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2Cor 12, 2

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Matos Soares

2Conheço um homem em Cristo, o qual há catorze anos foi arrebatado, não sei se no corpo, se fora do corpo, (Deus o sabe) até ao terceiro céu.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que os anjos não conhecem as coisas materiais. Pois o objeto entendido é a perfeição daquele que o entende. Mas as coisas materiais não podem ser perfeições dos anjos, uma vez que lhes são inferiores. Portanto, os anjos não conhecem as coisas materiais. Objeção 2: Além disso, a visão intelectual é apenas das coisas que existem na alma por sua essência, como se diz na glosa [*Sobre 2 Cor 12,2, tirada de Agostinho (Gên. ad lit. xii, 28)]. Mas as coisas materiais não podem entrar por sua essência na alma do homem, nem na mente do anjo. Portanto, não podem ser conhecidas por visão intelectual, mas apenas por visão imaginária, pela qual as imagens dos corpos são apreendidas, e por visão sensível, que considera os corpos em si mesmos. Ora, nos anjos não há nem visão imaginária nem sensível, mas apenas intelectual. Logo, os anjos não podem conhecer as coisas materiais. Objeção 3: Ademais, as coisas materiais não são atualmente inteligíveis, mas são cognoscíveis pela apreensão do sentido e da imaginação, que não existe nos anjos. Logo, os anjos não conhecem as coisas materiais. Ao contrário, o que a potência inferior pode fazer, a superior também o pode. Mas o intelecto do homem, que na ordem da natureza é inferior ao do anjo, pode conhecer as coisas materiais. Logo, muito mais pode a mente de um anjo. Respondo que a ordenação estabelecida das coisas é que os seres superiores sejam mais perfeitos que os inferiores; e que aquilo que nos seres inferiores está contido deficientemente, parcialmente e de modo múltiplo, esteja contido nos superiores eminentemente, e em certo grau de plenitude e simplicidade. Portanto, em Deus, como na fonte suprema das coisas, todas as coisas pré-existem supersubstancialmente em relação ao seu próprio ser simples, como diz Dionísio (Nomes Divinos, 1). Mas entre as outras criaturas, os anjos são os mais próximos de Deus e mais O assemelham; por isso participam mais plenamente e mais perfeitamente da bondade divina, como diz Dionísio (Hierarquia Celeste, iv). Consequentemente, todas as coisas materiais pré-existem nos anjos mais simplesmente e menos materialmente do que nelas mesmas, ainda que de modo mais múltiplo e menos perfeitamente do que em Deus. Ora, tudo o que existe em um sujeito está contido nele segundo o modo daquele sujeito. Mas os anjos são seres intelectuais por sua própria natureza. Portanto, assim como Deus conhece as coisas materiais por sua essência, assim também os anjos as conhecem, na medida em que elas estão nos anjos por suas espécies inteligíveis. Resposta à Objeção 1: A coisa entendida é a perfeição daquele que entende, em razão da espécie inteligível que ele tem em seu intelecto. E assim as espécies inteligíveis que estão no intelecto de um anjo são perfeições e atos em relação àquele intelecto. Resposta à Objeção 2: O sentido não apreende as essências das coisas, mas apenas seus acidentes exteriores. Do mesmo modo, nem a imaginação; pois apreende apenas as imagens dos corpos. Somente o intelecto apreende as essências das coisas. Por isso se diz (De Anima iii, text. 26) que o objeto do intelecto é "o que a coisa é", a respeito do qual não erra; assim como o sentido não erra a respeito de seu objeto sensível próprio. Portanto, as essências das coisas materiais estão no intelecto do homem e dos anjos, como a coisa entendida está naquele que entende, e não segundo suas naturezas reais. Mas algumas coisas estão em um intelecto ou na alma segundo ambas as naturezas; e em ambos os casos há visão intelectual. Resposta à Objeção 3: Se um anjo extraísse o seu conhecimento das coisas materiais das próprias coisas materiais, ele precisaria torná-las atualmente inteligíveis por um processo de abstração. Mas ele não deriva o seu conhecimento delas das próprias coisas materiais; ele tem conhecimento das coisas materiais por espécies das coisas atualmente inteligíveis, as quais espécies lhe são conaturais; assim como o nosso intelecto tem conhecimento por espécies que ele torna inteligíveis por abstração.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether the angels know material things? