Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a ação humana de Cristo não pôde ser-lhe meritória. Porque, antes de sua morte, Cristo era compreensor, assim como agora o é. Ora, os compreensores não merecem, pois a caridade do compreensor pertence ao prêmio da beatitude, já que a fruição dela depende. Logo, não parece ser princípio de mérito, visto que mérito e prêmio não são a mesma coisa. Portanto, Cristo, antes de sua paixão, não mereceu, assim como agora não merece. **Objeção 2:** Ademais, ninguém merece aquilo que lhe é devido. Mas, porque Cristo é Filho de Deus por natureza, a herança eterna lhe é devida, a qual os outros homens merecem por suas obras. E, por conseguinte, Cristo, que desde o princípio era o Verbo de Deus, nada pôde merecer para si mesmo. **Objeção 3:** Ademais, aquele que possui o princípio não merece propriamente aquilo que flui de sua posse. Ora, Cristo possuía a glória da alma, da qual, no curso natural, fluía a glória do corpo, como diz Agostinho (Epístola a Dioscóro, cxviii); embora, por uma dispensação, se tenha feito que em Cristo a glória da alma não trasbordasse para o corpo. Logo, Cristo não mereceu a glória do corpo. **Objeção 4:** Ademais, a manifestação da excelência de Cristo é um bem, não para o próprio Cristo, mas para os que o conhecem. Por isso, promete-se como prêmio aos que amam a Cristo que ele se manifestará a eles, segundo Jo 14,21: "Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele." Portanto, Cristo não mereceu a manifestação de sua grandeza. **Em contrário, diz o Apóstolo (Fl 2,8-9):** "Tornando-se obediente até a morte... pelo que também Deus o exaltou." Logo, por obedecer, mereceu sua exaltação e, assim, mereceu algo para si mesmo. **Respondo:** Ter de si mesmo um bem qualquer é mais excelente do que tê-lo de outrem, pois "o que é causa por si é sempre mais excelente do que o que é causa por outro", como se diz na _Física_ VIII, 5. Ora, uma coisa se diz ter de si mesma aquilo de que é, de algum modo, causa. Mas, de todo bem que possuímos, a primeira causa por autoridade é Deus; e, deste modo, nenhuma criatura tem de si mesma algum bem, segundo 1 Cor 4,7: "Que tens tu que não tenhas recebido?" Contudo, de modo secundário, alguém pode ser causa, para si mesmo, de ter certos bens, na medida em que coopera com Deus nessa matéria; e, assim, aquele que tem alguma coisa por seu próprio mérito a tem, de certo modo, de si mesmo. Por conseguinte, é melhor ter uma coisa por mérito do que sem mérito. Ora, visto que toda perfeição e grandeza se devem atribuir a Cristo, é necessário que ele tenha por mérito aquilo que outros têm por mérito, a menos que seja de tal natureza que sua falta diminuiria a dignidade e perfeição de Cristo mais do que lhe acrescentaria o mérito. Por isso, ele não mereceu nem a graça, nem a ciência, nem a beatitude de sua alma, nem a Divindade, porque, como o mérito só diz respeito ao que ainda não se possui, seria necessário que Cristo, em algum tempo, estivesse sem estas coisas; e estar sem elas teria diminuído a dignidade de Cristo mais do que seu mérito a teria aumentado. Mas a glória do corpo e coisas semelhantes são inferiores à dignidade de merecer, que pertence à virtude da caridade. Portanto, devemos dizer que Cristo teve, por mérito, a glória do corpo e tudo o que pertencia à sua excelência exterior, como a Ascensão, a veneração e o resto. E assim fica claro que ele pôde merecer para si mesmo. **Resposta à Objeção 1:** A fruição, que é ato de caridade, pertence à glória da alma, que Cristo não mereceu. Logo, se ele mereceu pela caridade, não se segue que o mérito e o prêmio sejam a mesma coisa. Nem mereceu pela caridade enquanto era caridade de compreensor, mas enquanto era de viandante. Pois ele era, ao mesmo tempo, viandante e compreensor, como foi dito acima (Q. 15, A. 10). E, portanto, porque já não é viandante, não está em estado de merecer. **Resposta à Objeção 2:** Porque, por natureza, Cristo é Deus e Filho de Deus, a glória divina e o domínio de todas as coisas lhe são devidos como ao primeiro e supremo Senhor. Todavia, uma glória lhe é devida como homem beatificado; e esta ele possui, em parte, sem mérito, e, em parte, com mérito, como é claro pelo que foi dito. **Resposta à Objeção 3:** É por ordenação divina que há um trasbordamento da glória da alma para o corpo, em conformidade com o mérito humano; de modo que, assim como o homem merece pelo ato da alma que realiza no corpo, assim seja recompensado pela glória da alma que trasborda para o corpo. E, por conseguinte, não só a glória da alma, mas também a glória do corpo cai sob o mérito, segundo Rm 8,11: "Ele vivificará também os nossos [Vulg.: 'vossos'] corpos mortais, por causa do seu Espírito que habita em nós [Vulg.: 'vós']." E assim pôde cair sob o mérito de Cristo. **Resposta à Objeção 4:** A manifestação da excelência de Cristo é um bem para ele quanto ao ser que tem no conhecimento de outros; embora, quanto ao ser que têm em si mesmos, pertença principalmente ao bem dos que o conhecem. Contudo, isto mesmo se refere a Cristo, enquanto eles são seus membros.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the human action of Christ could be meritorious to Him? · séc. XIII
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