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1Cor 10, 17

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Matos Soares

17Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos do mesmo pão.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que batizar não faz parte do ofício sacerdotal, mas é próprio do ofício dos bispos. Porque, como se disse acima (A[1], OBJ[1]), os deveres de ensinar e de batizar são ordenados no mesmo preceito (Mt 28,19). Ora, ensinar, que é "aperfeiçoar", pertence ao ofício do bispo, como declara Dionísio (Hier. Ecles. V, VI). Logo, também batizar pertence ao ofício episcopal. **Objeção 2:** Ademais, pelo Batismo o homem é admitido no corpo do povo cristão; e isto parece competir a nenhum outro senão ao ofício principesco. Ora, os bispos ocupam a posição de príncipes na Igreja, como observa a Glosa sobre Lc 10,1; na verdade, eles tomam o lugar dos apóstolos, dos quais está escrito (Sl 44,17): "Tu os constituirás príncipes sobre toda a terra." Portanto, parece que batizar pertence exclusivamente ao ofício dos bispos. **Objeção 3:** Além disso, Isidoro diz (Epíst. a Ludifredo) que "pertence ao bispo consagrar igrejas, ungir altares, confeccionar o crisma; é ele quem confere as ordens eclesiásticas e abençoa as virgens consagradas." Ora, o sacramento do Batismo é maior do que todos estes. Logo, com muito mais razão, batizar deve pertencer exclusivamente ao ofício episcopal. **Em contrário,** Isidoro diz (Dos Ofícios, II): "É certo que o Batismo foi confiado somente aos sacerdotes." **Respondo que** Os sacerdotes são consagrados com o fim de celebrar o sacramento do Corpo de Cristo, como se disse acima (Q[65], A[3]). Ora, este é o sacramento da unidade eclesiástica, segundo o Apóstolo (1Cor 10,17): "Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, todos nós que participamos do mesmo pão e do mesmo cálice." Além disso, pelo Batismo o homem se torna participante da unidade eclesiástica, por onde também recebe o direito de se aproximar da Mesa do Senhor. Consequentemente, assim como pertence ao sacerdote consagrar a Eucaristia, que é o fim principal do sacerdócio, assim é ofício próprio do sacerdote batizar: pois parece pertencer a um só e mesmo sujeito produzir o todo e dispor a parte no todo. **Resposta à objeção 1:** Nosso Senhor ordenou aos apóstolos, cujo lugar é tomado pelos bispos, ambos os deveres, a saber, ensinar e batizar, mas de modos diferentes. Porque Cristo lhes confiou o dever de ensinar para que o exercessem pessoalmente, como sendo o mais importante de todos; por isso os próprios apóstolos disseram (At 6,2): "Não é razão que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas." Por outro lado, Ele confiou aos apóstolos o ofício de batizar para ser exercido vicariamente; por isso o Apóstolo diz (1Cor 1,17): "Não me enviou Cristo a batizar, mas a pregar o Evangelho." E a razão disto é que o mérito e a sabedoria do ministro não influem no efeito batismal, como influem no ensino, conforme se pode ver pelo que dissemos acima (Q[64], A[1], ad 2; AA[5],9). Prova disto se encontra também no fato de que o próprio Senhor não batizava, mas os seus discípulos, como João relata (4,2). Nem daí se segue que os bispos não possam batizar; pois o que pode um poder inferior, pode também um poder superior. Por onde também o Apóstolo diz (1Cor 1,14.16) que ele batizou alguns. **Resposta à objeção 2:** Em toda república, os negócios menores são confiados aos oficiais inferiores, enquanto os negócios maiores são reservados aos oficiais superiores; segundo Êx 18,22: "E quando acontecer algum negócio mais grave, o refiram a ti, e eles julguem os negócios menores." Consequentemente, pertence aos oficiais inferiores do Estado decidir as questões relativas às ordens inferiores; ao passo que ao mais alto cabe ordenar aquelas coisas que dizem respeito às ordens superiores do Estado. Ora, pelo Batismo o homem atinge apenas o grau mais baixo entre o povo cristão; e por isso compete aos oficiais menores da Igreja batizar, isto é, aos sacerdotes, que ocupam o lugar dos setenta e dois discípulos de Cristo, como diz a Glosa no passo citado de Lucas 10. **Resposta à objeção 3:** Como se disse acima (Q[65], A[3]), o sacramento do Batismo ocupa o primeiro lugar na ordem da necessidade; mas na ordem da perfeição há outros sacramentos maiores, que são reservados aos bispos.