Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o amor da caridade se detém em Deus e não se estende ao próximo. Pois, assim como devemos a Deus amor, assim também Lhe devemos temor, conforme Dt 10,12: “E agora, Israel, que é que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas… e o ames?” Ora, o temor com que tememos o homem, e que se chama temor humano, é distinto do temor com que tememos a Deus, e que é ou servil ou filial, como é evidente pelo que foi dito acima (Q. 10, a. 2). Logo, também o amor com que amamos a Deus é distinto do amor com que amamos o próximo. **Objeção 2:** Ademais, o Filósofo diz (Ética VIII, 8) que “ser amado é ser honrado”. Ora, a honra devida a Deus, que se chama “latria”, é distinta da honra devida à criatura, que se chama “dulia”. Logo, novamente, o amor com que amamos a Deus é distinto daquele com que amamos o próximo. **Objeção 3:** Ademais, a esperança gera a caridade, como diz uma glosa sobre Mt 1,2. Ora, a esperança é tão devida a Deus que é repreensível esperar no homem, conforme Jr 17,5: “Maldito o homem que confia no homem”. Logo, a caridade é tão devida a Deus que não se estende ao próximo. **Em contrário,** está escrito (1 Jo 4,21): “Este mandamento temos de Deus: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão”. **Respondo:** Como foi dito acima (Q. 17, a. 6; Q. 19, a. 3; I-II, Q. 54, a. 3), os hábitos não se diferenciam a não ser que seus atos sejam de espécies diferentes. Pois todo ato de uma mesma espécie pertence ao mesmo hábito. Ora, como a espécie do ato se deriva do seu objeto, considerado sob sua razão formal, segue-se necessariamente que é especificamente o mesmo ato o que tende a uma razão do objeto e o que tende ao objeto sob essa razão: assim, é especificamente o mesmo ato visual pelo qual vemos a luz e pelo qual vemos a cor sob a razão de luz. Ora, a razão sob a qual o próximo deve ser amado é Deus, pois o que devemos amar no próximo é que ele esteja em Deus. Por isso é claro que é especificamente o mesmo ato pelo qual amamos a Deus e pelo qual amamos o próximo. Consequentemente, o hábito da caridade não se estende somente ao amor de Deus, mas também ao amor do próximo. **Resposta à objeção 1:** Podemos temer o próximo, assim como amá-lo, de dois modos: primeiro, por causa de algo que lhe é próprio, como quando alguém teme um tirano por sua crueldade, ou o ama por desejo de obter dele alguma coisa. Tal temor humano é distinto do temor de Deus, e o mesmo se diga do amor. Segundo, tememos ou amamos um homem por causa do que ele tem de Deus; como quando tememos o poder secular por exercer o ministério de Deus para o castigo dos malfeitores, e o amamos por sua justiça. Tal temor do homem não é distinto do temor de Deus, assim como também não o é tal amor. **Resposta à objeção 2:** O amor diz respeito ao bem em comum, ao passo que a honra diz respeito ao bem próprio da pessoa honrada, pois se tributa a alguém em reconhecimento de sua própria virtude. Logo, o amor não se diferencia especificamente por causa dos vários graus de bondade em várias pessoas, enquanto é referido a um bem comum a todas; mas a honra se distingue segundo o bem pertencente aos indivíduos. Por isso, amamos todos os nossos próximos com o mesmo amor de caridade, na medida em que são referidos a um bem comum a todos eles, que é Deus; ao passo que tributamos várias honras a várias pessoas, segundo a virtude própria de cada uma, e igualmente a Deus tributamos a honra singular de latria por causa da Sua virtude singular. **Resposta à objeção 3:** É errado esperar no homem como se ele fosse o autor principal da salvação, mas não é errado esperar no homem como quem nos ajuda ministerialmente sob Deus. Do mesmo modo, seria errado se alguém amasse o seu próximo como se ele fosse o seu fim último, mas não se o amasse por amor de Deus; e é isso o que faz a caridade.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the love of charity stops at God, or extends to our neighbor? · séc. XIII
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