Santo Thomas Aquinas
**Excerto 8 — Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, Artigo 5 — Se as ações dos outros são causa de deleite para nós?** Objecção 1: Parece que as ações dos outros não são causa de deleite para nós. Porque a causa do deleite é o nosso próprio bem quando conjuntamente a nós. Ora, as ações dos outros não estão conjuntamente a nós. Logo, não são causa de deleite para nós. Objecção 2: Demais, a ação é o bem próprio do agente. Se, portanto, as ações dos outros são causa de deleite para nós, pela mesma razão todos os bens alheios nos serão deleitáveis: o que é evidentemente falso. Objecção 3: Demais, a ação é deleitável por proceder de um hábito inato; por isso, afirma-se em Étic. II, 3 que “devemos considerar o deleite que se segue à ação como o sinal de um hábito existente em nós”. Ora, as ações dos outros não procedem de hábitos existentes em nós, mas, às vezes, de hábitos existentes nos agentes. Logo, as ações dos outros não são deleitáveis para nós, mas para os próprios agentes. Em contrário, está escrito na segunda epístola canónica de João (v. 4): “Alegrei-me muito por ter achado os teus filhos a andar na verdade.” Respondo que, como se disse acima (A. 1; Q. 31, A. 1), duas coisas são necessárias para o deleite: a saber, a obtenção do próprio bem adequado e o conhecimento de o ter obtido. Por onde, a ação de outrem pode causar deleite para nós de três modos. Primeiro, pelo facto de obtermos algum bem através da ação de outrem. E deste modo, as ações daqueles que nos fazem algum bem são deleitáveis para nós: pois é deleitável ser beneficiado por outrem. Segundo, pelo facto de a ação de outrem nos fazer conhecer ou apreciar o nosso próprio bem: e por esta razão os homens se deleitam em ser louvados ou honrados por outros, porque, a saber, assim se apercebem de algum bem existente em si mesmos. E como esta apreciação recebe maior peso do testemunho dos homens bons e sábios, por isso os homens se deleitam mais em ser louvados e honrados por eles. E porque um lisonjeador parece louvar, por isso a lisonja é deleitável a alguns. E como o amor é por algo bom, enquanto a admiração é por algo grande, assim é deleitável ser amado e admirado por outros, na medida em que um homem assim se apercebe da sua própria bondade ou grandeza, através do deleite que causam aos outros. Terceiro, pelo facto de as ações de outrem, se forem boas, serem consideradas como bem próprio, devido ao poder do amor, que faz com que um homem considere o seu amigo como um consigo mesmo. E devido ao ódio, que faz com que um homem considere o bem de outrem como estando em oposição a si, a ação má de um inimigo torna-se objeto de deleite: donde está escrito (1 Cor. 13, 6) que a caridade “não se alegra com a iniquidade, mas alegra-se com a verdade.” Resposta à Objecção 1: A ação de outrem pode estar conjuntamente a mim, ou pelo seu efeito, como no primeiro modo, ou pelo conhecimento, como no segundo modo; ou pela afeição, como no terceiro modo. Resposta à Objecção 2: Este argumento vale para o terceiro modo, mas não para os dois primeiros. Resposta à Objecção 3: Embora as ações de outrem não procedam de hábitos que estão em mim, contudo ou produzem em mim algo que dá deleite; ou me fazem apreciar ou conhecer um hábito da mente; ou procedem do hábito de alguém que me está unido pelo amor.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether the actions of others are a cause of pleasure to us? · séc. XIII
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