Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a caridade exige que o homem mostre ao seu inimigo os sinais ou efeitos do amor. Porque está escrito (1 Jo 3,18): "Não amemos de palavra nem de língua, mas por obras e em verdade." Ora, o homem ama por obras quando mostra àquele que ama os sinais e efeitos do amor. Logo, a caridade requer que o homem mostre a seus inimigos tais sinais e efeitos de amor. **Objeção 2:** Demais, Nosso Senhor disse no mesmo passo (Mt 5,44): "Amai os vossos inimigos" e "Fazei bem aos que vos odeiam". Ora, a caridade exige que amemos os nossos inimigos. Logo, exige também que "façamos bem" a eles. **Objeção 3:** Ademais, não só Deus, mas também o próximo é objeto da caridade. Ora, Gregório diz numa homilia de Pentecostes (In Evang. xxx) que "o amor de Deus não pode ser ocioso, porque onde quer que esteja, faz grandes coisas, e se cessa de obrar, já não é amor." Portanto, a caridade para com o próximo não pode existir sem produzir obras. Mas a caridade exige que amemos o próximo sem exceção, ainda que seja inimigo. Logo, a caridade exige que mostremos os sinais e efeitos de amor para com os nossos inimigos. **Em contrário,** uma glosa sobre Mt 5,44, "Fazei bem aos que vos odeiam", diz: "Fazer bem aos inimigos é o cume da perfeição" [*Agostinho, Enquirídio lxxiii]. Ora, a caridade não exige que façamos aquilo que pertence à sua perfeição. Logo, a caridade não exige que mostremos os sinais e efeitos de amor a nossos inimigos. **Respondo:** Os efeitos e sinais da caridade procedem do amor interior e lhe são proporcionais. Ora, é absolutamente necessário, para o cumprimento do preceito, que amemos interiormente os nossos inimigos *em geral*, mas não individualmente, a não ser quanto à disposição do ânimo para assim o fazer, como se explicou acima (A[8]). Devemos, pois, aplicar isto à manifestação dos efeitos e sinais de amor. Porque alguns dos sinais e benefícios do amor se mostram aos nossos próximos *em geral*, como quando oramos por todos os fiéis, ou por todo um povo, ou quando alguém concede um favor a toda uma comunidade: e o cumprimento do preceito requer que mostremos tais benefícios ou sinais de amor para com os nossos inimigos. Porque, se não o fizéssemos, seria prova de rancor vingativo e contrário ao que está escrito (Lv 19,18): "Não busques vingança, nem te lembres da injúria dos teus concidadãos." Mas há outros benefícios ou sinais de amor, que se mostram a certas pessoas *em particular*: e não é necessário para a salvação que mostremos a nossos inimigos tais benefícios e sinais de amor, a não ser quanto à prontidão do ânimo, por exemplo, para lhes acudir em caso de urgência, conforme Pv 25,21: "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber." Fora dos casos de urgência, mostrar tais benefícios a um inimigo pertence à perfeição da caridade, pela qual não só nos acautelamos, como somos obrigados, de ser vencidos pelo mal, mas também desejamos vencer o mal com o bem [*Rm 12,21], o que pertence à perfeição: porque então não só nos acautelamos de ser arrastados ao ódio por causa do dano recebido, mas também nos propomos a induzir o nosso inimigo a nos amar por causa da nossa benignidade. **Isto basta para as respostas às objeções.**
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 9 - Whether it is necessary for salvation that we should show our enemies the signs and effects of love? · séc. XIII
tradução automática