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1Jo 2, 16

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Matos Soares

16porque tudo o que há no mundo — concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da riqueza — isto não vem do Pai, mas do mundo.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Excertos de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, sobre o Artigo 3 - Se os pecados diferem especificamente em referência às suas causas. Objeção 1: Parece que os pecados diferem especificamente em referência às suas causas. Pois uma coisa recebe a sua espécie daquilo de onde deriva o seu ser. Ora, os pecados derivam o seu ser das suas causas. Logo, recebem também delas a sua espécie. Portanto, diferem especificamente em referência às suas causas. Objeção 2: Ademais, de todas as causas, a causa material parece ter a menor referência à espécie. Ora, o objeto no pecado é como a sua causa material. Visto que, portanto, os pecados diferem especificamente segundo os seus objetos, parece que muito mais diferem em referência às suas outras causas. Objeção 3: Ademais, Agostinho, comentando o Sl 79,17: "Coisas incendiadas e desarraigadas", diz que "todo pecado procede ou do medo que induz à falsa humildade, ou do amor que nos acende em ardor indevido." Pois está escrito (1 Jo 2,16) que "tudo o que há no mundo é a concupiscência da carne, ou [Vulg.: 'e'] a concupiscência dos olhos, ou [Vulg.: 'e'] a soberba da vida." Ora, uma coisa é dita estar no mundo por causa do pecado, na medida em que o mundo denota os amantes do mundo, como observa Agostinho (Tract. ii in Joan.). Gregório também (Moral. xxxi, 17) distingue todos os pecados segundo os sete vícios capitais. Ora, todas estas divisões se referem às causas dos pecados. Portanto, ao que parece, os pecados diferem especificamente segundo a diversidade das suas causas. Ao contrário, Se assim fosse, todos os pecados pertenceriam a uma só espécie, visto que procedem de uma única causa. Pois está escrito (Eclo 10,15) que "a soberba é o princípio de todo pecado", e (1 Tm 6,10) que "a cobiça do dinheiro é a raiz de todos os males." Ora, é evidente que há várias espécies de pecados. Logo, os pecados não diferem especificamente segundo as suas diferentes causas. Respondo que, Sendo quatro os gêneros de causas, elas são atribuídas a diversas coisas de maneiras diversas. Porque a causa "formal" e a "material" dizem respeito propriamente à substância de uma coisa; e consequentemente as substâncias diferem quanto à sua matéria e forma, tanto em espécie como em gênero. A causa "agente" e o "fim" dizem respeito diretamente ao movimento e à operação: por isso movimentos e operações diferem especificamente em relação a estas causas; de maneiras diferentes, contudo, porque os princípios ativos naturais são sempre determinados aos mesmos atos; de modo que as diferentes espécies de atos naturais são tomadas não só dos objetos, que são os fins ou termos desses atos, mas também dos seus princípios ativos: assim, aquecer e resfriar são especificamente distintos com referência ao quente e ao frio. Por outro lado, os princípios ativos nos atos voluntários, como os atos dos pecados, não são determinados, por necessidade, a um único ato, e consequentemente de um único princípio ativo ou motor podem proceder diversas espécies de pecados: assim, do medo que gera falsa humildade o homem pode proceder ao furto, ou ao homicídio, ou a negligenciar o rebanho a ele confiado; e estas mesmas coisas podem proceder do amor que acende em ardor indevido. Portanto, é evidente que os pecados não diferem especificamente segundo os seus vários princípios ativos ou motores, mas apenas em relação à diversidade da causa final, que é o fim e objeto da vontade. Pois foi mostrado acima (Q[1], A[3]; Q[18], AA[4],6) que os atos humanos recebem a sua espécie do fim. Resposta à Objeção 1: Os princípios ativos nos atos voluntários, não sendo determinados a um único ato, não bastam para a produção dos atos humanos, a menos que a vontade seja determinada a um pela intenção do fim, como prova o Filósofo (Metaph. ix, text. 15,16), e consequentemente o pecado deriva tanto o seu ser como a sua espécie do fim. Resposta à Objeção 2: Os objetos, em relação aos atos externos, têm a natureza de matéria "cerca da qual"; mas, em relação ao ato interior da vontade, têm a natureza de fim; e é devido a isto que dão ao ato a sua espécie. No entanto, mesmo considerados como matéria "cerca da qual", têm a natureza de termo, do qual o movimento recebe a sua espécie (Phys. v, text. 4; Ethic. x, 4); contudo, mesmo os termos do movimento especificam os movimentos, na medida em que o termo tem a natureza de fim. Resposta à Objeção 3: Estas distinções dos pecados são dadas, não como espécies distintas de pecados, mas para mostrar as suas várias causas.