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1Jo 4, 21

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Matos Soares

21Temos de Deus este mandamento: que aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que o amor da caridade se detém em Deus e não se estende ao próximo. Pois, assim como devemos a Deus amor, assim também Lhe devemos temor, conforme Dt 10,12: “E agora, Israel, que é que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas… e o ames?” Ora, o temor com que tememos o homem, e que se chama temor humano, é distinto do temor com que tememos a Deus, e que é ou servil ou filial, como é evidente pelo que foi dito acima (Q. 10, a. 2). Logo, também o amor com que amamos a Deus é distinto do amor com que amamos o próximo. **Objeção 2:** Ademais, o Filósofo diz (Ética VIII, 8) que “ser amado é ser honrado”. Ora, a honra devida a Deus, que se chama “latria”, é distinta da honra devida à criatura, que se chama “dulia”. Logo, novamente, o amor com que amamos a Deus é distinto daquele com que amamos o próximo. **Objeção 3:** Ademais, a esperança gera a caridade, como diz uma glosa sobre Mt 1,2. Ora, a esperança é tão devida a Deus que é repreensível esperar no homem, conforme Jr 17,5: “Maldito o homem que confia no homem”. Logo, a caridade é tão devida a Deus que não se estende ao próximo. **Em contrário,** está escrito (1 Jo 4,21): “Este mandamento temos de Deus: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão”. **Respondo:** Como foi dito acima (Q. 17, a. 6; Q. 19, a. 3; I-II, Q. 54, a. 3), os hábitos não se diferenciam a não ser que seus atos sejam de espécies diferentes. Pois todo ato de uma mesma espécie pertence ao mesmo hábito. Ora, como a espécie do ato se deriva do seu objeto, considerado sob sua razão formal, segue-se necessariamente que é especificamente o mesmo ato o que tende a uma razão do objeto e o que tende ao objeto sob essa razão: assim, é especificamente o mesmo ato visual pelo qual vemos a luz e pelo qual vemos a cor sob a razão de luz. Ora, a razão sob a qual o próximo deve ser amado é Deus, pois o que devemos amar no próximo é que ele esteja em Deus. Por isso é claro que é especificamente o mesmo ato pelo qual amamos a Deus e pelo qual amamos o próximo. Consequentemente, o hábito da caridade não se estende somente ao amor de Deus, mas também ao amor do próximo. **Resposta à objeção 1:** Podemos temer o próximo, assim como amá-lo, de dois modos: primeiro, por causa de algo que lhe é próprio, como quando alguém teme um tirano por sua crueldade, ou o ama por desejo de obter dele alguma coisa. Tal temor humano é distinto do temor de Deus, e o mesmo se diga do amor. Segundo, tememos ou amamos um homem por causa do que ele tem de Deus; como quando tememos o poder secular por exercer o ministério de Deus para o castigo dos malfeitores, e o amamos por sua justiça. Tal temor do homem não é distinto do temor de Deus, assim como também não o é tal amor. **Resposta à objeção 2:** O amor diz respeito ao bem em comum, ao passo que a honra diz respeito ao bem próprio da pessoa honrada, pois se tributa a alguém em reconhecimento de sua própria virtude. Logo, o amor não se diferencia especificamente por causa dos vários graus de bondade em várias pessoas, enquanto é referido a um bem comum a todas; mas a honra se distingue segundo o bem pertencente aos indivíduos. Por isso, amamos todos os nossos próximos com o mesmo amor de caridade, na medida em que são referidos a um bem comum a todos eles, que é Deus; ao passo que tributamos várias honras a várias pessoas, segundo a virtude própria de cada uma, e igualmente a Deus tributamos a honra singular de latria por causa da Sua virtude singular. **Resposta à objeção 3:** É errado esperar no homem como se ele fosse o autor principal da salvação, mas não é errado esperar no homem como quem nos ajuda ministerialmente sob Deus. Do mesmo modo, seria errado se alguém amasse o seu próximo como se ele fosse o seu fim último, mas não se o amasse por amor de Deus; e é isso o que faz a caridade.