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether to baptize is part of the priestly office, or proper to that of bishops? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a Eucaristia não é um sacramento, mas vários, porque se diz na Coleta [*Pós-comunhão «pro vivis et defunctis»]: «Os sacramentos que recebemos nos purifiquem, ó Senhor»; e isto se diz por ocasião de recebermos a Eucaristia. Consequentemente, a Eucaristia não é um sacramento, mas vários. Objeção 2: Além disso, é impossível que os gêneros sejam multiplicados sem que as espécies o sejam: assim, é impossível que um homem seja muitos animais. Mas, como foi dito acima (Q[60], A[1]), o sinal é o gênero do sacramento. Visto que, então, há mais de um sinal, a saber, pão e vinho, parece seguir-se que aqui deve haver mais de um sacramento. Objeção 3: Além disso, este sacramento se aperfeiçoa na consagração da matéria, como foi dito acima (A[1], ad 3). Mas neste sacramento há uma dupla consagração da matéria. Logo, é um sacramento duplo. Ao contrário, o Apóstolo diz (1 Cor 10,17): «Porque nós, sendo muitos, somos um só pão, e um só corpo; porque todos participamos do mesmo pão»; do que se conclui que a Eucaristia é o sacramento da unidade da Igreja. Mas o sacramento traz a semelhança da realidade da qual é sacramento. Logo, a Eucaristia é um sacramento. Respondo que, como se afirma na Metafísica V, uma coisa se diz una não só por ser indivisível ou contínua, mas também quando é completa; assim falamos de uma casa e de um homem. Uma coisa é una em perfeição quando é completa pela presença de tudo o que é necessário para o seu fim; como um homem é completo por ter todos os membros requeridos para a operação da sua alma, e uma casa por ter todas as partes necessárias para nela habitar. E assim este sacramento se diz uno. Porque é ordenado para o refrigério espiritual, que é conforme ao refrigério corporal. Ora, duas coisas são requeridas para o refrigério corporal, a saber, o alimento, que é sustento seco, e a bebida, que é sustento úmido. Por conseguinte, duas coisas concorrem para a integridade deste sacramento, a saber, o alimento espiritual e a bebida espiritual, segundo João: «Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.» Portanto, este sacramento é materialmente múltiplo, mas formal e perfectivamente uno. Resposta à Objeção 1: A mesma Coleta emprega primeiro o plural: «Os sacramentos que recebemos nos purifiquem»; e depois o singular: «Que este vosso sacramento não nos torne dignos de castigo»; de modo a mostrar que este sacramento é de certo modo múltiplo, contudo simplesmente uno. Resposta à Objeção 2: O pão e o vinho são materialmente vários sinais, mas formal e perfectivamente um, na medida em que um único refrigério é preparado a partir deles. Resposta à Objeção 3: Da dupla consagração da matéria nada mais se pode colher senão que o sacramento é múltiplo materialmente, como foi dito acima.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether the Eucharist is one sacrament or several? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que este sacramento é necessário para a salvação. Pois disse o Senhor (Jo 6,54): «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós». Ora, a carne de Cristo é comida e o seu sangue é bebido neste sacramento. Logo, sem este sacramento o homem não pode ter a saúde da vida espiritual. **Objeção 2:** Além disso, este sacramento é uma espécie de alimento espiritual. Ora, o alimento corporal é necessário para a saúde do corpo. Logo, também este sacramento o é para a saúde espiritual. **Objeção 3:** Ademais, assim como o Batismo é o sacramento da Paixão do Senhor, sem o qual não há salvação, também o é a Eucaristia. Pois diz o Apóstolo (1 Cor 11,26): «Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que venha». Consequentemente, assim