Santo Thomas Aquinas
Parece que o honesto não é o mesmo que o belo. Porque a noção de honesto deriva do apetite, visto que o honesto é "o que é desejável por si mesmo" (Cícero, *De Invent. Rhet.* ii, 53). Mas o belo diz respeito antes à faculdade da visão, à qual agrada. Logo, o belo não é o mesmo que o honesto. Além disso, a beleza requer uma certa claridade, que é própria da glória; enquanto o honesto diz respeito à honra. Ora, como honra e glória diferem, conforme foi dito acima (q.103, a.1, ad 3), parece também que o honesto e o belo diferem. Além disso, a honestidade é o mesmo que a virtude, como foi dito acima (a.1). Mas uma certa beleza é contrária à virtude, pelo que está escrito (Ez 16,15): "Confiaste na tua beleza e te prostituíste por causa da tua fama." Logo, o honesto não é o mesmo que o belo. Em sentido contrário, o Apóstolo diz (1 Cor 12,23-24): "Os que são as nossas partes menos decentes têm mais abundante decência, mas as nossas partes decentes não têm necessidade." Ora, por partes menos decentes entende os membros mais baixos, e por partes decentes os membros belos. Portanto, o honesto e o belo são aparentemente o mesmo. Respondo que, como se pode coligir das palavras de Dionísio (*Div. Nom.* iv), a beleza ou formosura resulta do concurso da claridade e da devida proporção. Pois ele afirma que Deus é chamado belo, como sendo "a causa da harmonia e claridade do universo". Donde a beleza do corpo consiste em ter o homem os seus membros corporais bem proporcionados, juntamente com uma certa claridade de cor. De modo semelhante, a beleza espiritual consiste em que a conduta ou as ações do homem sejam bem proporcionadas relativamente à claridade espiritual da razão. Ora, isto é o que se entende por honestidade, que dissemos (a.1) ser o mesmo que a virtude; e é a virtude que modera segundo a razão tudo o que concerne ao homem. Por isso, "a honestidade é o mesmo que a beleza espiritual". Donde Agostinho dizer (*QQ[83]*, qu. 30): "Por honestidade entendo a beleza inteligível, que propriamente designamos como espiritual", e mais adiante acrescenta que "muitas coisas são belas aos olhos, as quais dificilmente se chamariam honestas". Quanto ao primeiro argumento, portanto, o objeto que move o apetite é um bem apreendido. Ora, se uma coisa é percebida como bela logo que apreendida, é tida como algo conveniente e bom. Donde Dionísio dizer (*Div. Nom.* iv) que "o belo e o bom são amados por todos". Por isso, o honesto, na medida em que implica beleza espiritual, é objeto de desejo, e por esta razão Túlio diz (*De Offic.* i, 5): "Percebes a forma e as feições, por assim dizer, da honestidade; e se fosse vista com os olhos, despertaria, como diz Platão, um maravilhoso amor da sabedoria." Quanto ao segundo, como foi dito acima (q.103, a.1, ad 3), a glória é efeito da honra: porque ao ser honrado ou louvado, a pessoa adquire claridade aos olhos dos outros. Portanto, assim como a mesma coisa torna o homem honrado e glorioso, assim também a mesma coisa é honesta e bela. Quanto ao terceiro, este argumento se aplica à beleza do corpo: embora se possa responder que gloriar-se da própria honestidade é prostituir-se por causa da própria beleza espiritual, segundo Ez 28,17: "Elevou-se o teu coração na tua beleza, perdeste a tua sabedoria na tua beleza."
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the honest is the same as the beautiful? · séc. XIII
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