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the love of charity stops at God, or extends to our neighbor? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que é mais meritório amar o próximo do que amar a Deus. Pois o que é mais meritório parece ser o que o Apóstolo preferiu. Ora, o Apóstolo preferiu o amor do próximo ao amor de Deus, segundo Rm 9,3: "Eu desejaria ser anátema de Cristo por meus irmãos." Logo, é mais meritório amar o próximo do que amar a Deus. Objeção 2: Ademais, de certo modo parece ser menos meritório amar o amigo, como foi dito acima (A[7]). Ora, Deus é o nosso principal amigo, visto que "Ele nos amou primeiro" (1 Jo 4,10). Logo, parece menos meritório amar a Deus. Objeção 3: Ademais, o que é mais difícil parece ser mais virtuoso e meritório, pois "a virtude versa sobre o que é difícil e bom" (Ethic. ii, 3). Ora, é mais fácil amar a Deus do que amar o próximo, tanto porque todas as coisas amam a Deus naturalmente, como porque não há nada em Deus que não seja amável, e isto não se pode dizer do próximo. Logo, é mais meritório amar o próximo do que amar a Deus. Em contrário, Aquilo por causa do qual uma coisa é tal, é ainda mais tal. Ora, o amor do próximo não é meritório, senão por ser amado por amor de Deus. Logo, o amor de Deus é mais meritório do que o amor do próximo. Respondo: Esta comparação pode ser tomada de dois modos. Primeiro, considerando ambos os amores separadamente; e então, sem dúvida, o amor de Deus é o mais meritório, porque uma recompensa é devida a ele por si mesmo, visto que a recompensa última é o gozo de Deus, para o qual tende o movimento do amor divino; por isso, uma recompensa é prometida àquele que ama a Deus (Jo 14,21): "Aquele que Me ama, será amado por Meu Pai, e Eu Me manifestarei a ele." Segundo, a comparação pode ser entendida entre o amor de Deus apenas, de um lado, e o amor do próximo por amor de Deus, do outro. Deste modo, o amor do próximo inclui o amor de Deus, enquanto o amor de Deus não inclui o amor do próximo. Por isso, a comparação será entre o amor perfeito de Deus, que se estende também ao próximo, e o amor inadequado e imperfeito de Deus, pois "d'Ele recebemos este mandamento: quem ama a Deus, ame também a seu irmão" (1 Jo 4,21). Resposta à Objeção 1: Segundo uma glosa, o Apóstolo não desejou isto, isto é, ser separado de Cristo por seus irmãos, quando estava em estado de graça, mas tinha-o desejado anteriormente quando estava em estado de incredulidade, de modo que não devemos imitá-lo a este respeito. Podemos também responder, com Crisóstomo (De Compunct. i, 8) [*Hom. xvi in Ep. ad Rom.], que isto não prova que o Apóstolo amou mais o próximo do que a Deus, mas que amou mais a Deus do que a si mesmo. Pois desejou ser privado por um tempo da fruição divina, que pertence ao amor de si mesmo, para que Deus fosse honrado no próximo, o que pertence ao amor de Deus. Resposta à Objeção 2: O amor de um homem pelos seus amigos é por vezes menos meritório na medida em que os ama por si mesmos, de modo a faltar à verdadeira razão da amizade da caridade, que é Deus. Por isso, que Deus seja amado por Si mesmo não diminui o mérito, mas é toda a razão do mérito. Resposta à Objeção 3: O "bem" tem mais a ver com a razão do mérito e da virtude do que o "difícil". Portanto, não se segue que tudo o que é mais difícil é mais meritório, mas apenas o que é mais difícil e, ao mesmo tempo, melhor.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether it is more meritorious to love one's neighbor than to love God? · séc. XIII

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