como o Batismo é necessário para a salvação, também o é este sacramento. **Em contrário,** escreve Agostinho (Ad Bonifac. contra Pelag. I): «Nem deveis supor que as crianças não podem possuir a vida, as quais são privadas do corpo e sangue de Cristo». **Respondo** que duas coisas se devem considerar neste sacramento: a saber, o sacramento mesmo e o que nele se contém. Ora, foi dito acima (A[1], OBJ[2]) que a realidade do sacramento é a unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação; pois não há entrada na salvação fora da Igreja, assim como no tempo do dilúvio não a houve fora da arca, a qual significa a Igreja, segundo 1 Ped 3,20-21. E foi dito acima (Q[68], A[2]) que, antes de receber um sacramento, a realidade do sacramento pode ser obtida pelo próprio desejo de receber o sacramento. Por conseguinte, antes da recepção atual deste sacramento, o homem pode obter a salvação pelo desejo de o receber, assim como pode antes do Batismo pelo desejo do Batismo, como foi dito acima (Q[68], A[2]). Contudo, há uma diferença em dois aspetos. Primeiro, porque o Batismo é o princípio da vida espiritual e a porta dos sacramentos; ao passo que a Eucaristia é, por assim dizer, a consumação da vida espiritual e o fim de todos os sacramentos, como foi observado acima (Q[63], A[6]): pois pelas santificações de todos os sacramentos se faz preparação para receber ou consagrar a Eucaristia. Consequentemente, a recepção do Batismo é necessária para iniciar a vida espiritual, enquanto a recepção da Eucaristia é necessária para a sua consumação; comungando não atualmente, mas em desejo, assim como o fim é possuído em desejo e intenção. Outra diferença é porque pelo Batismo o homem é ordenado para a Eucaristia; e, portanto, pelo facto de as crianças serem batizadas, são destinadas pela Igreja à Eucaristia; e assim como creem pela fé da Igreja, assim desejam a Eucaristia pela intenção da Igreja e, como consequência, recebem a sua realidade. Mas não são dispostas para o Batismo por nenhum sacramento anterior; por conseguinte, antes de receber o Batismo, de nenhum modo têm o Batismo em desejo; só os adultos o têm. Portanto, não podem ter a realidade do sacramento sem receber o próprio sacramento. Logo, este sacramento não é necessário para a salvação da mesma forma que o Batismo. **Resposta à objeção 1:** Como diz Agostinho, explicando Jo 6,54, «Este alimento e esta bebida», a saber, da sua carne e sangue: «Quis que entendêssemos a comunhão do seu corpo e membros, que é a Igreja nos seus predestinados, chamados, justificados e glorificados, seus santos e crentes». Portanto, como ele diz na sua Epístola a Bonifácio (Pseudo-Beda, in 1 Cor 10,17): «Ninguém deve ter a menor dúvida de que então todo fiel se torna participante do corpo e sangue de Cristo, quando no Batismo é feito membro do corpo de Cristo; nem é privado da sua parte naquele corpo e cálice ainda que parta deste mundo na unidade do corpo de Cristo, antes de comer aquele pão e beber daquele cálice». **Resposta à objeção 2:** A diferença entre o alimento corpóreo e o espiritual está em que o primeiro se muda na substância da pessoa nutrida, e por isso não pode aproveitar para sustentar a vida senão quando é participado; mas o alimento espiritual muda o homem em si mesmo, segundo aquela palavra de Agostinho (Confissões VII), que ouviu a voz de Cristo como que lhe dizendo: «Nem me mudarás a Mim em ti, como alimento da tua carne, mas tu serás mudado em Mim». Ora, pode-se ser mudado em Cristo e incorporado nele pelo desejo mental, mesmo sem receber este sacramento. E, por conseguinte, a comparação não procede. **Resposta à objeção 3:** O Batismo é o sacramento da morte e Paixão de Cristo, na medida em que o homem renasce em Cristo pela virtude da sua Paixão; mas a Eucaristia é o sacramento da Paixão de Cristo na medida em que o homem é aperfeiçoado na união com Cristo que padeceu. Por isso, assim como o Batismo é chamado sacramento da Fé, que é o fundamento da vida espiritual, assim a Eucaristia é denominada sacramento da Caridade, que é o «vínculo da perfeição» (Col 3,14).