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether sins differ specifically in reference to their causes? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que "concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida" são inadequadamente descritas como causas do pecado. Porque, segundo o Apóstolo (1 Tm 6,10), "a avareza [*Douay: 'O desejo do dinheiro'] é a raiz de todos os males." Ora, a soberba da vida não está incluída na avareza. Logo, não deveria ser contada entre as causas do pecado. **Objeção 2:** Além disso, a concupiscência da carne é despertada principalmente pelo que é visto pelos olhos, conforme Dn 13,56: "A beleza te enganou." Portanto, a concupiscência dos olhos não deveria ser cindida da concupiscência da carne. **Objeção 3:** Além disso, a concupiscência é desejo de prazer, como foi dito acima (Q[30], A[2]). Ora, os objetos de prazer são percebidos não só pela vista, mas também pelos outros sentidos. Logo, deveria ter sido mencionada também a "concupiscência da audição" e dos demais sentidos. **Objeção 4:** Além disso, assim como o homem é induzido ao pecado pelo desejo desordenado dos bens, também o é pela fuga desordenada dos males, como foi dito acima (A[4], ad 3). Mas nada se menciona aqui acerca da fuga dos males. Logo, as causas do pecado são descritas insuficientemente. **Ao contrário,** está escrito (1 Jo 2,16): "Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, ou [Vulg.: 'e'] soberba da vida." Ora, uma coisa é dita estar "no mundo" por causa do pecado; por isso está escrito (1 Jo 5,19): "O mundo inteiro está assentado na maldade." Portanto, estes três são causas do pecado. **Respondo:** Como foi dito acima (A[4]), o amor-próprio desordenado é a causa de todo pecado. Ora, o amor-próprio inclui o desejo desordenado do bem; pois o homem deseja o bem para aquele a quem ama. Donde é evidente que o desejo desordenado do bem é a causa de todo pecado. Ora, o bem é, de duas maneiras, objeto do apetite sensitivo, no qual se encontram as paixões que são causa do pecado: primeiro, absolutamente, enquanto é objeto da parte concupiscível; segundo, sob a razão de dificuldade, enquanto é objeto da parte irascível, como foi dito acima (Q[23], A[1]). Além disso, a concupiscência é dupla, como foi dito acima (Q[30], A[3]). Uma é natural, e se dirige àquelas coisas que sustentam a natureza do corpo, seja quanto à conservação do indivíduo, como comida, bebida e semelhantes, seja quanto à conservação da espécie, como as questões sexuais; e o apetite desordenado de tais coisas chama-se "concupiscência da carne." A outra é a concupiscência espiritual, e se dirige àquelas coisas que não proporcionam sustento ou prazer no tocante aos sentidos carnais, mas são deleitáveis no tocante à apreensão ou imaginação, ou algum modo semelhante de percepção; tais são o dinheiro, os vestidos e semelhantes; e esta concupiscência espiritual chama-se "concupiscência dos olhos", quer se tome isto como referindo-se à própria visão, da qual os olhos são o órgão, de modo a denotar a curiosidade, segundo a exposição de Agostinho (Confissões, X); quer se refira à concupiscência das coisas que são propostas exteriormente aos olhos, de modo a denotar a avareza, segundo a explicação de outros. O apetite desordenado do bem árduo pertence à "soberba da vida"; pois a soberba é o apetite desordenado da excelência, como diremos adiante (Q[84], A[2]; SS, Q[162], A[1]). É, portanto, evidente que todas as paixões que são causa do pecado podem ser reduzidas a estas três: pois todas as paixões da parte concupiscível podem ser reduzidas às duas primeiras, e todas as paixões irascíveis à terceira, a qual não se divide em duas, porque todas as paixões irascíveis se conformam à concupiscência espiritual. **Resposta à Objeção 1:** A "soberba da vida" está incluída na avareza, enquanto esta denota qualquer espécie de apetite por qualquer espécie de bem. Como a avareza, enquanto vício especial, que se chama "avareza", é a raiz de todos os pecados, explicar-se-á adiante (Q[84], A[1]). **Resposta à Objeção 2:** "Concupiscência