, no entanto, ser perfeita, porque é ordenada pela própria fé, e tem isto em comum com a fé: que não pode ser dada em fragmentos; mais ainda, se não fosse absoluta e perfeita em cada particular, poderia ter o nome de obediência, mas a sua essência desapareceria. O uso cristão atribui tanto valor a esta perfeição de obediência que tem sido, e sempre será, considerada a nota distintiva pela qual podemos reconhecer os católicos. Admiravelmente, a seguinte passagem de São Tomás de Aquino nos apresenta a visão correta: “O objeto formal da fé é a verdade primeira, conforme é proposta nas Sagradas Escrituras e na doutrina da Igreja, que procede da fonte da verdade. Segue-se, portanto, que aquele que não adere, como a uma regra infalível, à doutrina da Igreja, que procede da verdade primeira manifestada nas Sagradas Escrituras, não possui o hábito da fé; mas as coisas da fé ele as tem de modo diverso da verdadeira fé. Ora, é evidente que aquele que se apega à doutrina da Igreja como a uma regra infalível presta o seu assentimento a tudo que a Igreja ensina; mas, pelo contrário, se, com relação ao que a Igreja ensina, ele aceita o que lhe agrada e não aceita o que não lhe agrada, não adere à doutrina da Igreja como a uma regra infalível, mas à sua própria vontade.”[25]