Santo Thomas Aquinas
**Objectio 1:** Parece que devemos orar somente a Deus. A oração é um ato de religião, como se disse acima (A. 3). Ora, somente a Deus se deve prestar culto de religião. Logo, a Deus somente devemos orar. **Objectio 2:** Ademais, é inútil orar a quem ignora a oração. Mas só a Deus pertence conhecer a nossa oração, tanto porque frequentemente a oração se profere por um ato interior, que só Deus conhece, mais do que por palavras, conforme o dito do Apóstolo (1 Cor 14,15): «Orarei com o espírito, orarei também com o entendimento»; como também porque, como diz Agostinho (Do cuidado pelos mortos, XIII), «os mortos, ainda que santos, não sabem o que fazem os vivos, nem mesmo os seus próprios filhos». Portanto, devemos orar somente a Deus. **Objectio 3:** Ademais, se oramos a algum dos santos, é somente porque eles estão unidos a Deus. Ora, alguns ainda vivendo neste mundo, ou mesmo os que estão no Purgatório, estão estreitamente unidos a Deus pela graça; e contudo não lhes oramos. Logo, nem aos santos que estão no Paraíso devemos orar. **Em contrário,** está escrito (Jó 5,1): «Chama… se há quem te responda; e volta-te para algum dos santos.» **Respondo.** A oração se oferece a alguém de dois modos: primeiro, como aquele por quem deve ser cumprida; segundo, como aquele por quem deve ser obtida. Do primeiro modo, oferecemos oração somente a Deus, pois todas as nossas orações devem ser dirigidas à aquisição da graça e da glória, que só Deus dá, conforme o Salmo 83,12: «O Senhor dará graça e glória.» Mas do segundo modo, oramos aos santos, quer anjos quer homens, não para que Deus, por meio deles, conheça as nossas petições, mas para que as nossas orações sejam eficazes por meio das suas orações e méritos. Por isso está escrito (Ap 8,4) que «a fumaça do incenso», a saber, «as orações dos santos, subiu diante de Deus». Isto também se torna claro pelo próprio estilo usado pela Igreja ao orar: pois suplicamos à Bem-aventurada Trindade «que tenha misericórdia de nós», enquanto pedimos a qualquer dos santos «que rogue por nós». **Resposta à primeira objeção:** Só Àquele prestamos culto religioso quando oramos, de Quem procuramos obter o que pedimos, porque, assim fazendo, confessamos que Ele é o Autor dos nossos bens; mas não àqueles a quem invocamos como nossos advogados diante de Deus. **Resposta à segunda objeção:** Os mortos, se considerarmos a sua condição natural, não sabem o que se passa neste mundo, especialmente os movimentos interiores do coração. Contudo, segundo Gregório (Moral. XII, 21), tudo quanto convém que os bem-aventurados saibam acerca do que nos sucede, mesmo quanto aos movimentos interiores do coração, lhes émanifestado no Verbo; e é muito condigno com a sua elevada condição que conheçam as petições que lhes fazemos por palavra ou pensamento; e consequentemente, as petições que lhes dirigimos são-lhes conhecidas por manifestação divina. **Resposta à terceira objeção:** Aqueles que estão neste mundo ou no Purgatório ainda não gozam da visão do Verbo, de modo a poderem saber o que pensamos ou dizemos. Por isso, não buscamos o seu auxílio orando-lhes, mas pedimo-lo aos vivos falando-lhes.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether we ought to pray to God alone? · séc. XIII
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