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the Eucharist is necessary for salvation? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a matéria deste sacramento não é pão e vinho. Porque este sacramento deve representar mais plenamente a Paixão de Cristo que os sacramentos da Antiga Lei. Ora, a carne de animais, que era a matéria dos sacramentos sob a Antiga Lei, manifesta mais plenamente a Paixão de Cristo que o pão e o vinho. Logo, a matéria deste sacramento deveria antes ser a carne de animais que pão e vinho. Objeção 2: Além disso, este sacramento deve ser celebrado em todo lugar. Ora, em muitas terras não se encontra pão, e em muitos lugares não se encontra vinho. Logo, pão e vinho não são matéria conveniente para este sacramento. Objeção 3: Além disso, este sacramento é tanto para os sãos como para os fracos. Ora, a algumas pessoas fracas o vinho é prejudicial. Portanto, parece que o vinho não deve ser a matéria deste sacramento. Em contrário, o Papa Alexandre I diz (Ep. ad omnes orth. i): «Nas oblações dos sacramentos, só se devem oferecer pão e vinho misturados com água.» Respondo que alguns caíram em vários erros acerca da matéria deste sacramento. Uns, conhecidos como Artotirites, conforme diz Agostinho (De Haeres. xxviii), «oferecem pão e queijo neste sacramento, afirmando que as oblações eram celebradas pelos homens nos primeiros séculos, com frutos da terra e ovelhas.» Outros, chamados Catáfrigas e Pepuzianos, «consta que faziam o pão eucarístico com sangue de crianças, extraído por pequenas punções em todo o corpo, e misturado com farinha.» Outros, denominados Aquários, sob pretexto de sobriedade, oferecem nada mais que água neste sacramento. Ora, todos estes e semelhantes erros são excluídos pelo fato de que Cristo instituiu este sacramento sob as espécies de pão e vinho, como é evidente por Mateus 26. Consequentemente, pão e vinho são a matéria própria deste sacramento. E a razão disto se vê primeiro, no uso deste sacramento, que é a manducação: pois, assim como a água é usada no sacramento do Batismo para a purificação espiritual, já que a purificação corporal se faz comumente com água; assim o pão e o vinho, com que os homens se alimentam comumente, são empregados neste sacramento para a manducação espiritual. Em segundo lugar, em relação à Paixão de Cristo, na qual o sangue foi separado do corpo. E portanto, neste sacramento, que é o memorial da Paixão do Senhor, o pão é recebido separadamente como sacramento do corpo, e o vinho como sacramento do sangue. Em terceiro lugar, quanto ao efeito, considerado em cada um dos participantes. Pois, como diz Ambrósio (Mag. Sent. iv, D, xi) sobre 1 Cor. 11,20, este sacramento «vale para a defesa da alma e do corpo»; e portanto «o corpo de Cristo é oferecido» sob a espécie de pão «para a saúde do corpo, e o sangue» sob a espécie de vinho «para a saúde da alma», conforme Lv 17,14: «A vida do animal [Vulg.: 'de toda carne'] está no sangue.» Em quarto lugar, quanto ao efeito com respeito a toda a Igreja, que é constituída de muitos crentes, assim como «o pão é composto de muitos grãos, e o vinho flui de muitas uvas», como observa a glosa sobre 1 Cor 10,17: «Nós, sendo muitos, somos um só corpo», etc. Resposta à Objeção 1: Embora a carne de animais imolados represente mais veementemente a Paixão, contudo é menos conveniente para o uso comum deste sacramento, e para significar a unidade da Igreja. Resposta à Objeção 2: Embora o trigo e o vinho não se produzam em toda região, todavia podem ser facilmente transportados para toda terra, isto é, quanto baste para o uso deste sacramento: e ao mesmo tempo não se deve consagrar um quando o outro faltar, porque não seria um sacramento completo. Resposta à Objeção 3: O vinho tomado em pequena quantidade não pode fazer muito mal aos enfermos; todavia, se houver receio de dano, não é necessário que todos os que recebem o corpo de Cristo participem também do Seu sangue, como se dirá adiante (Q. 80, art. 12).

