Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o corpo de Cristo não ressuscitou glorificado. Pois os corpos glorificados resplandecem, segundo Mateus 13,43: «Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai». Ora, os corpos resplandecentes são vistos sob o aspecto da luz, mas não da cor. Logo, visto que o corpo de Cristo foi contemplado sob o aspecto da cor, como até então, parece que não era glorificado. **Objeção 2:** Ademais, um corpo glorificado é incorruptível. Mas o corpo de Cristo parece não ter sido incorruptível, porque era palpável, como Ele mesmo diz em Lucas 24,39: «Tocai e vede». Ora, Gregório diz (Hom. in Evang. XXVI) que «o que se toca deve ser corruptível, e o que é incorruptível não pode ser tocado». Consequentemente, o corpo de Cristo não era glorificado. **Objeção 3:** Ademais, um corpo glorificado não é animal, mas espiritual, como é claro em 1 Coríntios 15. Ora, depois da Ressurreição, o corpo de Cristo parece ter sido animal, pois Ele comeu e bebeu com Seus discípulos, como lemos nos capítulos finais de Lucas e João. Portanto, parece que o corpo de Cristo não era glorificado. **Em contrário,** o Apóstolo diz (Filipenses 3,21): «Ele reformará o corpo da nossa humilhação, tornando-o conforme ao corpo da Sua glória». **Respondo que** o corpo de Cristo foi glorificado em Sua Ressurreição, e isto é evidente por três razões. Primeiramente, porque Sua Ressurreição foi o exemplar e a causa da nossa, como se afirma em 1 Coríntios 15,43. Ora, na ressurreição os santos terão corpos glorificados, como está escrito no mesmo lugar: «É semeado em ignomínia, ressurgirá em glória». Portanto, sendo a causa mais poderosa que o efeito, e o exemplar mais que a coisa exemplada, muito mais glorioso foi, então, o corpo de Cristo em Sua Ressurreição. Em segundo lugar, porque Ele mereceu a glória de Sua Ressurreição pela humildade de Sua Paixão. Por isso disse (João 12,27): «Agora a Minha alma está turbada», referindo-Se à Paixão; e depois acrescenta: «Pai, glorifica o Teu nome», pelo que pede a glória da Ressurreição. Em terceiro lugar, porque, como foi dito acima (Q. 34, A. 4), a alma de Cristo foi glorificada desde o instante de Sua conceição pela perfeita fruição da Divindade. Mas, como foi dito acima (Q. 14, A. 1, ad 2), foi por economia divina que a glória não passou de Sua alma ao Seu corpo, a fim de que, pela Paixão, realizasse o mistério de nossa redenção. Por conseguinte, consumado este mistério da Paixão e morte de Cristo, imediatamente a alma comunicou sua glória ao corpo ressuscitado na Ressurreição; e assim esse corpo se tornou glorioso. **Resposta à Objeção 1:** Tudo o que é recebido num sujeito é recebido segundo a capacidade do sujeito. Portanto, visto que a glória flui da alma para o corpo, segue-se que, como diz Agostinho (Ep. ad Dioscor. CXVIII), o brilho ou esplendor de um corpo glorificado é à maneira da cor natural no corpo humano; assim como o vidro de várias cores obtém seu esplendor do raio do sol, segundo o modo da cor. Mas, assim como está no poder do homem glorificado que seu corpo seja visto ou não, como foi dito acima (A. 1, ad 2), assim também está em seu poder que seu esplendor seja visto ou não. Por conseguinte, pode ser visto em sua cor sem seu brilho. E foi desta maneira que o corpo de Cristo apareceu aos discípulos após a Ressurreição. **Resposta à Objeção 2:** Dizemos que um corpo pode ser tocado não só por causa de sua resistência, mas também por causa de sua densidade. Ora, da rarefação e densidade seguem-se o peso e a leveza, o calor e o frio, e contrários semelhantes, que são os princípios da corrupção nos corpos elementares. Consequentemente, um corpo que pode ser tocado pelo tato humano é naturalmente corruptível. Mas se houver um corpo que resiste ao toque, e contudo não é disposto segundo as qualidades mencionadas, que são os objetos próprios do tato humano, como um corpo celeste, então tal corpo não pode ser dito tocado. Ora, o corpo de Cristo após a Ressurreição era verdadeiramente composto de elementos e possuía qualidades tangíveis, como requer a natureza de um corpo humano, e portanto podia ser tocado naturalmente; e se não tivesse nada além da natureza de um corpo humano, seria igualmente corruptível. Mas possuía algo mais que o tornava incorruptível, e isto não era a natureza de um corpo celeste, como alguns sustentam, e sobre o que faremos investigação mais completa adiante (Supl., Q. 82, A. 1), mas era a glória fluindo de uma alma beatificada: porque, como diz Agostinho (Ep. ad Dioscor. CXVIII): «Deus fez a alma de natureza tão poderosa, que da sua pleníssima beatitude transborda para o corpo a plenitude da saúde, isto é, o vigor da incorrupção». E por isso Gregório diz (Hom. in Evang. XXVI): «Mostra-se que o corpo de Cristo é da mesma natureza, mas de diferente glória, depois da Ressurreição». **Resposta à Objeção 3:** Como diz Agostinho (De Civitate Dei XIII): «Depois da Ressurreição, nosso Salvador, em carne espiritual mas verdadeira, tomou alimento com os discípulos, não por necessidade de comida, mas porque estava em Seu poder». Pois, como Beda diz sobre Lucas 24,41: «A terra sedenta absorve a água, e o raio ardente do sol a absorve; aquela por necessidade, este por seu poder». Portanto, depois da Ressurreição Ele comeu, «não como necessitado de alimento, mas para assim mostrar a natureza de Seu corpo ressuscitado». Nem se segue que Seu corpo fosse animal, que necessita de alimento.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ's body rose glorified? [*Some editions give this article as the third, following the order of the introduction to the question. But this is evident from the first sentence of the body of A[3] (A[2] in the aforesaid editions), that the order of the Leonine edition is correct.] · séc. XIII
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