Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1.** Parece que Deus não é omnipotente. Pois o movimento e a passividade pertencem a toda coisa. Mas isto é impossível em Deus, porque Ele é imóvel, como foi dito acima (Q. 2, a. 3). Logo, não é omnipotente. **Objeção 2.** Ademais, o pecado é um ato de algum género. Mas Deus não pode pecar, nem “negar-se a si mesmo”, como está escrito em 2Tm 2,13. Logo, não é omnipotente. **Objeção 3.** Ademais, diz-se de Deus que manifesta a sua omnipotência “especialmente poupando e usando de misericórdia” [*Coleta do 10º Domingo depois de Pentecostes]. Portanto, o maior ato possível ao poder divino é poupar e ter misericórdia. Há, contudo, coisas muito maiores do que poupar e ter misericórdia; por exemplo, criar outro mundo e coisas semelhantes. Logo, Deus não é omnipotente. **Objeção 4.** Ademais, acerca do texto: “Deus fez louca a sabedoria deste mundo” (1Cor 1,20), uma glosa diz: “Deus fez louca a sabedoria deste mundo [*Vulg.: ‘Porventura não fez Deus’, etc.] mostrando serem possíveis aquelas coisas que ela julga impossíveis.” Donde parece que nada deve ser julgado possível ou impossível em relação às causas inferiores, como julga a sabedoria deste mundo, mas em relação ao poder divino. Se, portanto, Deus fosse omnipotente, todas as coisas seriam possíveis; nada, logo, impossível. Ora, se eliminarmos o impossível, destruímos também o necessário; pois aquilo que necessariamente existe é impossível que não exista. Assim, não haveria nada de necessário nas coisas, se Deus fosse omnipotente. Mas isso é impossível. Logo, Deus não é omnipotente. **Em contrário,** está dito: “Porque a Deus nada é impossível” (Lc 1,37). **Respondo que** todos confessam que Deus é omnipotente; mas parece difícil explicar em que consiste precisamente a sua omnipotência: pois pode haver dúvida quanto ao significado preciso da palavra “todas”, quando dizemos que Deus pode todas as coisas. Se, porém, considerarmos a questão retamente, visto que a potência se diz em relação às coisas possíveis, esta frase: “Deus pode todas as coisas” entende-se corretamente como significando que Deus pode todas as coisas que são possíveis; e por esta razão se diz omnipotente. Ora, segundo o Filósofo (Metaf. V, 17), uma coisa diz-se possível de dois modos. Primeiro, em relação a alguma potência: assim, tudo o que está sujeito ao poder humano diz-se possível ao homem. Segundo, absolutamente, em razão da relação que os próprios termos têm entre si. Ora, Deus não pode ser dito omnipotente por poder todas as coisas que são possíveis à natureza criada; porque o poder divino se estende mais longe. Se, porém, disséssemos que Deus é omnipotente porque pode todas as coisas que são possíveis ao seu poder, haveria um círculo vicioso ao explicar a natureza do seu poder. Pois isto não seria senão dizer que Deus é omnipotente porque pode tudo quanto é capaz de fazer. Resta, portanto, que Deus é chamado omnipotente porque pode todas as coisas que são possíveis absolutamente; que é o segundo modo de dizer que uma coisa é possível. Pois uma coisa diz-se possível ou impossível absolutamente, segundo a relação que os próprios termos têm entre si: possível, se o predicado não é incompatível com o sujeito, como “Sócrates está sentado”; e absolutamente impossível, quando o predicado é totalmente incompatível com o sujeito, como, por exemplo, “o homem é um asno”. Deve-se, contudo, lembrar que, visto que todo agente produz um efeito semelhante a si, a cada potência ativa corresponde uma coisa possível como seu objeto próprio, segundo a natureza daquele ato sobre o qual se funda a sua potência ativa; por exemplo, a potência de aquecer tem por objeto próprio o ser capaz de ser aquecido. Ora, o ser divino, sobre o qual se funda a natureza da potência em Deus, é infinito, e não está limitado a nenhum género de ente; mas possui em si a perfeição de todo o ente. Por isso, tudo o que tem ou pode ter natureza de ente conta-se