dos olhos" não significa aqui a concupiscência de todas as coisas que podem ser vistas pelos olhos, mas apenas daquelas coisas que proporcionam prazer, não carnal no tocante ao tato, mas no tocante aos olhos, isto é, de qualquer potência apreensiva. **Resposta à Objeção 3:** O sentido da vista é o mais excelente de todos os sentidos e abrange um campo mais vasto, como se diz no livro I da Metafísica; e assim o seu nome é transferido para todos os outros sentidos, e até para as apreensões interiores, como afirma Agostinho (Sermão sobre as Palavras do Senhor, XXXIII). **Resposta à Objeção 4:** A fuga do mal é causada pelo apetite do bem, como foi dito acima (Q[25], A[2]; Q[39], A[2]); e por isso somente se mencionam aquelas paixões que inclinam ao bem, como sendo as causas daquelas que causam desordenadamente a fuga do mal.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether concupiscence of the flesh, concupiscence of the eyes, and pride of life are fittingly described as causes of sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, sobre a Questão 77 - DA CAUSA DO PECADO, QUANTO AO APETITE SENSITIVO (OITO ARTIGOS). Devemos agora considerar a causa do pecado, quanto ao apetite sensitivo, a saber, se uma paixão da alma pode ser causa de pecado: e neste título há oito pontos de investigação: (1) Se uma paixão do apetite sensitivo pode mover ou inclinar a vontade? (2) Se pode vencer a razão contra o conhecimento desta? (3) Se um pecado resultante de uma paixão é pecado de fraqueza? (4) Se a paixão do amor-próprio é a causa de todo pecado? (5) Dos três causas mencionadas em 1 Jo 2,16: «Concupiscência dos olhos, Concupiscência da carne» e «Soberba da vida». (6) Se a paixão que causa um pecado o diminui? (7) Se a paixão desculpa totalmente do pecado? (8) Se um pecado cometido por paixão pode ser mortal?

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Question. 77 - OF THE CAUSE OF SIN, ON THE PART OF THE SENSITIVE APPETITE (EIGHT ARTICLES) · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte da Segunda Parte, sobre o Artigo 3 — Se a Nova Lei dirigiu suficientemente o homem quanto às ações interiores. Objeção 1: Parece que a Nova Lei dirigiu insuficientemente o homem quanto às ações interiores. Pois há dez mandamentos do decálogo que dirigem o homem para Deus e para o próximo. Mas Nosso Senhor cumpriu apenas três deles: a saber, quanto à proibição do homicídio, do adultério e do perjúrio. Logo, parece que, ao omitir o cumprimento dos outros preceitos, dirigiu insuficientemente o homem. Objeção 2: Ademais, quanto aos preceitos judiciais, Nosso Senhor nada ordenou no Evangelho, exceto na matéria de divórcio da esposa, de pena de talião e de perseguir os inimigos. Mas há muitos outros preceitos judiciais na Lei Antiga, como foi dito acima (Q[104], A[4]; Q[105]). Logo, nesse aspecto, dirigiu insuficientemente a vida humana. Objeção 3: Ademais, na Lei Antiga, além dos preceitos morais e judiciais, havia preceitos cerimoniais sobre os quais Nosso Senhor nenhuma ordenação fez. Logo, parece que ordenou insuficientemente. Objeção 4: Ademais, para que a mente seja interiormente bem disposta, o homem não deve fazer nenhuma boa obra por qualquer bem temporal que seja. Mas há muitos outros bens temporais além do favor humano: e há muitas outras boas obras além do jejum, da esmola e da oração. Logo, Nosso Senhor inconvenientemente ensinou que somente quanto a estas três obras, e a nenhum outro bem terreno, devemos evitar a glória do favor humano. Objeção 5: Ademais, a solicitude pelos meios necessários de subsistência é por natureza instilada no homem, e esta solicitude até os outros animais compartilham com o homem: por isso está escrito (Prov. 6,6.8): “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, e considera os seus caminhos... ela prepara no verão a sua comida, e ajunta no tempo da ceifa o seu sustento.” Mas todo mandamento dado contra a inclinação da natureza é um mandamento injusto, porquanto é contrário à lei da natureza. Logo, parece que Nosso Senhor inconvenientemente proibiu a solicitude acerca da comida e da vestimenta. Objeção 6: Ademais, nenhum ato de virtude deve ser objeto de proibição. Ora, o juízo é um ato de justiça, segundo o Salmo 18,15: “Até que a justiça se converta em juízo.” Logo, parece que Nosso Senhor inconvenientemente proibiu o juízo: e, por conseguinte, que a Nova Lei dirigiu insuficientemente o homem quanto aos atos interiores. Em