Santo Thomas Aquinas
**Artigo 3 – Se o Batismo deve ser adiado.** **Objeção 1:** Parece que o Batismo deve ser adiado. Pois o Papa Leão diz (Epíst. xvi): “Duas estações”, isto é, a Páscoa e o Pentecostes, “são fixadas pelo Pontífice Romano para a celebração do Batismo. Por isso exortamos a vossa Beatitude a não acrescentar outros dias a este costume.” Portanto, parece que o Batismo não deve ser conferido imediatamente, mas adiado até as referidas estações. **Objeção 2:** Ademais, lemos nos decretos do Concílio de Ágde (Cân. xxxiv): “Se judeus, cuja má fé muitas vezes ‘volta ao vômito’, desejarem submeter-se à Lei da Igreja Católica, entrem por oito meses no pórtico da igreja com os catecúmenos; e, se forem encontrados em boa fé, então, finalmente, mereçam a graça do Batismo.” Logo, os homens não devem ser batizados imediatamente, e o Batismo deve ser adiado por um tempo determinado. **Objeção 3:** Ademais, como lemos em Is 27,9: “Isto é todo o fruto, que o pecado seja tirado.” Ora, o pecado parece ser tirado, ou pelo menos diminuído, se o Batismo for adiado. Primeiro, porque os que pecam após o Batismo pecam mais gravemente, segundo Hb 10,29: “Quanto mais pensais vós que merecerá maiores castigos aquele que teve por comum o sangue do testamento”, isto é, o Batismo, “em que foi santificado?” Segundo, porque o Batismo tira os pecados passados, mas não os futuros; por isso, quanto mais é adiado, mais pecados tira. Portanto, parece que o Batismo deve ser adiado por muito tempo. **Ao contrário,** está escrito (Eclo 5,8): “Não tardes em converter-te ao Senhor, e não o adies de dia para dia.” Ora, a perfeita conversão a Deus é a daqueles que são regenerados em Cristo pelo Batismo. Logo, o Batismo não deve ser adiado de dia para dia. **Respondo que:** Nesta matéria, devemos fazer uma distinção e ver se os que vão ser batizados são crianças ou adultos. Pois, se forem crianças, o Batismo não deve ser adiado. Primeiro, porque nelas não esperamos melhor instrução ou conversão mais plena. Segundo, pelo perigo de morte, pois nenhum outro remédio lhes está disponível senão o sacramento do Batismo. Por outro lado, os adultos têm um remédio no mero desejo do Batismo, como foi dito acima (A[2]). E, portanto, o Batismo não deve ser conferido aos adultos tão logo se convertam, mas deve ser adiado até um tempo determinado. Primeiro, como salvaguarda da Igreja, para que não seja enganada batizando aqueles que a ela vêm com fingimento, segundo 1 Jo 4,1: “Não creiais a todo espírito, mas provai os espíritos se são de Deus.” E os que se aproximam do Batismo são submetidos a esta prova quando sua fé e costumes são examinados por um espaço de tempo. Segundo, isto é necessário por ser útil para os que são batizados; pois necessitam de certo tempo para serem plenamente instruídos na fé e exercitados naquelas coisas que pertencem ao modo de vida cristão. Terceiro, uma certa reverência ao sacramento exige uma demora pela qual os homens são admitidos ao Batismo nas principais festividades, a saber, da Páscoa e do Pentecostes, resultando que recebem o sacramento com maior devoção. Há, contudo, duas razões para dispensar esta demora. Primeiro, quando os que vão ser batizados parecem perfeitamente instruídos na fé e prontos para o Batismo; assim, Filipe batizou o eunuco imediatamente (At 8); e Pedro, a Cornélio e aos que estavam com ele (At 10). Segundo, por motivo de doença ou algum perigo de morte. Por isso o Papa Leão diz (Epíst. xvi): “Os que são ameaçados pela morte, doença, cerco, perseguição ou naufrágio, devem ser batizados em qualquer tempo.” Contudo, se um homem é prevenido pela morte, de modo a não ter tempo de receber o sacramento, enquanto aguarda a estação determinada pela Igreja, é salvo, todavia “como pelo fogo”, como foi dito acima (A[2], ad 2). No entanto, peca se adiar o Batismo além do tempo determinado pela Igreja, a menos que seja por causa inevitável e com permissão das autoridades eclesiásticas. Mas mesmo este pecado, com seus outros pecados, pode ser lavado pela contrição subsequente, que faz as vezes do Batismo, como foi dito acima (Q[66], A[11]). **Resposta à objeção 1:** Este decreto do Papa Leão, acerca da celebração do Batismo em duas estações, deve ser entendido “com exceção do perigo de morte” (que deve ser sempre temido nas crianças), como foi dito acima. **Resposta à objeção 2:** Este decreto acerca dos judeus foi para salvaguarda da Igreja, para que não corrompam a fé dos simples, se não estiverem plenamente convertidos. No entanto, como se lê adiante no mesmo texto, “se dentro do tempo determinado forem ameaçados por perigo de doença, devem ser batizados”. **Resposta à objeção 3:** O Batismo, pela graça que confere, remove não só os pecados passados, mas impede a prática de pecados futuros. Ora, este é o ponto a considerar — que os homens não pequem: é consideração secundária que seus pecados sejam menos graves, ou que seus pecados sejam lavados, segundo 1 Jo 2,1-2: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis. Mas se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados.”
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether Baptism should be deferred? · séc. XIII
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