Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a caridade não é uma virtude especial. Porque Jerônimo diz: “Permita-me definir brevemente toda virtude como a caridade pela qual amamos a Deus” [*A referência deveria ser a Agostinho, Ep. clxvii]; e Agostinho diz (De Moribus Eccl. xv) [*De Civ. Dei xv, 22] que “a virtude é a ordem do amor”. Ora, nenhuma virtude especial está incluída na definição de virtude em geral. Logo, a caridade não é uma virtude especial. Objeção 2: Além disso, aquilo que se estende a todas as obras de virtude não pode ser uma virtude especial. Mas a caridade se estende a todas as obras de virtude, segundo 1 Cor 13,4: “A caridade é paciente, é benigna”, etc.; de fato, estende-se a todas as ações humanas, segundo 1 Cor 16,14: “Todas as vossas coisas sejam feitas em caridade”. Portanto, a caridade não é uma virtude especial. Objeção 3: Além disso, os preceitos da Lei se referem a atos de virtude. Ora, Agostinho diz (De Perfect. Human. Justit. v) que “Amarás” é “um mandamento geral”, e “Não cobiçarás”, “uma proibição geral”. Logo, a caridade é uma virtude geral. Em contrário, Nada geral é enumerado juntamente com o que é especial. Mas a caridade é enumerada juntamente com virtudes especiais, a saber, a esperança e a fé, segundo 1 Cor 13,13: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três”. Portanto, a caridade é uma virtude especial. Respondo que, Os atos e os hábitos são especificados por seus objetos, como se mostrou acima (I II, Q. 18, A. 2; I II, Q. 54, A. 2). Ora, o objeto próprio do amor é o bem, como foi dito acima (I II, Q. 27, A. 1); de modo que onde quer que haja um aspecto especial de bem, aí há uma espécie especial de amor. Mas o bem divino, enquanto objeto da bem-aventurança, tem um aspecto especial de bem; por onde o amor da caridade, que é o amor desse bem, é uma espécie especial de amor. Portanto, a caridade é uma virtude especial. Resposta à objeção 1: A caridade está incluída na definição de toda virtude, não como se fosse essencialmente toda virtude, mas porque toda virtude de certo modo depende dela, como adiante se dirá (AA. 7,8). Desse modo, a prudência está incluída na definição das virtudes morais, como se explica em Ética ii, vi, pelo fato de dependerem da prudência. Resposta à objeção 2: A virtude ou arte que trata do fim último comanda as virtudes ou artes que tratam de outros fins secundários; assim, a arte militar comanda a arte de cavalgar (Ética i). Por conseguinte, como a caridade tem por objeto o fim último da vida humana, a saber, a bem-aventurança eterna, segue-se que ela se estende aos atos de toda a vida do homem, comandando-os, e não eliciando imediatamente todos os atos de virtude. Resposta à objeção 3: O preceito do amor é dito mandamento geral, porque todos os outros preceitos se reduzem a ele como ao seu fim, segundo 1 Tm 1,5: “O fim do mandamento é a caridade”.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether charity is a special virtue? · séc. XIII
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