entre as coisas absolutamente possíveis, em relação às quais Deus é chamado omnipotente. Ora, nada se opõe à ideia de ente senão o não-ente. Portanto, aquilo que implica simultaneamente ente e não-ente repugna à ideia de coisa absolutamente possível, dentro do âmbito da omnipotência divina. Pois tal não pode cair sob a omnipotência divina, não por defeito da potência de Deus, mas porque não tem natureza de algo factível ou possível. Por conseguinte, tudo o que não implica contradição nos termos conta-se entre essas coisas possíveis, em relação às quais Deus é chamado omnipotente; ao passo que o que implica contradição não está dentro do âmbito da omnipotência divina, porque não pode ter a razão de possibilidade. Donde é melhor dizer que tais coisas não podem ser feitas, do que Deus não as pode fazer. Nem isto é contrário à palavra do anjo, que diz: “Porque a Deus nada é impossível.” Pois o que implica contradição não pode ser palavra, porque nenhum intelecto pode conceber tal coisa. **Resposta à objeção 1.** Deus é dito omnipotente em relação à sua potência ativa, não à potência passiva, como foi mostrado acima (a. 1). Por isso, o facto de ser imóvel ou impassível não repugna à sua omnipotência. **Resposta à objeção 2.** Pecar é desfalecer de uma ação perfeita; logo, poder pecar é poder desfalecer na ação, o que repugna à omnipotência. Por isso, Deus não pode pecar precisamente por causa da sua omnipotência. Não obstante, o Filósofo diz (Tóp. IV, 3) que Deus pode querer fazer o mal. Mas isto deve ser entendido ou sob uma condição cujo antecedente é impossível — como, por exemplo, se disséssemos que Deus pode fazer coisas más, se quiser. Pois não há razão para que uma proposição condicional não seja verdadeira, embora tanto o antecedente como o consequente sejam impossíveis: como se alguém dissesse: “Se o homem é asno, tem quatro pés.” Ou pode entender-se que Deus pode fazer algumas coisas que agora parecem más, mas que, se Ele as fizesse, seriam boas. Ou, talvez, está a falar segundo o modo comum dos pagãos, que pensavam que os homens se tornavam deuses, como Júpiter ou Mercúrio. **Resposta à objeção 3.** A omnipotência de Deus manifesta-se particularmente em poupar e ter misericórdia, porque nisto se torna patente que Deus tem sumo poder, ao perdoar livremente os pecados. Pois não é próprio de quem está sujeito às leis de um superior perdoar pecados por própria vontade. Ou, porque, ao poupar e ter misericórdia dos homens, Ele os conduz à participação de um bem infinito, que é o efeito último do poder divino. Ou, porque, como foi dito acima (Q. 21, a. 4), o efeito da misericórdia divina é o fundamento de todas as obras divinas. Pois nada é devido a alguém, senão por causa de algo já dado gratuitamente por Deus. Deste modo, a omnipotência divina manifesta-se particularmente, porque a ela pertence o primeiro fundamento de todos os bens. **Resposta à objeção 4.** O possível absoluto não é assim chamado em referência nem às causas superiores nem às causas inferiores, mas em referência a si mesmo. Mas o possível em relação a alguma potência é nomeado possível em relação à sua causa próxima. Por isso, aquelas coisas que pertencem só a Deus fazer imediatamente — como, por exemplo, criar, justificar e coisas semelhantes — dizem-se possíveis em relação a uma causa superior. Aquelas, porém, que são de tal género que são feitas por causas inferiores dizem-se possíveis em relação a essas causas inferiores. Pois é segundo a condição da causa próxima que o efeito tem contingência ou necessidade, como foi mostrado acima (Q. 14, a. 1, ad 2). Assim é que a sabedoria deste mundo é tida por louca, porque aquilo que é impossível à natureza, ela julga impossível a Deus. Portanto, fica claro que a omnipotência de Deus não tira às coisas a sua impossibilidade e necessidade.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether God is omnipotent? · séc. XIII
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