Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que pela graça não se obtém um conhecimento mais elevado de Deus do que pela razão natural. Porque Dionísio diz (Teologia Mística, cap. I) que quem nesta vida está mais unido a Deus, está unido a Ele como a alguém inteiramente desconhecido. Diz o mesmo de Moisés, o qual, todavia, obteve certa excelência pelo conhecimento conferido pela graça. Ora, estar unido a Deus ignorando d’Ele “o que Ele é” também se dá pela razão natural. Logo, Deus não nos é mais conhecido pela graça do que pela razão natural. **Objeção 2:** Ademais, só podemos adquirir o conhecimento das coisas divinas pela razão natural mediante a imaginação; e o mesmo se aplica ao conhecimento dado pela graça. Pois Dionísio diz (Hierarquia Celeste, cap. I) que “é impossível que o raio divino brilhe sobre nós, senão quando envolvido por véus sagrados multicores”. Portanto, não podemos conhecer Deus mais plenamente pela graça do que pela razão natural. **Objeção 3:** Além disso, o nosso intelecto adere a Deus pela graça da fé. Ora, a fé não parece ser conhecimento; porque Gregório diz (Hom. XXVI no Evangelho) que “as coisas não vistas são objeto de fé, e não de conhecimento”. Logo, não nos é dado pela graça um conhecimento mais excelente de Deus. **Em contrário,** o Apóstolo diz que “Deus nos revelou pelo Seu Espírito” o que “nenhum dos príncipes deste mundo conheceu” (1 Cor 2,10), isto é, os filósofos, como expõe a glosa. **Respondo que** temos um conhecimento mais perfeito de Deus pela graça do que pela razão natural. O que se prova assim. O conhecimento que temos pela razão natural contém duas coisas: imagens derivadas dos objetos sensíveis; e a luz inteligível natural, que nos permite abstrair delas conceitos inteligíveis. Ora, em ambos esses aspectos, o conhecimento humano é auxiliado pela revelação da graça. Pois a luz natural do intelecto é fortalecida pela infusão da luz gratuita; e, às vezes, também as imagens na imaginação humana são divinamente formadas, de modo a exprimir as coisas divinas melhor do que aquelas que recebemos dos objetos sensíveis, como aparece nas visões proféticas; e, às vezes, coisas sensíveis, ou mesmo vozes, são divinamente formadas para exprimir algum sentido divino; como no Batismo, o Espírito Santo foi visto em forma de pomba, e ouviu-se a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado” (Mt 3,17). **Resposta à Objeção 1:** Embora pela revelação da graça nesta vida não possamos conhecer de Deus “o que Ele é”, e assim estejamos unidos a Ele como a alguém desconhecido, todavia conhecê-Lo mais plenamente, na medida em que nos são demonstrados muitos e mais excelentes dos Seus efeitos, e na medida em que Lhe atribuímos algumas coisas conhecidas pela revelação divina, às quais a razão natural não pode chegar, como, por exemplo, que Deus é Trino e Uno. **Resposta à Objeção 2:** Das imagens quer recebidas dos sentidos na ordem natural, quer divinamente formadas na imaginação, temos tanto mais excelente conhecimento intelectual quanto mais forte for a luz inteligível no homem; e assim, pela revelação dada por meio das imagens, recebe-se um conhecimento mais pleno pela infusão da luz divina. **Resposta à Objeção 3:** A fé é uma espécie de conhecimento, na medida em que o intelecto é determinado pela fé para algum objeto cognoscível. Mas esta determinação para um objeto não procede da visão do crente, mas da visão d’Aquele que é crido. Assim, na medida em que a fé fica aquém da visão, fica aquém do conhecimento que pertence à ciência, pois a ciência determina o intelecto para um objeto pela visão e entendimento dos primeiros princípios.
Summa Theologiae — First Part · Article. 13 - Whether by grace a higher knowledge of God can be obtained than by natural reason? · séc. XIII
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