Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Deus não compreende a Si mesmo. Pois diz o Filósofo (Do Livro das Causas): "Todo cognoscente que conhece a sua própria essência retorna completamente à sua própria essência." Ora, Deus não sai da Sua própria essência, nem é movido de modo algum; logo, não pode retornar à Sua própria essência. Portanto, não conhece a Sua própria essência. **Objeção 2:** Além disso, entender é uma espécie de paixão e movimento, como diz o Filósofo (Da Alma, III); e o conhecimento também é uma espécie de assimilação ao objeto conhecido; e a coisa conhecida é a perfeição do conhecedor. Ora, nada é movido, nem sofre, nem é aperfeiçoado por si mesmo, "nem", como diz Hilário (Da Trindade, III), "uma coisa é a sua própria semelhança." Logo, Deus não compreende a Si mesmo. **Objeção 3:** Além disso, somos semelhantes a Deus principalmente no nosso intelecto, porque somos a imagem de Deus na nossa mente, como diz Agostinho (Gênese à letra, VI). Ora, o nosso intelecto compreende a si mesmo apenas na medida em que compreende outras coisas, como se diz em Da Alma, III. Portanto, Deus compreende a Si mesmo apenas talvez na medida em que compreende outras coisas. **Em contrário:** Está escrito: "As coisas que são de Deus, ninguém as conhece senão o Espírito de Deus" (1 Cor 2,11). **Respondo:** Deus compreende a Si mesmo por Si mesmo. Para cuja prova deve-se saber que, embora nas operações que passam a um efeito externo, o objeto da operação, que é tomado como termo, exista fora do operador; todavia, nas operações que permanecem no operador, o objeto significado como termo da operação reside no operador; e conforme está no operador, a operação está em ato. Por isso diz o Filósofo (Da Alma, III) que "o sensível em ato é o sentido em ato, e o inteligível em ato é o intelecto em ato." Pois a razão pela qual sentimos ou conhecemos algo em ato é porque o nosso intelecto ou sentido é informado em ato pela espécie sensível ou inteligível. E por isso somente, segue-se que o sentido ou intelecto é distinto do objeto sensível ou inteligível, pois ambos estão em potência. Portanto, como Deus nada tem em Si de potência, mas é ato puro, o Seu intelecto e o seu objeto são absolutamente o mesmo; de modo que Ele não está sem a espécie inteligível, como sucede ao nosso intelecto quando entende em potência; nem a espécie inteligível difere da substância do intelecto divino, como difere no nosso intelecto quando entende em ato; mas a própria espécie inteligível é o próprio intelecto divino, e assim Deus compreende a Si mesmo por Si mesmo. **Resposta à Objeção 1:** Retornar à sua própria essência significa apenas que uma coisa subsiste em si mesma. Porquanto a forma aperfeiçoa a matéria dando-lhe existência, de certo modo ela se difunde nela; e retorna a si mesma na medida em que tem existência em si mesma. Portanto, aquelas faculdades cognoscitivas que não são subsistentes, mas são atos de órgãos, não se conhecem a si mesmas, como no caso de cada um dos sentidos; ao passo que as faculdades cognoscitivas que são subsistentes conhecem-se a si mesmas; por isso se diz no Livro das Causas que "quem conhece a sua essência retorna a ela." Ora, pertence sumamente a Deus ser auto-subsistente. Logo, segundo este modo de falar, Ele retorna sumamente à Sua própria essência e conhece a Si mesmo. **Resposta à Objeção 2:** Movimento e paixão são tomados equivocamente, conforme o entender é descrito como uma espécie de movimento ou paixão, como se afirma em Da Alma, III. Pois entender não é um movimento que seja ato de algo imperfeito que passa de um a outro, mas é um ato, existente no próprio agente, de algo perfeito. Da mesma forma, que o intelecto seja aperfeiçoado pelo objeto inteligível, isto é, seja assimilado a ele, isso pertence a um intelecto que está às vezes em potência; porque o fato de estar em estado de potência faz com que difira do objeto inteligível e o assimila a ele por meio da espécie inteligível, que é a semelhança da coisa entendida, e faz com que seja por ela aperfeiçoado, assim como a potência é aperfeiçoada pelo ato. Por outro lado, o intelecto divino, que de nenhum modo está em potência, não é aperfeiçoado pelo objeto inteligível, nem é assimilado a ele, mas é a sua própria perfeição e o seu próprio objeto inteligível. **Resposta à Objeção 3:** A existência na natureza não pertence à matéria prima, que é uma potência, a menos que seja reduzida ao ato por uma forma. Ora, o nosso intelecto passivo tem a mesma relação para com os objetos inteligíveis que a matéria prima para com as coisas naturais; pois está em potência em relação aos objetos inteligíveis, assim como a matéria prima está em relação às coisas naturais. Logo, o nosso intelecto passivo só pode exercer-se acerca dos objetos inteligíveis na medida em que é aperfeiçoado pela espécie inteligível de algo; e dessa maneira compreende a si mesmo por uma espécie inteligível, assim como compreende outras coisas: pois é manifesto que, conhecendo o objeto inteligível, compreende também o seu próprio ato de entender, e por este ato conhece a faculdade intelectual. Mas Deus é ato puro na ordem da existência, como também na ordem dos objetos inteligíveis; portanto, compreende a Si mesmo por Si mesmo.
Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether God understands Himself? · séc. XIII
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