Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que não era conveniente que Cristo morresse. Pois um primeiro princípio em qualquer ordem não é afetado por nada contrário a tal ordem: assim o fogo, que é o princípio do calor, nunca pode tornar-se frio. Ora, o Filho de Deus é a fonte e o princípio de toda a vida, segundo o Sl. 35,10: «Porque em ti está a fonte da vida.» Logo, não parece conveniente que Cristo morresse. **Objeção 2:** Ademais, a morte é um defeito maior do que a doença, porque é pela doença que se chega à morte. Ora, não era próprio que Cristo padecesse de doença, como diz Crisóstomo [*Atanásio, Orat. de Incarn. Verbi]. Consequentemente, também não era próprio que Cristo morresse. **Objeção 3:** Ademais, nosso Senhor disse (Jo. 10,10): «Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.» Ora, um contrário não conduz a outro. Portanto, parece que também não era conveniente que Cristo morresse. **Ao contrário,** está escrito (Jo. 11,50): «Convém que um homem morra pelo povo... para que não pereça toda a nação»; palavras que foram proferidas profeticamente por Caifás, como testifica o Evangelista. **Respondo que** era conveniente que Cristo morresse. Primeiro, para satisfazer por todo o gênero humano, que fora condenado à morte por causa do pecado, segundo Gn. 2,17: «Porque no dia em que dela comeres, com morte morrerás.» Ora, é modo conveniente de satisfazer por outrem sujeitar-se à pena merecida por esse outro. E assim Cristo quis morrer, para que, morrendo, nos remisse, segundo 1 Ped. 3,18: «Cristo também morreu uma só vez pelos nossos pecados.» Segundo, para mostrar a realidade da carne assumida. Pois, como diz Eusébio (Orat. de Laud. Constant. xv), «se, depois de habitar entre os homens, Cristo de repente desaparecesse da vista dos homens, como que fugindo da morte, seria tido por todos como um fantasma.» Terceiro, para que, morrendo, nos livrasse do temor da morte; por isso está escrito (Heb. 2,14-15) que Ele comunicou «com a carne e o sangue, para que, pela morte, destruísse aquele que tinha o império da morte, e libertasse aqueles que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à servidão.» Quarto, para que, morrendo no corpo à semelhança do pecado — isto é, à sua pena — nos desse o exemplo de morrer espiritualmente ao pecado. Por isso está escrito (Rom. 6,10-11): «Porque, quanto a ter morrido, morreu uma só vez para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, e vivos para Deus.» Quinto, para que, ressurgindo dos mortos e manifestando o seu poder, pelo qual derrubou a morte, nos infundisse a esperança de ressurgir dos mortos. Por isso diz o Apóstolo (1 Cor. 15,12): «Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos?» **Resposta à objeção 1:** Cristo é a fonte da vida como Deus, e não como homem; mas morreu como homem, e não como Deus. Por isso diz Agostinho [*Vigílio Tapsense] contra Feliciano: «Longe de nós supor que Cristo sentiu de tal modo a morte que perdesse a vida enquanto é Ele mesmo a vida; pois, se assim fosse, a fonte da vida teria secado. Por conseguinte, experimentou a morte participando do nosso sentimento humano, que voluntariamente assumira, mas não perdeu o poder da sua Natureza, pela qual dá vida a todas as coisas.» **Resposta à objeção 2:** Cristo não sofreu a morte que provém de doença, para que não parecesse morrer por necessidade da natureza exausta; mas sofreu a morte infligida de fora, à qual voluntariamente se entregou, para que a sua morte se manifestasse como voluntária. **Resposta à objeção 3:** Um contrário não conduz diretamente ao outro; contudo, indiretamente o faz às vezes: assim o frio é às vezes causa indireta do calor; e deste modo Cristo, pela sua morte, nos reconduziu à vida, quando, pela sua morte, destruiu a nossa morte; assim como aquele que suporta a pena de outrem a remove.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether it was fitting that Christ should die? · séc. XIII
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