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a alma do homem não é arrebatada às coisas divinas. Pois alguns definem o arrebatamento como "uma elevação pelo poder de uma natureza superior, daquilo que é segundo a natureza para aquilo que é acima da natureza" [*Referência desconhecida; Cf. De Veritate xiii, 1]. Ora, é conforme à natureza do homem ser elevado às coisas divinas; pois Agostinho diz no início de suas Confissões: "Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e inquieto está o nosso coração, até que descanse em Ti." Logo, a alma do homem não é arrebatada às coisas divinas. Objeção 2: Ademais, Dionísio diz (Div. Nom. viii) que "a justiça de Deus vê-se nisto: que Ele trata todas as coisas segundo seu modo e dignidade." Mas não é conforme ao modo e dignidade do homem ser elevado acima daquilo que é segundo a natureza. Logo, parece que a alma do homem não é arrebatada às coisas divinas. Objeção 3: Ademais, arrebatamento denota violência de algum tipo. Mas Deus não nos governa por violência ou força, como diz Damascono [*De Fide Orth. ii, 30]. Logo, a alma do homem não é arrebatada às coisas divinas. Ao contrário, o Apóstolo diz (2 Cor. 12,2): "Conheço um homem em Cristo... arrebatado até ao terceiro céu." Sobre o que uma Glosa diz: "Arrebatado, isto é, elevado contra a natureza." Respondo: Arrebatamento denota violência de um certo tipo, como se disse acima (OBJ[3]); e "o violento é aquilo que tem seu princípio externo, e no qual aquele que sofre violência de modo algum concorre" (Ethic. iii, 1). Ora, tudo concorre para aquilo a que tende segundo sua inclinação própria, seja voluntária ou natural. Por onde, aquele que é levado por algum agente externo deve ser levado a algo diferente daquilo a que sua inclinação tende. Essa diferença surge de dois modos: de um modo, pelo fim da inclinação — por exemplo, uma pedra, que é naturalmente inclinada a ser levada para baixo, pode ser lançada para cima; de outro modo, pelo modo de tender — por exemplo, uma pedra pode ser lançada para baixo com velocidade maior do que a que é consistente com seu movimento natural. Assim, também a alma do homem se diz arrebatada, de dupla maneira, àquilo que é contrário à sua natureza: de um modo, quanto ao termo do transporte — como quando é levada ao castigo, segundo o Salmo 49,22: "Para que vos não arrebate, e não haja quem vos livre"; de outro modo, quanto ao modo conatural ao homem, que é entender a verdade através das coisas sensíveis. Por isso, quando é retirada da apreensão dos sensíveis, diz-se arrebatada, ainda que seja elevada a coisas para as quais é dirigida naturalmente; contanto que isto não seja feito intencionalmente, como quando o homem se entrega ao sono, que é conforme à natureza, pelo que o sono não pode propriamente chamar-se arrebatamento. Esta retirada, qualquer que seja o seu termo, pode provir de uma causa tríplice. Primeiro, de uma causa corporal, como acontece aos que sofrem abstração dos sentidos por fraqueza; segundo, pelo poder dos demônios, como nos possessos; terceiro, pelo poder de Deus. Neste último sentido falamos agora do arrebatamento, pelo qual o homem é elevado pelo espírito de Deus às coisas sobrenaturais e retirado dos sentidos, segundo Ezequiel 8,3: "O espírito me levantou entre a terra e o céu, e me levou em visão de Deus a Jerusalém." Deve-se notar, todavia, que às vezes alguém se diz arrebatado, não só por ser retirado dos sentidos, mas também por ser retirado das coisas a que estava atento, como quando a mente duma pessoa vagueia contra seu propósito. Mas isso é usar a expressão em sentido menos próprio. Resposta à objeção 1: É natural ao homem tender às coisas divinas mediante a apreensão das coisas sensíveis, segundo Romanos 1,20: "Porque as suas coisas invisíveis... se vêem, sendo entendidas pelas coisas que são feitas." Mas o modo pelo qual o homem é elevado às coisas divinas e retirado dos sentidos não é natural ao homem. Resposta à objeção 2: Pertence ao modo e dignidade do homem ser elevado às coisas divinas, pelo próprio fato de ter sido feito à imagem de Deus. E, uma vez que um bem divino supera infinitamente a faculdade do homem para alcançá-lo, ele necessita do auxílio divino, que lhe é concedido em todo dom da graça. Por isso, não é contra a natureza, mas acima da faculdade da natureza, que a mente do homem seja assim elevada em arrebatamento por Deus. Resposta à objeção 3: O dito de Damascono refere-se àquelas coisas que o homem faz por si mesmo. Mas, quanto às coisas que estão além do âmbito do livre-arbítrio, o homem precisa ser elevado por uma operação mais forte, que em certo sentido pode chamar-se força, se considerarmos o modo de operar, mas não se considerarmos o termo para o qual o homem é dirigido tanto pela natureza como pela sua intenção.