Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Cristo não teve um corpo carnal ou terreno, mas sim um corpo celeste. Pois o Apóstolo diz (1 Coríntios 15:41): «O primeiro homem, da terra, terreno; o segundo homem, do céu, celeste.» Ora, o primeiro homem, isto é, Adão, era da terra quanto ao corpo, como é claro em Gênesis 1. Logo, o segundo homem, isto é, Cristo, era do céu quanto ao corpo. Objeção 2: Além disso, está escrito (1 Coríntios 15:50): «A carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus.» Ora, o reino de Deus está principalmente em Cristo. Logo, não há carne nem sangue n'Ele, mas antes um corpo celeste. Objeção 3: Além disso, o que é melhor deve ser atribuído a Deus. Ora, de todos os corpos, o celeste é o melhor. Logo, convinha que Cristo assumisse tal corpo. Ao contrário, o Senhor diz (Lucas 24:39): «Um espírito não tem carne e ossos, como vedes que Eu tenho.» Ora, carne e ossos não são da matéria dos corpos celestes, mas são compostos dos elementos inferiores. Portanto, o corpo de Cristo não era celeste, mas carnal e terreno. Respondo que, pelas razões que provaram que o corpo de Cristo não era imaginário, pode-se também mostrar que não era um corpo celeste. Primeiro, porque assim como a verdade da natureza humana de Cristo não teria sido mantida se o Seu corpo fosse imaginário, como supôs Manes, do mesmo modo não teria sido mantida se supuséssemos, como fez Valentim, que era um corpo celeste. Pois, sendo a forma do homem uma coisa natural, requer matéria determinada, a saber, carne e ossos, que devem ser colocados na definição do homem, como é claro pelo Filósofo (Metafísica VII, 39). Segundo, porque isso diminuiria a verdade das coisas que Cristo fez no corpo. Pois, sendo um corpo celeste impassível e incorruptível, como se prova em De Coelo I, 20, se o Filho de Deus tivesse assumido um corpo celeste, não teria verdadeiramente tido fome ou sede, nem teria sofrido a Paixão e a morte. Terceiro, porque isto teria diminuído a veracidade de Deus. Pois, tendo o Filho de Deus Se mostrado aos homens como se tivesse um corpo carnal e terreno, a manifestação teria sido falsa, se tivesse tido um corpo celeste. Donde (De Ecclesiasticis Dogmatibus II) se diz: «O Filho de Deus nasceu, tomando carne do corpo da Virgem, e não a trazendo do céu.» Resposta à primeira objeção: Cristo é dito ter descido do céu de dois modos. Primeiro, quanto à Sua natureza divina; não que a natureza divina tenha cessado de estar no céu, mas enquanto começou a estar cá em baixo de um modo novo, isto é, pela sua natureza assumida, segundo João 3:13: «Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu.» Segundo, quanto ao Seu corpo, não que a própria substância do corpo de Cristo tenha descido do céu, mas porque o Seu corpo foi formado por um poder celeste, isto é, pelo Espírito Santo. Daí que Agostinho, explicando a passagem citada, diz (Ad Orosium): «Chamo a Cristo homem celeste porque não foi concebido de semente humana.» E Hilário expõe do mesmo modo (De Trinitate X). Resposta à segunda objeção: Carne e sangue não são tomados aqui pela substância da carne e do sangue, mas pela corrupção da carne, a qual não estava em Cristo enquanto era pecaminosa, mas enquanto era uma pena; assim, por um tempo, esteve em Cristo, para que Ele pudesse realizar a obra da nossa redenção. Resposta à terceira objeção: Pertence à máxima glória de Deus ter elevado um corpo fraco e terreno a tão grande sublimidade. Donde que, no Concílio Geral de Éfeso (Parte II, Ato I), lemos a sentença de São Teófilo: «Assim como os melhores artífices são estimados não apenas por exibirem a sua habilidade em materiais preciosos, mas muitas vezes por usarem os mais pobres [...] terra comum e vil, mostram o poder da sua arte; assim o melhor de todos os artífices, o Verbo de Deus, não desceu até nós tomando um corpo celeste de alguma matéria preciosíssima, mas mostrou a grandeza da Sua arte no barro.»
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether the Son of God ought to have assumed a carnal or earthly body? · séc. XIII
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