contrário, Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte i, 1): “Devemos notar que, quando Ele disse: ‘Aquele que ouve estas minhas palavras’, indica claramente que este sermão do Senhor é repleto de todos os preceitos pelos quais se forma a vida cristã.” Respondo que, como é evidente pelas palavras de Agostinho há pouco citadas, o sermão contém todo o processo de formação da vida do cristão. Nele são ordenados os movimentos interiores do homem. Pois, depois de declarar que o seu fim é a Beatitude; e depois de encomendar a autoridade dos apóstolos, pelos quais a doutrina do Evangelho havia de ser promulgada, Ele ordena os movimentos interiores do homem, primeiramente quanto ao homem mesmo, em segundo lugar quanto ao próximo. Isso Ele faz quanto ao homem mesmo, de dois modos, correspondendo aos dois movimentos interiores do homem a respeito de qualquer ação futura: a saber, a vontade do que deve ser feito, e a intenção do fim. Por onde, em primeiro lugar, dirige a vontade do homem quanto aos vários preceitos da Lei: prescrevendo que o homem se abstenha não só daquelas obras exteriores que são más em si mesmas, mas também dos atos interiores e das ocasiões de ações más. Em segundo lugar, dirige a intenção do homem, ensinando que nas nossas boas obras não devemos buscar nem o louvor humano, nem as riquezas mundanas, o que é entesourar tesouros na terra. Depois, dirige o movimento interior do homem quanto ao próximo, proibindo-nos, por um lado, julgá-lo temerariamente, injusta ou presunçosamente; e, por outro, confiar-lhe demasiadamente as coisas sagradas se for indigno. Finalmente, ensina-nos como cumprir a doutrina do Evangelho: isto é, implorando o auxílio de Deus; esforçando-nos por entrar pela porta estreita da perfeita virtude; e estando atentos para não sermos desencaminhados por más influências. Além disso, declara que devemos observar os seus mandamentos, e que não basta fazer profissão de fé, ou operar milagres,

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the New Law directed man sufficiently as regards interior actions? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que certos conselhos determinados não são convenientemente propostos na Nova Lei. Pois os conselhos se dão acerca daquilo que é expediente para um fim, como acima dissemos, ao tratar do conselho (Q. 14, A. 2). Ora, as mesmas coisas não são expedientes para todos. Logo, certos conselhos determinados não devem ser propostos a todos. **Objeção 2:** Demais, os conselhos respeitam a um bem maior. Ora, não há graus determinados do bem maior. Logo, não se devem dar conselhos determinados. **Objeção 3:** Demais, os conselhos pertencem à vida de perfeição. Ora, a obediência pertence à vida de perfeição. Logo, foi inconveniente que nenhum conselho de obediência se contivesse no Evangelho. **Objeção 4:** Demais, muitas coisas pertencentes à vida de perfeição se encontram entre os mandamentos, como, por exemplo: «Amai a vossos inimigos» (Mt 5,44) e aqueles preceitos que Nosso Senhor deu a Seus apóstolos (Mt 10). Logo, os conselhos são inconvenientemente dados na Nova Lei: tanto porque não são todos mencionados, como porque não se distinguem dos mandamentos. **Em contrário,** os conselhos de um amigo sábio são de grande utilidade, segundo Provérbios (27,9): «O óleo e os perfumes alegram o coração; e os bons conselhos do amigo alegram a alma.» Ora, Cristo é nosso amigo sapientíssimo e máximo. Logo, Seus conselhos são sumamente úteis e convenientes. **Respondo que** a diferença entre o conselho e o mandamento é que o mandamento implica obrigação, ao passo que o conselho fica ao arbítrio daquele a quem é dado. Consequentemente, na Nova Lei, que é a lei da liberdade, os conselhos são acrescentados aos mandamentos, e não na Velha Lei, que é a lei da servidão. Devemos, portanto, entender que os mandamentos da Nova Lei foram dados acerca das coisas necessárias para alcançar o fim da bem-aventurança eterna, ao qual fim a Nova Lei nos conduz imediatamente; mas que os conselhos são acerca das coisas que tornam a consecução desse fim mais segura e expedita. Ora, o homem está posto entre as coisas deste mundo e os bens espirituais nos quais consiste a felicidade eterna; de modo que, quanto mais se aferra a um, tanto mais se afasta do outro, e vice-versa. Por isso, aquele que se aferra totalmente às coisas deste mundo, de modo a fazê-las seu fim e a considerá-las como a razão e regra de tudo o que