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the soul of man is carried away to things divine? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que Paulo, quando em arrebatamento, não viu a essência de Deus. Pois, assim como lemos de Paulo que foi arrebatado ao terceiro céu, assim também lemos de Pedro (Atos 10,10) que "sobreveio-lhe um êxtase de mente". Ora, Pedro, no seu êxtase, não viu a essência de Deus, mas uma visão imaginária. Logo, parece que nem Paulo viu a essência de Deus. Objecção 2: Demais, a visão de Deus é beatífica. Mas Paulo, no seu arrebatamento, não foi beatificado; doutra sorte nunca teria voltado à infelicidade desta vida, mas o seu corpo teria sido glorificado pela redundância da sua alma, como sucederá aos santos depois da ressurreição, e isto claramente não se deu. Portanto, Paulo, quando em arrebatamento, não viu a essência de Deus. Objecção 3: Demais, segundo 1 Coríntios 13,10-12, a fé e a esperança são incompatíveis com a visão da essência divina. Mas Paulo, quando estava neste estado, tinha fé e esperança. Logo, não viu a essência de Deus. Objecção 4: Demais, como diz Agostinho (Gen. ad lit. XII, 6,7), "as imagens dos corpos são vistas na visão imaginária". Ora, diz-se que Paulo (2 Coríntios 12,2.4) viu certas imagens no seu arrebatamento, por exemplo, do "terceiro céu" e do "paraíso". Portanto, parece ter sido arrebatado a uma visão imaginária, antes que à visão da essência divina. Mas, em contrário, Agostinho (Ep. CXLVII, 13; ad Paulin. de videndo Deum) conclui que "possivelmente a própria substância de Deus foi vista por alguns ainda nesta vida: por exemplo, por Moisés, e por Paulo que, em arrebatamento, ouviu palavras inefáveis, que não é concedido ao homem proferir". Respondo que alguns disseram que Paulo, quando em arrebatamento, viu "não a própria essência de Deus, mas um certo reflexo da sua claridade". Mas Agostinho claramente chega a uma decisão oposta, não só no seu livro (De videndo Deum), mas também em Gen. ad lit. XII, 28 (citado numa glosa a 2 Coríntios 12,2). Na verdade, as próprias palavras do Apóstolo o indicam. Pois ele diz que "ouviu palavras secretas, que não é concedido ao homem proferir"; e tais parecem ser palavras pertencentes à visão dos bem-aventurados, que transcende o estado do viajor, segundo Isaías 64,4: "Olhos não viram, ó Deus, senão a Ti, as coisas que preparaste para os que te amam [Vulg.: 'esperam em ti']" [*1 Coríntios 2,9]. Portanto, é mais conveniente sustentar que ele viu a Deus na sua essência. Resposta à Objecção 1: A mente do homem é arrebatada por Deus à contemplação da verdade divina de três modos. Primeiro, de modo que a contemple através de certas imagens imaginárias, e tal foi o êxtase que sobreveio a Pedro. Segundo, de modo que contemple a verdade divina através dos seus efeitos inteligíveis; tal foi o êxtase de Davi, que disse (Salmo 115,11): "Eu disse no meu excesso: Todo homem é mentiroso." Terceiro, de modo que a contemple na sua essência. Tal foi o arrebatamento de Paulo, como também o de Moisés [*Cf. Q[174], A[4]]; e não sem razão, pois assim como Moisés foi o primeiro Mestre dos judeus, assim Paulo foi o primeiro "Mestre dos gentios" [*Cf. FP, Q[68], A[4]]. Resposta à Objecção 2: A essência divina não pode ser vista por um intelecto criado senão através da luz da glória, da qual está escrito (Salmo 35,10): "Na tua luz veremos a luz." Ora, esta luz pode ser participada de dois modos. Primeiro, a modo de forma permanente, e assim beatifica os santos no céu. Segundo, a modo de paixão transitória, como se disse acima (Q[171], A[2]) a respeito da luz da profecia; e deste modo estava aquela luz em Paulo quando ele estava em arrebatamento. Portanto, esta visão não o beatificou simplesmente, de modo a redundar no seu corpo, mas apenas em um sentido restrito. Consequentemente, este arrebatamento pertence de algum modo à profecia. Resposta à Objecção 3: Visto que, no seu arrebatamento, Paulo foi beatificado não quanto ao hábito, mas apenas quanto ao ato dos bem-aventurados, segue-se que ele não tinha ao mesmo tempo o ato de