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether the matter of this sacrament is bread and wine? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que aqueles que não têm o uso da razão não devem receber este sacramento. Porque requer-se que o homem se aproxime deste sacramento com devoção e prévio exame de si mesmo, segundo 1 Cor 11,28: «Prove-se a si mesmo o homem, e assim coma desse pão, e beba do cálice». Ora, isto não é possível para os que são privados de razão. Portanto, este sacramento não lhes deve ser dado. **Objeção 2:** Ademais, entre os que não têm o uso da razão estão os possessos, que se chamam energúmenos. Ora, a tais pessoas é vedado até mesmo contemplar este sacramento, segundo Dionísio (Hier. Ecl. III). Logo, este sacramento não deve ser dado aos que não têm o uso da razão. **Objeção 3:** Ademais, entre os que carecem do uso da razão estão as crianças, as mais inocentes de todos. Ora, este sacramento não se dá às crianças. Portanto, muito menos deve ser dado aos outros privados do uso da razão. **Em contrário,** Lê-se no primeiro Concílio de Orange (Cânon 13); e o mesmo se encontra nas Decretais (xxvi, 6): «Aos insanos devem ser dadas todas as coisas que pertencem à piedade»; e, consequentemente, sendo este o «sacramento da piedade», deve ser-lhes dado. **Respondo que** os homens são ditos privados de razão de dois modos. Primeiro, quando são fracos de entendimento, como se diz que um homem que vê confusamente não vê; e, porque tais pessoas podem conceber alguma devoção para com este sacramento, não se lhes deve negar. De outro modo, diz-se que os homens não possuem plenamente o uso da razão. Ou, então, nunca tiveram o uso da razão, e assim permaneceram desde o nascimento; e, nesse caso, este sacramento não lhes deve ser dado, porque de nenhum modo houve qualquer devoção prévia para com o sacramento; ou, então, nem sempre foram privados de razão, e, nesse caso, se quando outrora tinham juízo mostraram devoção para com este sacramento, deve ser-lhes dado na hora da morte; a menos que se tema o perigo de vômito ou de escarro. Daí que lemos nos atos do quarto Concílio de Cartago (Cânon 76), e o mesmo se encontra nas Decretais (xxvi, 6): «Se um enfermo pedir para receber o sacramento da Penitência; e se, quando o sacerdote que foi chamado vier a ele, estiver tão fraco que não possa falar, ou delirar, os que o ouviram pedir testemunhem, e ele receba o sacramento da Penitência; depois, se se julgar que vai morrer em breve, seja reconciliado pela imposição das mãos, e a Eucaristia seja posta em sua boca». **Réplica à objeção 1:** Os que carecem do uso da razão podem ter devoção para com o sacramento; uns, devoção atual, e outros, devoção passada. **Réplica à objeção 2:** Dionísio fala aí dos energúmenos que ainda não são batizados, nos quais o poder do demônio ainda não está extinto, pois medra neles pela presença do pecado original. Quanto aos batizados que são atormentados no corpo pelos espíritos imundos, a mesma razão vale para eles que para os outros que são dementes. Donde Cassiano dizer (Col. VII): «Não nos lembramos de que a Santíssima Comunhão tenha sido jamais negada pelos nossos anciãos aos que são atormentados pelos espíritos imundos». **Réplica à objeção 3:** A mesma razão vale para as crianças recém-nascidas e para os insanos que nunca tiveram o uso da razão; consequentemente, os sagrados mistérios não lhes devem ser dados. Embora certos gregos façam o contrário, porque Dionísio diz (Hier. Ecl. II) que a Santa Comunhão deve ser dada aos que são batizados; não entendendo que Dionísio aí fala do Batismo dos adultos. E não sofrem eles perda alguma de vida pelo fato de o Senhor dizer (Jo 6,54): «Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós»; porque, como escreve Agostinho a Bonifácio (Pseudo-Beda, Coment. sobre 1 Cor 10,17), «então todo fiel se torna participante», isto é, espiritualmente, «do corpo e do sangue do Senhor, quando é feito membro do corpo de Cristo no Batismo». Quando, porém, as crianças começam a ter algum uso da razão, de modo a poderem conceber alguma devoção para com o sacramento, então lhes pode ser dado.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 9 - Whether those who have not the use of reason ought to receive this sacrament? · séc. XIII

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1Cor 10, 17 nos Padres da Igreja | Aurea