Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1**: Parece que duas Pessoas divinas não podem assumir uma mesma e individual natureza. Pois, concedido isto, ou haveria vários homens ou um só. Mas não vários, porque assim como uma só Natureza divina em várias Pessoas não faz vários deuses, assim uma só natureza humana em várias pessoas não faz vários homens. Nem haveria um só homem, porque um homem é "este homem", o que significa uma só pessoa; e portanto a distinção das três Pessoas divinas seria destruída, o que não se pode admitir. Logo, nem duas nem três Pessoas podem assumir uma só natureza humana. **Objeção 2**: Além disso, a assunção termina na unidade da Pessoa, como foi dito acima (A. 2). Mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são uma só Pessoa. Logo, as três Pessoas não podem assumir uma só natureza humana. **Objeção 3**: Além disso, Damasceno diz (De Fide Orth. III, 3-4) e Agostinho (De Trin. I, 11-13) que, da Encarnação do Filho de Deus, segue-se que tudo o que se diz do Filho de Deus se diz do Filho do Homem, e reciprocamente. Por isso, se três Pessoas assumissem uma só natureza humana, seguir-se-ia que tudo o que se diz de cada uma das três Pessoas se diria do homem; e reciprocamente, o que se dissesse do homem poderia ser dito de cada uma das três Pessoas. Portanto, o que é próprio do Pai, isto é, gerar o Filho, seria dito do homem e, consequentemente, seria dito do Filho de Deus; e isso não poderia ser. Logo, é impossível que as três Pessoas assumam uma só natureza humana. **Em contrário**, A Pessoa Encarnada subsiste em duas naturezas. Mas as três Pessoas podem subsistir em uma só Natureza divina. Logo, também podem subsistir em uma só natureza humana de tal modo que a natureza humana seja assumida pelas três Pessoas. **Respondo que**, como foi dito acima (Q. 2, A. 5, ad 1), pela união da alma e do corpo em Cristo não se faz uma nova pessoa nem uma nova hipóstase, mas uma só natureza humana é assumida pela Pessoa ou hipóstase divina, o que, de fato, não acontece pelo poder da natureza humana, mas pelo poder da Pessoa divina. Ora, é tal a característica das Pessoas divinas que uma não exclui a outra de comunicar na mesma natureza, mas somente na mesma Pessoa. Por isso, como no mistério da Encarnação "toda a razão do feito é o poder do fazedor", como diz Agostinho (Ep. ad Volusianum CXXXVII), devemos julgar dele segundo a qualidade da Pessoa divina que assume, e não segundo a qualidade da natureza humana assumida. Portanto, não é impossível que duas ou três Pessoas divinas assumam uma só natureza humana, mas seria impossível que assumissem uma só hipóstase ou pessoa humana; assim como Anselmo diz no livro *De Concep. Virg.* (*Cur Deus Homo* II, 9), que "várias Pessoas não podem assumir um mesmo e um só homem para unidade de Pessoa." **Resposta à Objeção 1**: Na hipótese de que três Pessoas assumam uma só natureza humana, seria verdadeiro dizer que as três Pessoas são um só homem, por causa da única natureza humana. Pois, assim como agora é verdadeiro dizer que as três Pessoas são um só Deus por causa da única Natureza divina, assim seria verdadeiro dizer que são um só homem por causa da única natureza humana. Nem "um" implicaria unidade de pessoa, mas unidade na natureza humana; pois não se poderia argumentar que, porque as três Pessoas eram um só homem, eram uma coisa simples. Pois nada impede que digamos que os homens, que são muitos simplesmente, são de algum modo um, por exemplo, um povo; e como diz Agostinho (De Trin. VI, 3): "O Espírito de Deus e o espírito do homem são por natureza diferentes, mas por inerência resulta um só espírito," segundo 1 Cor 6,17: "O que se une ao Senhor é um só espírito." **Resposta à Objeção 2**: Nessa suposição, a natureza humana seria assumida para a unidade, não de uma só Pessoa, mas para a unidade de cada Pessoa, de modo que, assim como a Natureza divina tem uma unidade natural com cada Pessoa, assim também a natureza humana teria uma unidade com cada Pessoa por assunção. **Resposta à Objeção 3**: No mistério da Encarnação, resulta uma comunicação das propriedades pertencentes à natureza, porque tudo o que pertence à natureza pode ser predicado da Pessoa que subsiste nessa natureza, não importa a qual das naturezas se aplique. Por isso, nesta hipótese, da Pessoa do Pai pode ser predicado o que pertence à natureza humana e o que pertence à divina; e igualmente da Pessoa do Filho e do Espírito Santo. Mas o que pertence à Pessoa do Pai por razão de sua própria Pessoa não poderia ser atribuído à Pessoa do Filho ou do Espírito Santo por causa da distinção das Pessoas, que ainda permaneceria. Portanto, poderia dizer-se que, assim como o Pai é ingênito, assim o homem era ingênito, na medida em que "homem" significava a Pessoa do Pai. Mas se se continuasse a dizer: "O homem é ingênito; o Filho é homem; logo, o Filho é ingênito," isso seria a falácia de figura de linguagem ou de acidente; assim como agora dizemos que Deus é ingênito, porque o Pai é ingênito, todavia não podemos concluir que o Filho seja ingênito, embora seja Deus.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether several Divine Persons can assume one and the same individual nature? · séc. XIII
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