Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que há mais de três pessoas em Deus. Pois a pluralidade de pessoas em Deus procede da pluralidade das propriedades relativas, como se disse acima (A[1]). Mas há quatro relações em Deus, como se disse acima (Q[28], A[4]): paternidade, filiação, espiração comum e processão. Logo, há quatro pessoas em Deus. **Objeção 2:** A natureza de Deus não difere de sua vontade mais do que de seu intelecto. Mas em Deus, uma pessoa procede da vontade, como amor; e outra procede de sua natureza, como o Filho. Logo, outra procede de seu intelecto, como o Verbo, além daquela que procede de sua natureza, como o Filho; assim, novamente se segue que não há somente três pessoas em Deus. **Objeção 3:** Além disso, quanto mais perfeita é uma criatura, mais operações interiores possui; assim o homem tem entendimento e vontade além dos outros animais. Mas Deus excede infinitamente toda criatura. Logo, em Deus não somente há uma pessoa procedente da vontade, e outra do intelecto, mas também de infinitas maneiras. Portanto, há infinitas pessoas em Deus. **Objeção 4:** Além disso, é da infinita bondade do Pai que Ele se comunica infinitamente na produção de uma pessoa divina. Mas também no Espírito Santo há infinita bondade. Logo, o Espírito Santo produz uma pessoa divina; e essa pessoa outra; e assim ao infinito. **Objeção 5:** Além disso, tudo dentro de um número determinado é medido, pois o número é uma medida. Mas as pessoas divinas são imensas, como dizemos no Credo de Atanásio: “O Pai é imenso, o Filho é imenso, o Espírito Santo é imenso.” Logo, as pessoas não estão contidas no número três. **Ao contrário, diz-se:** “Três são os que testificam no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo” (1 Jo 5,7). Aos que perguntam: “Três o quê?”, respondemos com Agostinho (De Trin. vii, 4): “Três pessoas.” Logo, há apenas três pessoas em Deus. **Respondo que,** como se explicou acima, só pode haver três pessoas em Deus. Pois foi demonstrado acima que as várias pessoas são as várias relações subsistentes realmente distintas entre si. Mas uma distinção real entre as relações divinas só pode vir da oposição relativa. Portanto, duas relações opostas devem necessariamente referir-se a duas pessoas; e se algumas relações não são opostas, devem pertencer necessariamente à mesma pessoa. Visto que, então, paternidade e filiação são relações opostas, pertencem necessariamente a duas pessoas. Portanto, a paternidade subsistente é a pessoa do Pai; e a filiação subsistente é a pessoa do Filho. As outras duas relações não são opostas entre si; portanto, estas duas não podem pertencer a uma só pessoa: daí que uma delas deve pertencer a ambas as pessoas mencionadas; ou uma deve pertencer a uma pessoa, e a outra à outra. Ora, a processão não pode pertencer ao Pai e ao Filho, ou a qualquer um deles; pois assim se seguiria que a processão do intelecto, que em Deus é geração, donde derivam paternidade e filiação, procederia da processão do amor, donde derivam espiração e processão, se a pessoa que gera e a pessoa gerada procedessem da pessoa que espira; e isto é contra o que foi estabelecido acima (Q[27], AA[3],4). Devemos admitir frequentemente que a espiração pertence à pessoa do Pai e à pessoa do Filho, porquanto não tem oposição relativa nem com a paternidade nem com a filiação; e consequentemente que a processão pertence à outra pessoa, que é chamada pessoa do Espírito Santo, que procede por via de amor, como acima se explicou. Portanto, existem apenas três pessoas em Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. **Resposta à primeira objeção:** Embora haja quatro relações em Deus, uma delas, a espiração, não está separada da pessoa do Pai e do Filho, mas pertence a ambos; assim, embora seja uma relação, não é chamada propriedade, porque não pertence a uma só pessoa; nem é uma relação pessoal — isto é, constitutiva de uma pessoa. As três relações — paternidade, filiação e processão — são chamadas propriedades pessoais, constituindo como que as pessoas; pois a paternidade é a pessoa do Pai, a filiação é a pessoa do Filho, a processão é a pessoa do Espírito Santo que procede. **Resposta à segunda objeção:** Aquilo que procede por via de inteligência, como o verbo, procede segundo a similitude, como também aquilo que procede por via de natureza; assim, como acima se explicou (Q[27], A[3]), a processão do Verbo divino é a mesma que a geração por via de natureza. Mas o amor, como tal, não procede como a similitude daquilo de que procede; embora em Deus o amor seja coessencial por ser divino; e, portanto, a processão do amor não é chamada geração em Deus. **Resposta à terceira objeção:** Assim como o homem é mais perfeito que os outros animais, ele tem mais operações intrínsecas que os outros animais, porque sua perfeição é algo composto. Por isso, os anjos, que são mais perfeitos e mais simples, têm menos operações intrínsecas que o homem, pois não têm imaginação, nem sentimento, ou coisas semelhantes. Em Deus existe apenas uma operação real — isto é, sua essência. Como há nele duas processões, foi explicado acima (Q[27], AA[1],4). **Resposta à quarta objeção:** Este argumento provaria se o Espírito Santo possuísse outra bondade além da bondade do Pai; pois então, se o Pai produz uma pessoa divina por sua bondade, o Espírito Santo também o faria. Mas o Pai e o Espírito Santo têm uma só e mesma bondade. Nem há distinção entre eles senão pelas relações pessoais. Assim, a bondade pertence ao Espírito Santo como derivada de outro; e pertence ao Pai como princípio de sua comunicação a outro. A oposição de relação não permite que a relação do Espírito Santo seja unida com a relação de princípio de outra pessoa divina; porque Ele mesmo procede das outras pessoas que estão em Deus. **Resposta à quinta objeção:** Um número determinado, se tomado como número simples, existente apenas na mente, é medido por um. Mas quando falamos de um número de coisas aplicado às pessoas em Deus, a noção de medida não tem lugar, porque a magnitude das três pessoas é a mesma (Q[42], AA[1],4), e o mesmo não é medido pelo mesmo.
Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether there are more than three persons in God? · séc. XIII
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