Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a estultícia não é contrária à sabedoria. Pois a insipiência, ao que parece, opõe-se diretamente à sabedoria. Mas a estultícia não parece ser o mesmo que a insipiência, porque esta última, segundo parece, diz respeito somente às coisas divinas, ao passo que a estultícia se refere tanto às coisas divinas como às humanas. Logo, a estultícia não é contrária à sabedoria. **Objeção 2:** Ademais, um contrário não é o caminho para se chegar ao outro. Ora, a estultícia é o caminho para se chegar à sabedoria, pois está escrito (1 Cor 3,18): “Se alguém entre vós parece ser sábio neste mundo, faça-se **néscio** para ser sábio.” Logo, a estultícia não se opõe à sabedoria. **Objeção 3:** Ademais, um contrário não é causa do outro. Ora, a sabedoria é causa da estultícia, pois está escrito (Jer 10,14): “Todo homem se tornou **néscio** por falta de ciência”; e a sabedoria é uma espécie de ciência. E ainda está escrito (Is 47,10): “A tua sabedoria e a tua ciência te enganaram.” Ora, é próprio da estultícia ser enganado. Logo, a estultícia não é contrária à sabedoria. **Objeção 4:** Ademais, Isidoro diz (Etimologias, X, letra S) que “estulto é aquele a quem a vergonha não incita à dor, e que não se preocupa quando é injuriado.” Ora, isto pertence à sabedoria espiritual, segundo Gregório (Moralia, X, 49). Logo, a estultícia não se opõe à sabedoria. **Em contrário,** Gregório diz (Moralia, II, 26) que “o dom da sabedoria é dado como remédio contra a estultícia.” **Respondo que:** A estultícia parece tomar o seu nome de “estupor”; por isso Isidoro diz (Etimologias, X, letra S): “Estulto é aquele que, por estupor, permanece imóvel.” E a estultícia difere da fatuidade, segundo a mesma autoridade (Etimologias, X), porque a estultícia implica apatia no coração e torpor nos sentidos, enquanto a fatuidade denota privação total do sentido espiritual. Por isso, a estultícia é adequadamente oposta à sabedoria. Pois “sábio”, como diz Isidoro (Etimologias, X), “assim se chama por causa do sabor, porque assim como o paladar é rápido em discernir os sabores dos alimentos, assim o sábio o é em discernir as coisas e as causas.” Por onde é manifesto que a “estultícia” se opõe à “sabedoria” como seu contrário, enquanto a “fatuidade” se lhe opõe como pura negação: pois o homem fátuo carece do sentido do juízo, enquanto o estulto o possui, embora embotado; mas o sábio o possui agudo e penetrante. **Resposta à objeção 1:** Segundo Isidoro (Etimologias, X), “a insipiência é contrária à sabedoria porque lhe falta o sabor do discernimento e do sentido”; de modo que a insipiência é aparentemente o mesmo que a estultícia. Contudo, um homem parece ser estulto principalmente por alguma deficiência no veredito daquele juízo que é segundo a causa mais alta, pois se um homem falha no juízo acerca de alguma matéria trivial, não é por isso chamado de estulto. **Resposta à objeção 2:** Assim como há uma sabedoria má, como foi dito acima (Q. 45, a. 1, ad 1), chamada “sabedoria mundana”, porque toma por causa mais alta e fim último algum bem mundano, assim também há uma estultícia boa, oposta a essa sabedoria má, pela qual o homem despreza as coisas mundanas; e é dessa estultícia que o Apóstolo fala. **Resposta à objeção 3:** É a sabedoria do mundo que engana e nos faz **néscios** aos olhos de Deus, como é evidente pelas palavras do Apóstolo (1 Cor 3,19): “Porque a sabedoria deste mundo é **loucura** diante de Deus.” **Resposta à objeção 4:** Não se preocupar quando se é injuriado procede às vezes do fato de não se ter gosto pelas coisas mundanas, mas somente pelas celestiais. Portanto, isso pertence não à sabedoria mundana, mas à divina, como declara Gregório (Moralia, X, 49). Às vezes, porém, resulta de ser o homem simplesmente estúpido acerca de todas as coisas, como se vê nos idiotas, que não discernem o que lhes é nocivo; e isso pertence à estultícia simples.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether folly is contrary to wisdom? · séc. XIII
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