Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não pode haver processão alguma em Deus. Pois processão significa movimento para fora. Ora, em Deus não há nada móvel, nem nada extrínseco. Logo, também não há processão em Deus. Objeção 2: Ademais, tudo o que procede difere daquilo de onde procede. Ora, em Deus não há diversidade, mas suma simplicidade. Logo, em Deus não há processão. Objeção 3: Ademais, proceder de outro parece ser contra a natureza do primeiro princípio. Ora, Deus é o primeiro princípio, como foi mostrado acima (Q. 2, a. 3). Logo, em Deus não há processão. Em contrário, diz o Senhor: "Eu procedi de Deus" (Jo. 8:42). Respondo que a Escritura divina usa, com relação a Deus, nomes que significam processão. Esta processão tem sido entendida diversamente. Alguns a entenderam no sentido de um efeito, que procede da sua causa; assim a tomou Ário, dizendo que o Filho procede do Pai como sua primária criatura, e que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como criatura de ambos. Neste sentido, nem o Filho nem o Espírito Santo seriam verdadeiro Deus; e isto é contrário ao que se diz do Filho: "Para que estejamos no seu verdadeiro Filho. Este é o verdadeiro Deus" (1 Jo. 5:20). Do Espírito Santo também se diz: "Não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo?" (1 Cor. 6:19). Ora, ter templo é prerrogativa de Deus. Outros tomam esta processão como significando a causa que procede para o efeito, movendo-o ou imprimindo nele a sua própria semelhança; neste sentido foi entendida por Sabélio, que disse que Deus Pai é chamado Filho por assumir carne da Virgem, e que o Pai também é chamado Espírito Santo por santificar a criatura racional e movê-la para a vida. As palavras do Senhor contradizem tal sentido, quando Ele fala de si mesmo: "O Filho não pode fazer nada de si mesmo" (Jo. 5:19); enquanto muitos outros passos mostram o mesmo, pelos quais sabemos que o Pai não é o Filho. Um exame cuidadoso mostra que ambas estas opiniões tomam a processão como significando um ato externo; por isso nenhuma delas afirma a processão como existindo no próprio Deus; ao passo que, como a processão sempre supõe ação, e como há uma processão para fora correspondente ao ato que tende à matéria externa, assim deve haver uma processão interna correspondente ao ato que permanece no agente. Isto se aplica mais conspicuamente ao intelecto, cuja ação permanece no agente inteligente. Pois sempre que entendemos, pelo próprio fato de entender, algo procede dentro de nós, que é uma concepção do objeto entendido, uma concepção que provém da nossa potência intelectual e procede do nosso conhecimento daquele objeto. Esta concepção é significada pela palavra falada; e é chamada o verbo do coração, significado pelo verbo da voz. Como Deus está acima de todas as coisas, devemos entender o que se diz de Deus, não segundo o modo das criaturas ínfimas, a saber, os corpos, mas pela semelhança das criaturas mais elevadas, as substâncias intelectuais; enquanto mesmo as semelhanças derivadas destas ficam aquém na representação das coisas divinas. Portanto, a processão não deve ser entendida a partir do que ela é nos corpos, seja segundo o movimento local, seja à maneira de uma causa que procede para o seu efeito exterior, como, por exemplo, o calor do agente para a coisa aquecida. Antes, deve ser entendida à maneira de uma emanação inteligível, por exemplo, do verbo inteligível que procede do locutor, mas permanece nele. Neste sentido, a Fé Católica entende a processão como existente em Deus. Resposta à objeção 1: Esta objeção procede da ideia de processão no sentido de movimento local, ou de uma ação que tende à matéria externa, ou a um efeito exterior; este tipo de processão não existe em Deus, como explicamos. Resposta à objeção 2: Tudo o que procede por via de processão externa é necessariamente distinto da fonte de onde procede; ao passo que o que procede internamente por uma processão inteligível não é necessariamente distinto; na verdade, quanto mais perfeitamente procede, tanto mais intimamente é um com a fonte de onde procede. Pois é claro que quanto mais uma coisa é entendida, tanto mais intimamente a concepção intelectual é unida e ligada ao agente inteligente; visto que o intelecto, pelo próprio ato de entender, se faz uno com o objeto entendido. Assim, como a inteligência divina é a própria suma perfeição de Deus (Q. 14, a. 2), o Verbo divino é necessariamente perfeitamente uno com a fonte de onde procede, sem qualquer diversidade. Resposta à objeção 3: Proceder de um princípio, de modo a ser algo exterior e distinto desse princípio, é incompatível com a ideia de um primeiro princípio; ao passo que uma processão íntima e uniforme à maneira de um ato inteligível está incluída na ideia de um primeiro princípio. Pois quando chamamos o construtor princípio da casa, na ideia de tal princípio está incluída a sua arte; e estaria incluída na ideia do primeiro princípio se o construtor fosse o primeiro princípio da casa. Deus, que é o primeiro princípio de todas as coisas, pode ser comparado às coisas criadas como o arquiteto às coisas projetadas.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether there is procession in God? · séc. XIII
tradução automática