Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1.** Parece que a beatitude do homem consiste na glória. Pois a beatitude parece consistir naquilo que é dado aos santos pelas provações que sofreram no mundo. Ora, isto é a glória, porque o Apóstolo diz (Rm 8,18): «Os sofrimentos deste tempo não são dignos de ser comparados com a glória futura que se há de revelar em nós.» Logo, a beatitude consiste na glória. **Objeção 2.** Além disso, o bem difunde-se a si mesmo, como diz Dionísio (Div. Nom. IV). Ora, o bem do homem é difundido no conhecimento dos outros pela glória mais do que por qualquer outra coisa, pois, segundo Ambrósio [Agostinho, *Contra Maxim. Arian.* II,13], a glória consiste «em ser bem conhecido e louvado». Logo, a beatitude do homem consiste na glória. **Objeção 3.** Ademais, a beatitude é o bem mais duradouro. Ora, tal parece ser a fama ou a glória, porque por elas os homens alcançam de certo modo a eternidade. Donde Boécio dizer (De Consol. II): «Pareceis gerar para vós mesmos a eternidade, quando pensais na vossa fama no tempo futuro.» Logo, a beatitude do homem consiste na fama ou glória. **Ao contrário.** A beatitude é o verdadeiro bem do homem. Ora, acontece que a fama ou a glória é falsa; pois, como diz Boécio (De Consol. III), «muitos devem a sua renome às mentiras espalhadas entre o povo. Há algo mais vergonhoso? Pois aqueles que recebem fama falsa necessariamente coram do seu próprio louvor.» Logo, a beatitude do homem não consiste na fama ou glória. **Respondo que** a beatitude do homem não pode consistir na fama ou glória humana. Pois a glória consiste «em ser bem conhecido e louvado», como diz Ambrósio [Agostinho, *Contra Maxim. Arian.* II,13]. Ora, a coisa conhecida está para o conhecimento humano de modo diferente do que está para o conhecimento divino: porque o conhecimento humano é causado pelas coisas conhecidas, ao passo que o conhecimento divino é a causa das coisas conhecidas. Por isso, a perfeição do bem humano, que se chama beatitude, não pode ser causada pelo conhecimento humano; antes, o conhecimento humano da beatitude de outrem procede e, de certo modo, é causado pela própria beatitude humana, incoada ou perfeita. Consequentemente, a beatitude do homem não pode consistir na fama ou glória. Por outro lado, o bem do homem depende do conhecimento divino como sua causa. E, portanto, a beatitude do homem depende, como de sua causa, da glória que o homem tem diante de Deus, conforme o Sl 90,15-16: «Livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei; saciá-lo-ei com longos dias e mostrar-lhe-ei a minha salvação.» Além disso, devemos notar que o conhecimento humano frequentemente falha, especialmente nos singulares contingentes, como são os atos humanos. Por isso, a glória humana é frequentemente enganosa. Mas, como Deus não pode ser enganado, a sua glória é sempre verdadeira; donde está escrito (2 Cor 10,18): «Aprovado é aquele a quem Deus recomenda.» **Resposta à objeção 1.** O Apóstolo fala então não da glória que é com os homens, mas da glória que vem de Deus, com os seus Anjos. Por isso está escrito (Mc 8,38): «O Filho do Homem confessá-lo-á na glória de seu Pai, diante dos seus Anjos.» **Resposta à objeção 2.** O bem do homem que, pela fama ou glória, está no conhecimento de muitos, se esse conhecimento é verdadeiro, deve necessariamente derivar-se do bem que existe no próprio homem; e, portanto, pressupõe a beatitude perfeita ou incoada. Se, porém, o conhecimento é falso, não se harmoniza com a coisa; e assim o bem não existe naquele que é tido por famoso. Donde se conclui que a fama não pode de modo algum fazer o homem feliz. **Resposta à objeção 3.** A fama não tem estabilidade; na verdade, é facilmente arruinada por um falso relato. E se por vezes perdura, é por acidente. Mas a beatitude perdura por si mesma e para sempre.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether man's happiness consists in fame or glory? · séc. XIII
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