faz, cai inteiramente dos bens espirituais. Logo, esta desordem é removida pelos mandamentos. Todavia, para que o homem alcance o fim sobredito, não precisa renunciar totalmente às coisas do mundo; pois pode, usando das coisas deste mundo, chegar à felicidade eterna, contanto que nelas não ponha seu fim; mas chegará mais rapidamente a ela abandonando inteiramente os bens deste mundo; e para isso são dados os conselhos evangélicos. Ora, os bens deste mundo que entram no uso da vida humana consistem em três coisas: a saber, nas riquezas exteriores, que pertencem à «concupiscência dos olhos»; nos prazeres carnais, que pertencem à «concupiscência da carne»; e nas honras, que pertencem à «soberba da vida», segundo 1 João 2,16; e é na renúncia total a estas coisas, quanto possível, que consistem os conselhos evangélicos. Ademais, toda forma de vida religiosa que professa o estado de perfeição se funda nestas três: pois as riquezas são renunciadas pela pobreza; os prazeres carnais, pela castidade perpétua; e a soberba da vida, pelo jugo da obediência. Ora, se um homem observar estas coisas absolutamente, isto está de acordo com os conselhos como tais. Mas se um homem observar alguma delas em um caso particular, isto é tomar esse conselho em sentido restrito, isto é, como aplicável àquele caso particular. Por exemplo, quando alguém dá uma esmola a um pobre, não sendo obrigado a fazê-lo, segue o conselho naquele caso particular. Do mesmo modo, quando um homem, por algum tempo determinado, se abstém dos prazeres carnais para se entregar à oração, segue o conselho para aquele tempo particular. E ainda, quando um homem não segue a sua vontade em algum ato que poderia licitamente fazer, segue o conselho naquele caso particular: por exemplo, se faz bem a seus inimigos quando não é obrigado, ou se perdoa uma injúria da qual poderia justamente buscar vingança. Desta forma, também todos os conselhos particulares podem reduzir-se a estes três conselhos gerais e perfeitos. **Resposta à objeção 1:** Os referidos conselhos, considerados em si mesmos, são expedientes para todos; mas, por haver pessoas mal dispostas, sucede que alguns deles são inexpecientes, porque a sua disposição não é inclinada a tais coisas. Por isso, Nosso Senhor, ao propor os conselhos evangélicos, faz sempre menção da aptidão do homem para observar os conselhos. Pois, ao dar o conselho da pobreza perpétua (Mt 19,21), começa com as palavras: «Se tu queres ser perfeito», e depois acrescenta: «Vai, vende tudo o que tens.» Do mesmo modo, ao dar o conselho da castidade perpétua, dizendo (Mt 19,12): «Há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus», acrescenta logo: «Quem pode receber, receba.» E ainda o Apóstolo (1 Cor 7,35), depois de dar o conselho da virgindade, diz: «E isto vos digo para vosso proveito, não para vos lançar um laço.» **Resposta à objeção 2:** Os bens maiores não são determinados no indivíduo; mas aqueles que são simples e absolutamente o bem maior em geral são determinados; e a estes se podem reduzir todos os referidos bens particulares, como foi dito acima. **Resposta à objeção 3:** Também o conselho da obediência se entende ter sido dado por Nosso Senhor nas palavras: «E siga-Me» [Mt 19,21]. Pois seguimo-Lo não só imitando Suas obras, mas também obedecendo a Seus mandamentos, segundo João 10,27: «As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz... e Me seguem.» **Resposta à objeção 4:** Aquelas coisas que Nosso Senhor prescreveu acerca do verdadeiro amor aos inimigos e outras sentenças semelhantes (Mt 5; Lc 6) podem referir-se à disposição do ânimo, e então são necessárias para a salvação; por exemplo, que o homem esteja preparado para fazer bem a seus inimigos e outras ações semelhantes, quando houver necessidade. Por isso, estas coisas são colocadas entre os preceitos. Mas que alguém, real e prontamente, se comporte assim para com um inimigo quando não há necessidade especial, isso se refere aos conselhos particulares, como foi dito acima. Quanto àquelas coisas que estão escritas em Mt 10 e Lc 9 e 10, ou eram mandamentos disciplinares para aquele tempo particular, ou concessões, como foi dito acima (A. 2, ad 3). Por isso, não são colocadas entre os conselhos.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether certain definite counsels are fittingly proposed in the New Law? · séc. XIII

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1Jo 2, 16 nos Padres da Igreja | Aurea