Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a compreensão não é necessária para a felicidade. Pois Agostinho diz (Ad Paulinam de Videndo Deum; [*Cfr. Serm. xxxciii De Verb. Dom.]): "Atingir a Deus com a mente é a felicidade, compreendê-Lo é impossível." Logo, a felicidade é sem compreensão. **Objeção 2:** Além disso, a felicidade é a perfeição do homem quanto à sua parte intelectiva, na qual não há outras potências além do intelecto e da vontade, como se afirma na Primeira Parte, QQ[79] e seguintes. Ora, o intelecto é suficientemente aperfeiçoado por ver a Deus, e a vontade por gozá-Lo. Logo, não é necessária a compreensão como um terceiro. **Objeção 3:** Além disso, a felicidade consiste numa operação. Ora, as operações são determinadas pelos seus objetos; e há dois objetos universais, o verdadeiro e o bem: dos quais o verdadeiro corresponde à visão, e o bem ao deleite. Logo, não é necessária a compreensão como um terceiro. **Pelo contrário,** o Apóstolo diz (1 Cor 9,24): "Correi de tal maneira que o alcanceis." Ora, a felicidade é o termo da carreira espiritual; donde ele diz (2 Tim 4,7-8): "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé; pelo demais, está-me preparada a coroa da justiça." Logo, a compreensão é necessária para a felicidade. **Respondo** que, como a felicidade consiste em alcançar o último fim, aquelas coisas que se requerem para a felicidade devem ser coligidas do modo como o homem se ordena ao fim. Ora, o homem se ordena a um fim inteligível parte pelo intelecto, parte pela vontade: pelo intelecto, na medida em que um certo conhecimento imperfeito do fim preexiste no intelecto; pela vontade, primeiro pelo amor, que é o primeiro movimento da vontade para algo; segundo, por uma relação real do amante para com a coisa amada, a qual relação pode ser tríplice. Pois, às vezes, a coisa amada está presente ao amante; e então já não é buscada. Às vezes, não está presente, e é impossível alcançá-la; e então, também, não é buscada. Mas, às vezes, é possível alcançá-la, embora esteja acima da capacidade do que a busca, de modo que ele não pode obtê-la de imediato; e esta é a relação do que espera para com o que espera, e somente esta relação causa a busca do fim. A estas três correspondem três coisas na própria felicidade. Pois ao conhecimento imperfeito corresponde o conhecimento perfeito do fim; à relação de esperança corresponde a presença do fim; mas o deleite no fim agora presente resulta do amor, como já foi dito (A[2], ad 3). E, portanto, estas três devem concorrer para a felicidade: a saber, a visão, que é o conhecimento perfeito do fim inteligível; a compreensão, que implica a presença do fim; e o deleite ou gozo, que implica o repouso do amante no objeto amado. **Resposta à primeira objeção:** A compreensão é dupla. Primeiro, inclusão do compreendido no compreensor; e assim, tudo o que é compreendido pelo finito é ele próprio finito. Por onde, Deus não pode ser assim compreendido por um intelecto criado. Segundo, compreensão não significa senão a posse de algo já presente e possuído: assim, quem corre atrás de outro diz-se compreendê-lo quando o alcança. E neste sentido, a compreensão é necessária para a felicidade. **Resposta à segunda objeção:** Assim como a esperança e o amor pertencem à vontade, porque é o mesmo que ama uma coisa e que tende para ela enquanto não possuída, assim também a compreensão e o deleite pertencem à vontade, pois é o mesmo que possui uma coisa e nela repousa. **Resposta à terceira objeção:** A compreensão não é uma operação distinta da visão; mas uma certa relação com o fim já alcançado. Por onde, a própria visão, ou a coisa vista, enquanto presente, é o objeto da compreensão.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether comprehension is necessary for happiness? · séc. XIII
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