fé, embora tivesse o hábito. Resposta à Objecção 4: De um modo, pelo terceiro céu podemos entender algo corpóreo, e assim o terceiro céu designa o empíreo [*1 Timóteo 2,7; Cf. FP, Q[12], A[11], ad 2], que é descrito como "terceiro" em relação ao céu aéreo e ao estelar, ou melhor ainda, em relação ao céu aquoso e ao cristalino. Além disso, diz-se que Paulo foi arrebatado ao "terceiro céu", não como se o seu arrebatamento consistisse na visão de algo corpóreo, mas porque este lugar é designado para a contemplação dos bem-aventurados. Por isso, a glosa a 2 Coríntios 12 diz que o "terceiro céu é um céu espiritual, onde os anjos e as almas santas gozam da contemplação de Deus: e quando Paulo diz que foi arrebatado a este céu, significa que Deus lhe mostrou a vida na qual Ele há de ser visto para sempre." De outro modo, o terceiro céu pode significar uma visão supramundana. Tal visão pode ser chamada de terceiro céu de três modos. Primeiro, segundo a ordem das potências cognoscitivas. Deste modo, o primeiro céu indicaria uma visão corporal supramundana, transmitida pelos sentidos; assim foi vista a mão que escrevia na parede (Daniel 5,5); o segundo céu seria uma visão imaginária, como a que viram Isaías e João no Apocalipse; e o terceiro céu designaria uma visão intelectual, segundo a explicação de Agostinho (Gen. ad lit. XII, 26.28.34). Segundo, o terceiro céu pode ser tomado segundo a ordem das coisas cognoscíveis, sendo o primeiro céu "o conhecimento dos corpos celestes, o segundo o conhecimento dos espíritos celestes, o terceiro o conhecimento do próprio Deus". Terceiro, o terceiro céu pode designar a contemplação de Deus segundo os graus do conhecimento pelos quais Deus é visto. O primeiro destes graus pertence aos anjos da hierarquia inferior [*Cf. FP, Q[108], A[1]], o segundo aos anjos da hierarquia média, o terceiro aos anjos da hierarquia superior, segundo a glosa a 2 Coríntios 12. E porque a visão de Deus não pode ser sem deleite, ele diz que foi arrebatado não só "ao terceiro céu" por causa da sua contemplação, mas também ao "Paraíso" por causa do deleite consequente.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether Paul, when in rapture, saw the essence of God? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que Paulo não ignorava se sua alma estava separada do corpo. Porque diz (2 Cor 12,2): «Conheço um homem em Cristo arrebatado até ao terceiro céu.» Ora, «homem» designa algo composto de alma e corpo; e o arrebatamento difere da morte. Logo, aparentemente sabia que sua alma não estava separada do corpo pela morte, o que é tanto mais provável quanto esta é a opinião comum dos Doutores. **Objeção 2:** Além disso, das mesmas palavras do Apóstolo se vê que ele sabia para onde fora arrebatado, pois foi «até ao terceiro céu». Ora, isto mostra que ele sabia se estava no corpo ou não, porque, se conhecia o terceiro céu como algo corpóreo, necessariamente sabia que sua alma não estava separada do corpo, já que uma coisa corpórea não pode ser vista senão pelo corpo. Portanto, parece que não ignorava se sua alma estava separada do corpo. **Objeção 3:** Ademais, Agostinho diz (Gen. ad lit. XII, 28) que «quando arrebatado, viu a Deus com a mesma visão com que os santos o veem no céu». Ora, pelo próprio fato de verem a Deus, os santos sabem se sua alma está separada do corpo. Logo, Paulo também o sabia. **Em contrário,** está escrito (2 Cor 12,3): «Se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe.» **Respondo.** A verdadeira resposta a esta questão deve ser coligida das próprias palavras do Apóstolo, pelas quais ele diz que sabia algo, a saber, que fora «arrebatado até ao terceiro céu», e que algo ignorava, a saber, «se» estava «no corpo ou fora do corpo». Isto pode ser entendido de dois modos. Primeiro, as palavras «se no corpo ou fora do corpo» podem referir-se não ao próprio ser do homem que foi arrebatado (como se ignorasse se sua alma estava no corpo ou não), mas ao modo do arrebatamento, de modo que ignorasse se seu corpo, além da alma, ou, ao contrário, apenas sua alma, foi arrebatado ao terceiro céu. Assim, diz-se que Ezequiel foi «levado em visão de Deus a Jerusalém» (Ez 8,3). Esta foi a explicação de certo judeu, segundo Jerônimo (Prolog. super Daniel.), onde diz: «Finalmente, o nosso Apóstolo – disse o judeu – não ousou afirmar que foi arrebatado em corpo, mas disse: "Se no corpo ou fora do corpo, não sei."» Agostinho, todavia, desaprova