Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a cruz de Cristo não deve ser adorada com o culto de latria. Pois nenhum filho piedoso honra aquilo que desonra seu pai, como o açoite com que foi açoitado, ou a forca em que foi enforcado; antes o abomina. Ora, Cristo sofreu a morte mais ignominiosa na cruz, segundo Sabedoria 2,20: «Condenemo-lo a uma morte muito ignominiosa.» Portanto, não devemos venerar a cruz, mas antes abominá-la. Objeção 2: Ademais, a humanidade de Cristo é adorada com o culto de latria, enquanto unida ao Filho de Deus na Pessoa. Ora, isto não se pode dizer da cruz. Logo, a cruz de Cristo não deve ser adorada com o culto de latria. Objeção 3: Ademais, assim como a cruz de Cristo foi o instrumento de sua paixão e morte, assim também o foram muitas outras coisas, por exemplo, os cravos, a coroa, a lança; contudo, a estas não prestamos o culto de latria. Parece, portanto, que a cruz de Cristo não deve ser adorada com o culto de latria. Ao contrário, prestamos o culto de latria àquilo em que colocamos nossa esperança de salvação. Ora, colocamos nossa esperança na cruz de Cristo, pois a Igreja canta: «Ó Cruz querida, esperança summa, Que alegras o tempo da paixão solene: Dá aos justos aumento de graça, Dá a cada pecador contrito a paz.» [*Hino Vexilla Regis: tradução do Pe. Aylward, O.P.] Portanto, a cruz de Cristo deve ser adorada com o culto de latria. Respondo que, como se disse acima (A. 3), a honra ou reverência é devida somente à criatura racional; à criatura insensível, nenhuma honra ou reverência é devida senão em razão de uma natureza racional. E isto de dois modos. Primeiro, enquanto representa uma natureza racional; segundo, enquanto lhe está unida de qualquer modo. Do primeiro modo, os homens costumam venerar a imagem do rei; do segundo, o seu manto. E ambos são venerados pelos homens com a mesma veneração que mostram ao rei. Se, portanto, falamos da própria cruz em que Cristo foi crucificado, ela deve ser por nós venerada de ambos os modos — a saber, de um modo, enquanto nos representa a figura de Cristo nela estendido; de outro modo, pelo contato com os membros de Cristo, e por ter sido embebida do seu sangue. Por onde, em cada modo, é adorada com a mesma adoração que Cristo, isto é, a adoração de latria. E por esta razão também falamos à cruz e oramos a ela, como ao próprio Crucificado. Mas se falamos da efígie da cruz de Cristo em qualquer outra matéria — por exemplo, em pedra ou madeira, prata ou ouro — então veneramos a cruz meramente como imagem de Cristo, a qual adoramos com o culto de latria, como se disse acima (A. 3). Resposta à Objeção 1: Se na cruz de Cristo considerarmos o ponto de vista e a intenção daqueles que não creram nele, ela aparecerá como sua ignomínia; mas se considerarmos o seu efeito, que é a nossa salvação, aparecerá como dotada de poder divino, pelo qual triunfou do inimigo, segundo Colossenses 2,14-15: «Tirou-o do meio, fixando-o na cruz, e despojando os principados e potestades, os expôs publicamente, em triunfo sobre eles em si mesmo.» Por isso o Apóstolo diz (1 Coríntios 1,18): «Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para os que se salvam, isto é, para nós, é poder de Deus.» Resposta à Objeção 2: Embora a cruz de Cristo não estivesse unida ao Verbo de Deus na Pessoa, todavia esteve-lhe unida de outro modo, isto é, por representação e contato. E por esta única razão se lhe presta reverência. Resposta à Objeção 3: Em razão do contato dos membros de Cristo, adoramos não só a cruz, mas tudo o que pertence a Cristo. Por isso diz Damasceno (De Fide Orth. IV, 11): «O lenho precioso, por ter sido santificado pelo contato do santo corpo e sangue, deve ser devidamente adorado; como também os seus cravos, a sua lança, e as suas sagradas moradas, tais como a manjedoura, a gruta e assim por diante.» Contudo, estas mesmas coisas não representam a imagem de Cristo como a cruz, que é chamada «o Sinal do Filho do Homem» que «aparecerá no céu», como está escrito (Mateus 24,30). Por isso o anjo disse às mulheres (Marcos 16,6): «Buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado»; não disse «traspassado», mas «crucificado». Por esta razão adoramos a imagem da cruz de Cristo em qualquer matéria, mas não a imagem dos cravos ou de qualquer coisa semelhante.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether Christ's cross should be worshipped with the adoration of 'latria'? · séc. XIII
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