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1Jo 4, 20

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Matos Soares

20Se alguém disser: — eu amo a Deus — e odiar o seu irmão, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê ?

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que Deus não deve ser amado mais do que o nosso próximo. Porque está escrito (1 Jo 4,20): «Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?» Donde parece seguir-se que quanto mais uma coisa é visível, tanto mais amável é, pois o amor começa pela vista, segundo o livro IX da Ética, cap. 5,12. Ora, Deus é menos visível que o nosso próximo. Logo, Ele é menos amável, por caridade, do que o nosso próximo. Objecção 2: Além disso, a semelhança causa o amor, conforme Eclesiástico 13,19: «Toda besta ama a sua semelhante.» Ora, o homem tem mais semelhança com o seu próximo do que com Deus. Logo, o homem ama mais o seu próximo, por caridade, do que ama a Deus. Objecção 3: Além disso, o que a caridade ama no próximo é Deus, segundo Agostinho (Da Doutrina Cristã, I, 22,27). Ora, Deus não é maior em Si mesmo do que está no nosso próximo. Logo, não deve ser mais amado em Si mesmo do que no nosso próximo. Portanto, não devemos amar a Deus mais do que o próximo. Em contrário, uma coisa deve ser mais amada, se por amor dela outras devem ser odiadas. Ora, devemos odiar o nosso próximo por amor de Deus, se, por exemplo, ele nos desvia de Deus, conforme Lucas 14,26: «Se alguém vem a Mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs... não pode ser Meu discípulo.» Logo, devemos amar a Deus, por caridade, mais do que o nosso próximo. Respondo: Cada espécie de amizade considera principalmente o sujeito no qual principalmente se encontra o bem da comunhão sobre a qual se funda essa amizade: assim, a amizade civil considera principalmente o príncipe da república, de quem depende todo o bem comum da república; por isso, a ele antes de todos, os cidadãos devem fidelidade e obediência. Ora, a amizade de caridade funda-se na comunhão da bem-aventurança, que consiste essencialmente em Deus, como Primeiro Princípio, donde ela deriva para todos os que são capazes de bem-aventurança. Portanto, Deus deve ser amado principalmente e antes de todos por caridade: pois é amado como causa da bem-aventurança, enquanto o nosso próximo é amado como recebendo juntamente conosco uma parte da bem-aventurança dele. Resposta à primeira objeção: Uma coisa é causa do amor de dois modos: primeiro, como sendo a razão de amar. Deste modo, o bem é causa do amor, pois cada coisa é amada segundo a medida de sua bondade. Segundo, uma coisa causa o amor como sendo um meio de adquirir o amor. É deste modo que a vista é causa do amor, não como se uma coisa fosse amável na medida em que é visível, mas porque, vendo uma coisa, somos levados a amá-la. Donde não se segue que o que é mais visível seja mais amável, mas sim que, como objeto de amor, encontramo-lo antes dos outros; e este é o sentido do argumento do Apóstolo. Pois, como o nosso próximo nos é mais visível, ele é o primeiro objeto amável que encontramos, porque «a alma aprende, daquelas coisas que conhece, a amar o que não conhece», como diz Gregório numa homilia (In Evang. xi). Portanto, pode-se argumentar que, se alguém não ama o seu próximo, também não ama a Deus, não porque o próximo seja mais amável, mas porque é a primeira coisa que exige o nosso amor; e Deus é mais amável por causa da Sua maior bondade. Resposta à segunda objeção: A semelhança que temos com Deus precede e causa a semelhança que temos com o nosso próximo: porque do próprio fato de participarmos juntamente com o nosso próximo de algo recebido de Deus, tornamo-nos semelhantes ao próximo. Portanto, por razão desta semelhança, devemos amar a Deus mais do que amamos o próximo. Resposta à terceira objeção: Considerado em Sua substância, Deus está igualmente em todos, em quem quer que Ele esteja, pois não é diminuído por estar em algo. Contudo, o nosso próximo não possui a bondade de Deus igualmente a Deus, pois Deus a tem essencialmente, e o próximo por participação.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether God ought to be loved more than our neighbor? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que os dez preceitos do decálogo não estão dispostos na ordem própria. Porque o amor do próximo é aparentemente anterior ao amor de Deus, visto que o próximo nos é mais conhecido do que Deus; segundo 1 Jo 4,20: “Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” Ora, os três primeiros preceitos pertencem ao amor de Deus, enquanto os outros sete se referem ao amor do próximo. Portanto, os preceitos do decálogo não estão dispostos na ordem própria. Objeção 2: Além disso, os atos de virtude são prescritos pelos preceitos afirmativos, e os atos de vício são proibidos pelos preceitos negativos. Mas, segundo Boécio em seu comentário às Categorias [Lib. iv, cap. De Oppos.], os vícios devem ser erradicados antes que as virtudes sejam semeadas. Logo, entre os preceitos concernentes ao próximo, os preceitos negativos deveriam ter precedido os afirmativos. Objeção 3: Ademais, os preceitos da Lei dizem respeito às ações dos homens. Ora, as ações do pensamento precedem as ações da palavra ou do ato exterior. Portanto, os preceitos sobre não cobiçar, que dizem respeito aos pensamentos, são inadequadamente colocados por último na ordem. Em contrário, o Apóstolo diz (Rm 13,1): “As coisas que são de Deus são bem ordenadas” [Vulg.: “As que existem são ordenadas por Deus”]. Mas os preceitos do decálogo foram dados imediatamente por Deus, como se disse acima (A[3]). Logo, estão dispostos em ordem conveniente. Respondo que, como se disse acima (AA[3],5, ad 1), os preceitos do decálogo são tais que a mente humana está pronta a apreender imediatamente. Ora, é evidente que uma coisa é tanto mais facilmente apreendida pela razão quanto o seu contrário é mais grave e repugnante à razão. Além disso, é claro que, visto que a ordem da razão começa pelo fim, que o homem esteja desordenadamente disposto para com o seu fim é sumamente contrário à razão. Ora, o fim da vida e da sociedade humana é Deus. Consequentemente, foi necessário que os preceitos do decálogo, antes de tudo, dirigissem o homem a Deus; pois o contrário disto é gravíssimo. Assim também, num exército, que se ordena ao comandante como ao seu fim, é necessário primeiro que o soldado esteja sujeito ao comandante, e o oposto disto é gravíssimo; em segundo lugar, é necessário que esteja em coordenação com os outros soldados. Ora, entre aquelas coisas pelas quais somos ordenados a Deus, a primeira é que o homem esteja sujeito a Ele fielmente, não tendo nada em comum com os Seus inimigos. A segunda é que Lhe preste reverência; a terceira, que Lhe preste serviço. Assim, num exército, é maior pecado que um soldado aja traiçoeiramente e faça pacto com o inimigo, do que seja insolente para com o seu comandante; e este último é mais grave do que se ele falte em algum ponto do serviço que lhe é devido. Quanto aos preceitos que dirigem o homem no seu comportamento para com o próximo, é evidente que é mais repugnante à razão, e um pecado mais grave, se o homem não observar a devida ordem para com aquelas pessoas a quem está mais obrigado. Consequentemente, entre aqueles preceitos que dirigem o homem nas suas relações com o próximo, o primeiro lugar é dado ao que diz respeito aos seus pais. Entre os outros preceitos, encontramos novamente a ordem segundo a gravidade do pecado. Pois é mais grave e mais repugnante à razão pecar por obra do que por palavra; e por palavra do que por pensamento. E entre os pecados de obra, o homicídio, que destrói a vida de alguém já vivente, é mais grave que o adultério, que põe em perigo a vida do nascituro; e o adultério é mais grave que o furto, que se refere a bens exteriores. Resposta à Objeção 1: Embora o nosso próximo seja mais conhecido do que Deus pela via dos sentidos, contudo o amor de Deus é a razão do amor do próximo, como se declarará adiante (SS, Q[25], A[1]; SS, Q[26], A[2]). Por isso, os preceitos que ordenam o homem a Deus exigiram precedência sobre os outros. Resposta à Objeção 2: Assim como Deus é o princípio universal do ser em relação a todas as coisas, assim o pai é princípio do ser em relação ao seu filho. Portanto, o preceito acerca dos pais foi convenientemente colocado depois dos preceitos acerca de Deus. Este argumento vale no que diz respeito aos preceitos afirmativos e negativos sobre o mesmo tipo de ação: embora mesmo então não seja inteiramente convincente. Pois, embora na ordem da execução os vícios devam ser arrancados antes que as virtudes sejam semeadas, conforme Sl 33,15: “Aparta-te do mal e faze o bem”, e Is 1,16-17: “Cessai de fazer perversamente; aprendei a fazer o bem”; contudo, na ordem do conhecimento, a virtude precede o vício, porque “a linha torta é conhecida pela reta” (De Anima i); e “pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3,20). Por isso, o preceito afirmativo exigia o primeiro lugar. No entanto, esta não é a razão da ordem, mas aquela que foi dada acima. Porque nos preceitos acerca de Deus, que pertencem à primeira tábua, um preceito afirmativo é colocado em último lugar, pois sua transgressão implica um pecado menos grave. Resposta à Objeção 3: Embora o pecado de pensamento esteja em primeiro lugar na ordem da execução, contudo a sua proibição ocupa uma posição posterior na ordem da razão.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether the ten precepts of the decalogue are set in proper order? · séc. XIII

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1Jo 4, 20 nos Padres da Igreja | Aurea