esta explicação (Gen. ad lit. XII, 3 seg.), por esta razão: o Apóstolo afirma que sabia ter sido arrebatado até ao terceiro céu. Donde, sabia que era realmente o terceiro céu ao qual foi arrebatado, e não uma imagem fictícia do terceiro céu; de outro modo, se desse o nome de terceiro céu a um terceiro céu imaginário, poderia igualmente afirmar que foi arrebatado em corpo, significando por «corpo» uma imagem de seu corpo, como aparece nos sonhos. Ora, se ele sabia que era realmente o terceiro céu, segue-se que ou sabia que era algo espiritual e incorpóreo, e então seu corpo não poderia ser arrebatado para lá; ou sabia que era algo corpóreo, e então sua alma não poderia ser arrebatada para lá sem seu corpo, a menos que estivesse separada dele. Consequentemente, devemos explicar a questão de outro modo, dizendo que o Apóstolo sabia ter sido arrebatado tanto em alma quanto em corpo, mas ignorava como sua alma estava em relação ao seu corpo, a saber, se acompanhada pelo corpo ou não. Aqui encontramos diversidade de opiniões. Pois alguns dizem que o Apóstolo sabia que sua alma estava unida ao corpo como sua forma, mas ignorava se estava abstraída dos sentidos, ou ainda se estava abstraída das operações da alma vegetativa. Mas não podia deixar de saber que estava abstraída dos sentidos, visto que sabia ter sido arrebatado; e quanto à abstração da operação da alma vegetativa, isto não era de tal importância que exigisse tão cuidadosa menção. Segue-se, então, que o Apóstolo ignorava se sua alma estava unida ao corpo como sua forma, ou separada dele pela morte. Alguns, todavia, concedendo isto, dizem que o Apóstolo não considerou a questão enquanto estava em arrebatamento, porque estava todo intento em Deus, mas depois indagou sobre o ponto, quando tomou conhecimento do que vira. Mas isto também é contrário às palavras do Apóstolo, pois ele distingue ali entre o passado e o que ocorreu subsequentemente, visto que afirma que no presente sabe que foi arrebatado «há catorze anos», e que no presente ignora «se estava no corpo ou fora do corpo». Por conseguinte, devemos afirmar que tanto antes como depois ignorava se sua alma estava separada do corpo. Por isso, Agostinho (Gen. ad lit. XII, 5), após longa discussão sobre a questão, conclui: «Talvez, então, devamos inferir que ele ignorava se, quando foi arrebatado ao terceiro céu, sua alma estava em seu corpo (do mesmo modo que a alma está no corpo, quando falamos de um corpo vivo, quer de um homem acordado, quer de um homem dormindo, quer de um que, em êxtase, está retraído dos sentidos corporais), ou se a alma saiu inteiramente do corpo, de modo que seu corpo jazia morto.» **Resposta à Objeção 1:** Às vezes, pela figura de linguagem chamada sinédoque, uma parte do homem, especialmente a alma, que é a parte principal, designa o homem; ou ainda poderíamos entender que aquele que ele afirma ter sido arrebatado era homem não no tempo do arrebatamento, mas catorze anos depois: pois diz «conheço um homem», não «conheço um homem arrebatado». Além disso, nada impede que a morte causada por Deus seja chamada de arrebatamento; e assim Agostinho diz (Gen. ad lit. XII, 3): «Se o Apóstolo duvidou da questão, qual de nós ousará estar certo acerca dela?» Por isso, aqueles que têm algo a dizer sobre este assunto falam mais com conjectura do que com certeza. **Resposta à Objeção 2:** O Apóstolo sabia que ou o céu em questão era algo incorpóreo, ou que viu algo incorpóreo naquele céu; todavia, isto podia ser feito pelo seu intelecto, mesmo sem sua alma estar separada do corpo. **Resposta à Objeção 3:** A visão de Paulo, enquanto estava em arrebatamento, foi semelhante à visão dos bem-aventurados em um aspecto, a saber, quanto à coisa vista; e dessemelhante em outro aspecto, a saber, quanto ao modo de ver, porque ele não viu tão perfeitamente como os santos no céu. Por isso, Agostinho diz (Gen. ad lit. XII, 36): «Embora, quando o Apóstolo foi arrebatado dos sentidos carnais ao terceiro céu, lhe faltasse aquela plena e perfeita ciência das coisas que há nos anjos, porquanto não sabia se estava no corpo ou fora do corpo, certamente isto não faltará após a reunião com o corpo na ressurreição dos mortos, quando este corruptível se revestir de incorrupção.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Did Paul know whether his soul were separated from his body? · séc. XIII

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