Santo Agostinho
Aqueles, porém, que sustentam que ambos, a saber, o fogo e o verme, pertencem às penas da alma, e não do corpo, dizem também que os que são separados do reino de Deus são atormentados, como que por fogo, pelas angústias de uma alma que se arrepende tarde demais e sem esperança; e não sem razão contendem que o fogo pode ser posto por aquela dor ardente, como diz o Apóstolo: «Quem se escandaliza, e eu não me abraso?» [2 Cor 11:29]. Pensam também que pelo verme se deve entender a mesma dor, conforme está dito: «Assim como a traça consome o vestido, e o verme a madeira, assim a dor atormenta o coração do homem.» [Pr 25,20 Vulgata]. Todos aqueles que não hesitam em afirmar que haverá dor tanto do corpo como da alma naquele castigo afirmam que o corpo é queimado pelo fogo. Mas, embora isto seja mais crível, porque é absurdo que ali falte quer a dor do corpo quer a da alma, contudo penso que é mais fácil dizer que ambas pertencem ao corpo do que nenhuma; e, por isso, me parece que a Sagrada Escritura neste lugar se cala acerca das dores da alma, pois daí se segue que a alma também é atormentada nas dores do corpo. Escolha, pois, cada um o que quiser: ou referir o fogo ao corpo e o verme à alma, um propriamente e o outro figuradamente, ou ambos propriamente ao corpo; pois seres vivos podem existir até no fogo, em chamas sem se consumirem, com dor sem morte, pelo maravilhoso poder do Criador Todo-Poderoso. Segue-se: «E se o teu pé te escandalizar, corta-o: melhor te é entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga; onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.»
de Civ. Dei · de Civ. Dei, 21, 9 · séc. V
tradução automática