Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que o Filho de Deus assumiu a natureza humana por meio da graça. Porque pela graça somos unidos a Deus. Ora, a natureza humana em Cristo foi estreitissimamente unida a Deus. Logo, a união deu-se por graça. **Objecção 2:** Ademais, assim como o corpo vive pela alma, que é sua perfeição, assim a alma vive pela graça. Ora, a natureza humana foi apta para a assunção pela alma. Logo, o Filho de Deus assumiu a alma por meio da graça. **Objecção 3:** Ademais, Agostinho diz (De Trin. XV, 11) que o Verbo encarnado é semelhante à nossa palavra proferida. Ora, a nossa palavra une-se à fala por meio do "sopro" [spiritus]. Logo, o Verbo de Deus une-se à carne por meio do Espírito Santo e, portanto, por meio da graça, que é atribuída ao Espírito Santo, segundo 1 Cor. 12,4: "Ora, há diversidade de graças, mas o mesmo Espírito." **Em contrário,** a graça é um acidente na alma, como se demonstrou acima (I-II, q. 110, a. 2). Ora, a união do Verbo com a natureza humana deu-se na subsistência, e não acidentalmente, como se mostrou acima (q. 2, a. 6). Logo, a natureza humana não foi assumida por meio da graça. **Respondo.** Em Cristo houve a graça de união e a graça habitual. Portanto, a graça não pode ser tomada como meio da assunção da natureza humana, quer falemos da graça de união, quer da graça habitual. Porque a graça de união é o ser pessoal que é dado gratuitamente do alto à natureza humana na Pessoa do Verbo, e é o termo da assunção. Ao passo que a graça habitual, pertencente à santidade espiritual do homem, é um efeito que se segue à união, segundo Jo. 1,14: "Vimos a sua glória, como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" — pelo que se nos dá a entender que, porque este Homem (como resultado da união) é o Unigênito do Pai, está cheio de graça e de verdade. Mas se, por graça, entendermos a vontade de Deus que faz ou concede algo gratuitamente, a união deu-se por graça, não como meio, mas como causa eficiente. **Resposta à Objecção 1:** A nossa união com Deus dá-se pela operação, enquanto O conhecemos e amamos; e, portanto, esta união dá-se pela graça habitual, enquanto de um hábito procede uma operação perfeita. Ora, a união da natureza humana com o Verbo de Deus dá-se no ser pessoal, o qual não depende de nenhum hábito, mas da própria natureza. **Resposta à Objecção 2:** A alma é a perfeição substancial do corpo; a graça é apenas uma perfeição acidental da alma. Portanto, a graça não pode ordenar a alma à união pessoal, que não é acidental, como a alma ordena o corpo. **Resposta à Objecção 3:** A nossa palavra une-se à fala por meio do sopro [spiritus], não como meio formal, mas como meio motor. Porque da palavra concebida interiormente procede o sopro, do qual se forma a fala. E semelhantemente, do Verbo eterno procede o Espírito Santo, que formou o corpo de Cristo, como se mostrará (q. 32, a. 1). Mas não se segue daí que a graça do Espírito Santo seja o meio formal na referida união.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether the human nature was assumed through the medium of grace? · séc. XIII
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