Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que as três espécies de Batismo não são convenientemente descritas como Batismo de Água, de Sangue e de Espírito, i.e., do Espírito Santo. Porque o Apóstolo diz (Efés. 4,5): “Uma só fé, um só batismo.” Ora, uma só fé há. Logo, não devem ser três Batismos. Objeção 2: Ademais, o Batismo é sacramento, como acima deixamos claro (Q. 65, A. 1). Ora, só o Batismo de Água é sacramento. Logo, não se devem contar outros dois Batismos. Objeção 3: Ademais, o Damasceno (De Fide Orth. iv) distingue várias outras espécies de Batismo. Logo, se devem admitir mais de três Batismos. Ao contrário, sobre Hb 6,2: “Da doutrina dos batismos,” diz a glosa: “Usa o plural, porque há Batismo de Água, de Penitência e de Sangue.” Respondo que, como acima foi dito (Q. 62, A. 5), o Batismo de Água recebe a sua eficácia da Paixão de Cristo, à qual o homem se conforma pelo Batismo, e também do Espírito Santo, como causa primeira. Ora, embora o efeito dependa da causa primeira, a causa sobrepuja grandemente o efeito, nem dele depende. Consequentemente, o homem pode, sem o Batismo de Água, receber o efeito sacramental da Paixão de Cristo, na medida em que se conforma a Cristo padecendo por Ele. Donde está escrito (Apoc. 7,14): “Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” De modo semelhante, o homem recebe o efeito do Batismo pelo poder do Espírito Santo, não só sem o Batismo de Água, mas também sem o Batismo de Sangue: enquanto o seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e a arrepender-se dos seus pecados; por isso é também chamado Batismo de Penitência. Deste está escrito (Is. 4,4): “Se o Senhor lavar as sujidades das filhas de Sião, e lavar o sangue de Jerusalém do meio dela, pelo espírito de juízo e pelo espírito de queimação.” Assim, portanto, cada um destes outros Batismos é chamado Batismo, na medida em que faz as vezes do Batismo. Donde Agostinho diz (De Unico Baptismo Parvulorum iv): “O bem-aventurado Cipriano argumenta com muita razão a partir do ladrão, a quem, embora não batizado, foi dito: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’, que o sofrimento pode fazer as vezes do Batismo. Tendo ponderado isto em meu espírito repetidas vezes, percebo que não só o sofrimento pelo nome de Cristo pode suprir o que faltava no Batismo, mas também a fé e a conversão do coração, se porventura, por causa da premência dos tempos, a celebração do mistério do Batismo não é praticável.” Resposta à Objeção 1: Os outros dois Batismos estão incluídos no Batismo de Água, o qual deriva a sua eficácia tanto da Paixão de Cristo como do Espírito Santo. Consequentemente, por esta razão, a unidade do Batismo não é destruída. Resposta à Objeção 2: Como foi dito acima (Q. 60, A. 1), sacramento é uma espécie de sinal. Os outros dois, porém, são semelhantes ao Batismo de Água, não na natureza de sinal, mas no efeito batismal. Consequentemente, não são sacramentos. Resposta à Objeção 3: O Damasceno enumera certos Batismos figurados. Por exemplo, “o Dilúvio” foi figura do nosso Batismo, quanto à salvação dos fiéis na Igreja; pois então “poucas almas se salvaram na arca [Vulg.: ‘pela água’]”, segundo 1 Pe 3,20. Menciona também “a travessia do Mar Vermelho”: que foi figura do nosso Batismo, quanto à nossa libertação da escravidão do pecado; donde o Apóstolo diz (1 Co 10,2) que “todos foram batizados na nuvem e no mar”. E ainda menciona “as várias abluções que eram costumeiras sob a Lei Velha”, que eram figuras do nosso Batismo, quanto à purificação dos pecados; também “o Batismo de João”, que preparou o caminho para o nosso Batismo.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 11 - Whether three kinds of Baptism are fittingly described---viz. Baptism of Water, of Blood, and of the Spirit? · séc. XIII
tradução automática