Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a imagem de Cristo não deve ser adorada com a adoração de *latria*. Pois está escrito (Êx 20,4): «Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma». Ora, nenhuma adoração deve ser prestada contra o mandamento de Deus. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com a adoração de *latria*. **Objeção 2:** Ademais, não devemos ter nada em comum com as obras dos gentios, como diz o Apóstolo (Ef 5,11). Mas os gentios são repreendidos principalmente por que «mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível», como está escrito (Rm 1,23). Portanto, a imagem de Cristo não deve ser adorada com a adoração de *latria*. **Objeção 3:** Ademais, a Cristo é devida a adoração de *latria* por razão de sua Divindade, não de sua humanidade. Ora, a adoração de *latria* não é devida à imagem de sua Divindade, a qual está impressa na alma racional. Muito menos, portanto, é devida à imagem material que representa a humanidade do próprio Cristo. **Objeção 4:** Ademais, parece que nada deve ser feito no culto divino que não tenha sido instituído por Deus; por isso o Apóstolo (1Cor 11,23), ao tratar de estabelecer a doutrina do sacrifício da Igreja, diz: «Eu recebi do Senhor o que também vos entreguei». Ora, a Escritura nada estabelece acerca da adoração das imagens. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com a adoração de *latria*. **Em contrário,** Damasceno (*De Fide Orth.* IV,16) cita Basílio dizendo: «A honra dada à imagem chega ao protótipo», i.e., ao exemplar. Ora, o exemplar mesmo — a saber, Cristo — deve ser adorado com a adoração de *latria*; logo, também a sua imagem. **Respondo** que, como diz o Filósofo (*De Memor. et Remin.* I), há um duplo movimento da mente para uma imagem: um, na verdade, para a imagem em si mesma como uma certa coisa; outro, para a imagem enquanto é imagem de outra coisa. E entre esses movimentos há esta diferença: que o primeiro, pelo qual alguém é movido para a imagem como uma certa coisa, é diferente do movimento para a coisa; enquanto o segundo movimento, que é para a imagem enquanto imagem, é um e o mesmo que o movimento para a coisa. Assim, portanto, devemos dizer que nenhuma reverência é prestada à imagem de Cristo como coisa — por exemplo, madeira esculpida ou pintada — porque a reverência não é devida senão a uma criatura racional. Segue-se, portanto, que a reverência lhe deve ser prestada apenas enquanto é imagem. Consequentemente, a mesma reverência deve ser prestada à imagem de Cristo que ao próprio Cristo. Visto, portanto, que Cristo é adorado com a adoração de *latria*, segue-se que a sua imagem deve ser adorada com a adoração de *latria*. **Resposta à Objeção 1:** Esse mandamento não proíbe fazer qualquer imagem de escultura ou semelhança, mas fazê-la para fins de adoração, por isso acrescenta-se: «Não as adorarás nem as servirás». E porque, como foi dito acima, o movimento para a imagem é o mesmo que o movimento para a coisa, a adoração dela é proibida da mesma forma que a adoração da coisa cuja imagem é. Por isso, no trecho citado, devemos entender a proibição de adorar aquelas imagens que os gentios faziam para venerar seus próprios deuses, i.e., os demônios, e assim é dito antes: «Não terás deuses estranhos diante de mim». Ora, nenhuma imagem corpórea poderia ser erigida ao próprio Deus verdadeiro, pois Ele é incorpóreo; porque, como observa Damasceno (*De Fide Orth.* IV,16): «É a mais alta absurdidade e impiedade forjar uma figura do que é divino». Mas porque no Novo Testamento Deus se fez homem, Ele pode ser adorado em sua imagem corpórea. **Resposta à Objeção 2:** O Apóstolo proíbe-nos ter algo em comum com as «obras infrutuosas» dos gentios, mas não com as suas obras úteis. Ora, a adoração das imagens deve ser contada entre as obras infrutuosas sob dois aspectos. Primeiro, porque alguns gentios costumavam adorar as próprias imagens como coisas, acreditando que nelas havia algo de divino, por causa das respostas que os demônios costumavam dar nelas, e por outros efeitos maravilhosos semelhantes. Segundo, por causa das coisas de que eram imagens; pois erigiam imagens a certas criaturas, às quais nessas imagens prestavam a veneração de *latria*. Ao passo que nós damos a adoração de *latria* à imagem de Cristo, que é verdadeiro Deus, não por causa da imagem, mas por causa da coisa cuja imagem é, como foi dito acima. **Resposta à Objeção 3:** A reverência é devida à criatura racional por si mesma. Consequentemente, se a adoração de *latria* fosse prestada à criatura racional na qual esta imagem está, poderia haver ocasião de erro — a saber, que o movimento de adoração parasse no homem como coisa, e não fosse levado até Deus, cuja imagem ele é. Isso não pode acontecer no caso de uma imagem esculpida ou pintada em matéria insensível. **Resposta à Objeção 4:** Os Apóstolos, guiados pelo instinto interior do Espírito Santo, transmitiram às igrejas certos ensinamentos que não puseram por escrito, mas que foram ordenados, conforme a observância da Igreja segundo a prática dos fiéis ao longo do tempo. Por isso o Apóstolo diz (2Ts 2,14): «Permanecei firmes e guardai as tradições que aprendestes, seja por palavra» — isto é, por palavra oral — «seja por nossa epístola» — isto é, por palavra posta por escrito. Entre essas tradições está o culto da imagem de Cristo. Donde se diz que o bem-aventurado Lucas pintou a imagem de Cristo, a qual está em Roma.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the image of Christ should be adored with the adoration of 'latria'? · séc. XIII
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