Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os anjos não conhecem as coisas materiais. Pois o objeto entendido é a perfeição daquele que o entende. Mas as coisas materiais não podem ser perfeições dos anjos, uma vez que lhes são inferiores. Portanto, os anjos não conhecem as coisas materiais. Objeção 2: Além disso, a visão intelectual é apenas das coisas que existem na alma por sua essência, como se diz na glosa [*Sobre 2 Cor 12,2, tirada de Agostinho (Gên. ad lit. xii, 28)]. Mas as coisas materiais não podem entrar por sua essência na alma do homem, nem na mente do anjo. Portanto, não podem ser conhecidas por visão intelectual, mas apenas por visão imaginária, pela qual as imagens dos corpos são apreendidas, e por visão sensível, que considera os corpos em si mesmos. Ora, nos anjos não há nem visão imaginária nem sensível, mas apenas intelectual. Logo, os anjos não podem conhecer as coisas materiais. Objeção 3: Ademais, as coisas materiais não são atualmente inteligíveis, mas são cognoscíveis pela apreensão do sentido e da imaginação, que não existe nos anjos. Logo, os anjos não conhecem as coisas materiais. Ao contrário, o que a potência inferior pode fazer, a superior também o pode. Mas o intelecto do homem, que na ordem da natureza é inferior ao do anjo, pode conhecer as coisas materiais. Logo, muito mais pode a mente de um anjo. Respondo que a ordenação estabelecida das coisas é que os seres superiores sejam mais perfeitos que os inferiores; e que aquilo que nos seres inferiores está contido deficientemente, parcialmente e de modo múltiplo, esteja contido nos superiores eminentemente, e em certo grau de plenitude e simplicidade. Portanto, em Deus, como na fonte suprema das coisas, todas as coisas pré-existem supersubstancialmente em relação ao seu próprio ser simples, como diz Dionísio (Nomes Divinos, 1). Mas entre as outras criaturas, os anjos são os mais próximos de Deus e mais O assemelham; por isso participam mais plenamente e mais perfeitamente da bondade divina, como diz Dionísio (Hierarquia Celeste, iv). Consequentemente, todas as coisas materiais pré-existem nos anjos mais simplesmente e menos materialmente do que nelas mesmas, ainda que de modo mais múltiplo e menos perfeitamente do que em Deus. Ora, tudo o que existe em um sujeito está contido nele segundo o modo daquele sujeito. Mas os anjos são seres intelectuais por sua própria natureza. Portanto, assim como Deus conhece as coisas materiais por sua essência, assim também os anjos as conhecem, na medida em que elas estão nos anjos por suas espécies inteligíveis. Resposta à Objeção 1: A coisa entendida é a perfeição daquele que entende, em razão da espécie inteligível que ele tem em seu intelecto. E assim as espécies inteligíveis que estão no intelecto de um anjo são perfeições e atos em relação àquele intelecto. Resposta à Objeção 2: O sentido não apreende as essências das coisas, mas apenas seus acidentes exteriores. Do mesmo modo, nem a imaginação; pois apreende apenas as imagens dos corpos. Somente o intelecto apreende as essências das coisas. Por isso se diz (De Anima iii, text. 26) que o objeto do intelecto é "o que a coisa é", a respeito do qual não erra; assim como o sentido não erra a respeito de seu objeto sensível próprio. Portanto, as essências das coisas materiais estão no intelecto do homem e dos anjos, como a coisa entendida está naquele que entende, e não segundo suas naturezas reais. Mas algumas coisas estão em um intelecto ou na alma segundo ambas as naturezas; e em ambos os casos há visão intelectual. Resposta à Objeção 3: Se um anjo extraísse o seu conhecimento das coisas materiais das próprias coisas materiais, ele precisaria torná-las atualmente inteligíveis por um processo de abstração. Mas ele não deriva o seu conhecimento delas das próprias coisas materiais; ele tem conhecimento das coisas materiais por espécies das coisas atualmente inteligíveis, as quais espécies lhe são conaturais; assim como o nosso intelecto tem conhecimento por espécies que ele torna inteligíveis por abstração.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether the angels know material things? · séc. XIII
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