Santo Thomas Aquinas
Parece que um homem deve, por caridade, amar mais os seus filhos do que o seu pai. Pois devemos amar mais aqueles a quem estamos mais obrigados a fazer o bem. Ora, estamos mais obrigados a fazer o bem aos nossos filhos do que aos nossos pais, pois o Apóstolo diz (2 Coríntios 12,14): "Nem devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos." Logo, um homem deve amar mais os seus filhos do que os seus pais. Ademais, a graça aperfeiçoa a natureza. Ora, os pais amam naturalmente mais os seus filhos do que estes os amam, como afirma o Filósofo (Ética VIII, 12). Logo, um homem deve amar mais os seus filhos do que os seus pais. Ademais, as afeições do homem são conformadas a Deus pela caridade. Ora, Deus ama mais os seus filhos do que eles O amam. Logo, também nós devemos amar mais os nossos filhos do que os nossos pais. Em contrário, Ambrósio [*Orígenes, Hom. ii sobre o Cântico] diz: "Devemos amar primeiramente a Deus, depois os nossos pais, em seguida os nossos filhos e, por último, os da nossa casa." Respondo. Como foi dito acima (a.4, ad 1; a.7), os graus de amor podem ser medidos sob dois aspectos. Primeiro, pelo lado do objeto. Sob este aspecto, quanto melhor é uma coisa e quanto mais semelhante a Deus, tanto mais deve ser amada; e assim um homem deve amar mais o seu pai do que os seus filhos, porque, a saber, ama o seu pai como seu princípio, sob o qual aspecto ele é um bem mais elevado e mais semelhante a Deus. Segundo, os graus de amor podem ser medidos pelo lado do amante, e sob este aspecto um homem ama mais aquilo que lhe é mais estreitamente unido, e deste modo os filhos de um homem são mais amáveis para ele do que o seu pai, como afirma o Filósofo (Ética VIII). Primeiro, porque os pais amam os seus filhos como sendo parte de si mesmos, ao passo que o pai não é parte do filho; por isso o amor do pai para com os seus filhos é mais semelhante ao amor do homem por si mesmo. Segundo, porque os pais sabem melhor que tal e tal é seu filho do que vice-versa. Terceiro, porque os filhos estão mais próximos dos pais, como parte deles, do que os pais estão deles, a quem servem de princípio. Quarto, porque os pais amam por mais tempo, pois o pai começa a amar o filho imediatamente, enquanto o filho começa a amar o pai depois de algum tempo; e quanto mais tempo dura o amor, mais forte ele é, segundo o Eclesiástico 9,14: "Não abandones um amigo antigo, porque o novo não será igual a ele." Resposta à primeira objeção. A dívida devida ao princípio é de sujeição, respeito e honra, ao passo que a devida ao efeito é de influência e cuidado. Por isso, o dever dos filhos para com os pais consiste principalmente na honra; enquanto o dos pais para com os filhos é especialmente de cuidado. Resposta à segunda objeção. É natural que um homem, como pai, ame mais os seus filhos, se os considerarmos como estreitamente unidos a ele; mas se considerarmos qual é o bem mais elevado, o filho ama naturalmente mais o seu pai. Resposta à terceira objeção. Como diz Agostinho (Da Doutrina Cristã I, 32), Deus nos ama para o nosso bem e para a sua honra. Por isso, visto que nosso pai está para nós como princípio, assim como Deus, pertence propriamente ao pai receber honra de seus filhos, e aos filhos receber dos pais o que lhes é bom. Contudo, em caso de necessidade, o filho está obrigado, pelos benefícios recebidos, a prover antes de todos os seus pais.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 9 - Whether a man ought, out of charity, to love his children more than his father? · séc. XIII
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