Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que Deus não deve ser amado mais do que o nosso próximo. Porque está escrito (1 Jo 4,20): «Quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?» Donde parece seguir-se que quanto mais uma coisa é visível, tanto mais amável é, pois o amor começa pela vista, segundo o livro IX da Ética, cap. 5,12. Ora, Deus é menos visível que o nosso próximo. Logo, Ele é menos amável, por caridade, do que o nosso próximo. Objecção 2: Além disso, a semelhança causa o amor, conforme Eclesiástico 13,19: «Toda besta ama a sua semelhante.» Ora, o homem tem mais semelhança com o seu próximo do que com Deus. Logo, o homem ama mais o seu próximo, por caridade, do que ama a Deus. Objecção 3: Além disso, o que a caridade ama no próximo é Deus, segundo Agostinho (Da Doutrina Cristã, I, 22,27). Ora, Deus não é maior em Si mesmo do que está no nosso próximo. Logo, não deve ser mais amado em Si mesmo do que no nosso próximo. Portanto, não devemos amar a Deus mais do que o próximo. Em contrário, uma coisa deve ser mais amada, se por amor dela outras devem ser odiadas. Ora, devemos odiar o nosso próximo por amor de Deus, se, por exemplo, ele nos desvia de Deus, conforme Lucas 14,26: «Se alguém vem a Mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs... não pode ser Meu discípulo.» Logo, devemos amar a Deus, por caridade, mais do que o nosso próximo. Respondo: Cada espécie de amizade considera principalmente o sujeito no qual principalmente se encontra o bem da comunhão sobre a qual se funda essa amizade: assim, a amizade civil considera principalmente o príncipe da república, de quem depende todo o bem comum da república; por isso, a ele antes de todos, os cidadãos devem fidelidade e obediência. Ora, a amizade de caridade funda-se na comunhão da bem-aventurança, que consiste essencialmente em Deus, como Primeiro Princípio, donde ela deriva para todos os que são capazes de bem-aventurança. Portanto, Deus deve ser amado principalmente e antes de todos por caridade: pois é amado como causa da bem-aventurança, enquanto o nosso próximo é amado como recebendo juntamente conosco uma parte da bem-aventurança dele. Resposta à primeira objeção: Uma coisa é causa do amor de dois modos: primeiro, como sendo a razão de amar. Deste modo, o bem é causa do amor, pois cada coisa é amada segundo a medida de sua bondade. Segundo, uma coisa causa o amor como sendo um meio de adquirir o amor. É deste modo que a vista é causa do amor, não como se uma coisa fosse amável na medida em que é visível, mas porque, vendo uma coisa, somos levados a amá-la. Donde não se segue que o que é mais visível seja mais amável, mas sim que, como objeto de amor, encontramo-lo antes dos outros; e este é o sentido do argumento do Apóstolo. Pois, como o nosso próximo nos é mais visível, ele é o primeiro objeto amável que encontramos, porque «a alma aprende, daquelas coisas que conhece, a amar o que não conhece», como diz Gregório numa homilia (In Evang. xi). Portanto, pode-se argumentar que, se alguém não ama o seu próximo, também não ama a Deus, não porque o próximo seja mais amável, mas porque é a primeira coisa que exige o nosso amor; e Deus é mais amável por causa da Sua maior bondade. Resposta à segunda objeção: A semelhança que temos com Deus precede e causa a semelhança que temos com o nosso próximo: porque do próprio fato de participarmos juntamente com o nosso próximo de algo recebido de Deus, tornamo-nos semelhantes ao próximo. Portanto, por razão desta semelhança, devemos amar a Deus mais do que amamos o próximo. Resposta à terceira objeção: Considerado em Sua substância, Deus está igualmente em todos, em quem quer que Ele esteja, pois não é diminuído por estar em algo. Contudo, o nosso próximo não possui a bondade de Deus igualmente a Deus, pois Deus a tem essencialmente, e o próximo por participação.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether God ought to be loved more than our neighbor? · séc. XIII
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