Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o conselho não é uma investigação. Pois Damasceno diz (De Fide Orth. ii, 22) que o conselho é "um ato do apetite". Ora, a investigação não é um ato do apetite. Logo, o conselho não é uma investigação. Objeção 2: Ademais, a investigação é um ato discursivo do intelecto; por isso não se encontra em Deus, cujo conhecimento não é discursivo, como mostramos na FP, Q[14], A[7]. Ora, o conselho é atribuído a Deus, pois está escrito (Ef 1,11) que "Ele opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade". Logo, o conselho não é investigação. Objeção 3: Além disso, a investigação é de coisas duvidosas. Ora, o conselho é dado em matérias que são certamente boas; assim o Apóstolo diz (1Cor 7,25): "Quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou conselho". Logo, o conselho não é uma investigação. Em sentido contrário, Gregório de Nissa [*Nemésio, De Nat. Hom. xxxiv.] diz: "Todo conselho é uma investigação, mas nem toda investigação é um conselho." Respondo: A escolha, como se disse acima (Q[13], A[1], ad 2; A[3]), segue o juízo da razão acerca do que deve ser feito. Ora, há muita incerteza nas coisas que devem ser feitas; porque as ações dizem respeito a singulares contingentes, que, por causa de sua vicissitude, são incertos. Ora, nas coisas duvidosas e incertas, a razão não pronuncia juízo sem investigação prévia; por isso a razão deve necessariamente instituir uma investigação antes de decidir sobre os objetos da escolha; e esta investigação chama-se conselho. Por isso o Filósofo diz (Ética iii, 2) que a escolha é o "desejo do que já foi aconselhado". Resposta à Objeção 1: Quando os atos de duas potências são ordenados um ao outro, em cada um deles há algo pertencente à outra potência; consequentemente, cada ato pode ser denominado a partir de qualquer das potências. Ora, é evidente que o ato da razão que dá direção quanto aos meios, e o ato da vontade tendendo a esses meios segundo a direção da razão, são ordenados um ao outro. Consequentemente, encontra-se algo da razão, viz. a ordem, naquele ato da vontade que é a escolha; e no conselho, que é um ato da razão, encontra-se algo da vontade — tanto como matéria (pois o conselho é acerca do que o homem quer fazer) — como como motivo (porque é do querer o fim que o homem é movido a aconselhar-se quanto aos meios). E portanto, assim como o Filósofo diz (Ética vi, 2) que a escolha "é o intelecto influenciado pelo apetite", apontando assim que ambos concorrem no ato de escolher, assim Damasceno diz (De Fide Orth. ii, 22) que o conselho é "apetite baseado em investigação", de modo a mostrar que o conselho pertence, de certa forma, tanto à vontade, em nome da qual e por cuja impulsão a investigação é feita, quanto à razão que executa a investigação. Resposta à Objeção 2: As coisas que dizemos de Deus devem ser entendidas sem nenhum dos defeitos que se encontram em nós: assim, em nós, a ciência é de conclusões derivadas por raciocínio de causas a efeitos; mas a ciência, quando dita de Deus, significa conhecimento seguro de todos os efeitos na Causa Primeira, sem qualquer processo de raciocínio. Do mesmo modo, atribuímos conselho a Deus, quanto à certeza do seu conhecimento ou juízo, certeza que em nós surge da investigação do conselho. Mas tal investigação não tem lugar em Deus; por isso, a este respeito, não é atribuída a Deus; no sentido em que Damasceno diz (De Fide Orth. ii, 22): "Deus não toma conselho; só tomam conselho aqueles que carecem de conhecimento." Resposta à Objeção 3: Pode acontecer que coisas que são certissimamente boas na opinião de homens sábios e espirituais não sejam certamente boas na opinião de muitos, ou pelo menos de homens carnais. Consequentemente, em tais coisas, pode ser dado conselho.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether counsel is an inquiry? · séc. XIII
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