Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1.** Parece que aquilo que é visto em Deus por aqueles que veem a essência divina é visto por meio de alguma semelhança. Porque toda espécie de conhecimento se dá mediante a assimilação do cognoscente ao objeto conhecido. Pois assim o intelecto em ato se torna o inteligível em ato, e o sentido em ato se torna o sensível em ato, na medida em que é informado por uma semelhança do objeto, como o olho pela semelhança da cor. Portanto, se o intelecto de quem vê a essência divina entende alguma criatura em Deus, ele deve ser informado pelas suas semelhanças. **Objeção 2.** Ademais, o que vimos retemos na memória. Ora, Paulo, vendo a essência de Deus enquanto em êxtase, quando cessou de ver a essência divina, como diz Agostinho (Gen. ad lit. ii, 28,34), recordou-se de muitas coisas que vira no arrebatamento; por isso disse: "Ouvi palavras secretas que não é concedido ao homem proferir" (2 Cor. 12,4). Logo, é necessário afirmar que certas semelhanças daquilo de que se recordava permaneceram na sua mente; e, da mesma forma, quando realmente via a essência de Deus, tinha certas semelhanças ou razões daquilo que via nela. **Em contrário.** Um espelho e o que nele está são vistos por meio de uma única semelhança. Ora, todas as coisas são vistas em Deus como num espelho inteligível. Portanto, se o próprio Deus não é visto por nenhuma semelhança, mas pela sua própria essência, também as coisas vistas nele não são vistas por quaisquer semelhanças ou razões. **Respondo que.** Os que veem a essência divina veem o que veem em Deus não por alguma semelhança, mas pela própria essência divina unida ao seu intelecto. Pois cada coisa é conhecida na medida em que a sua semelhança está no cognoscente. Ora, isto se dá de dois modos. Pois, assim como as coisas que são semelhantes a uma mesma coisa são semelhantes entre si, a faculdade cognitiva pode ser assimilada a qualquer objeto cognoscível de dois modos. De um modo, ela é assimilada pelo próprio objeto, quando é diretamente informada por uma semelhança, e então o objeto é conhecido em si mesmo. De outro modo, quando é informada por uma semelhança que se assemelha ao objeto; e deste modo, o conhecimento não é da coisa em si, mas da coisa na sua semelhança. Pois o conhecimento de um homem em si mesmo difere do conhecimento dele na sua imagem. Por conseguinte, conhecer as coisas assim pela sua semelhança no cognoscente é conhecê-las em si mesmas ou na sua própria natureza; ao passo que conhecê-las pelas suas semelhanças preexistentes em Deus é vê-las em Deus. Ora, há diferença entre estas duas espécies de conhecimento. Por isso, segundo o conhecimento pelo qual as coisas são conhecidas por aqueles que veem a essência de Deus, elas são vistas no próprio Deus não por outras semelhanças, mas unicamente pela essência divina presente ao intelecto; pela qual também o próprio Deus é visto. **Resposta à primeira objeção.** O intelecto criado de quem vê a Deus é assimilado ao que é visto em Deus na medida em que está unido à essência divina, na qual preexistem as semelhanças de todas as coisas. **Resposta à segunda objeção.** Algumas das faculdades cognitivas formam outras imagens a partir das primeiras concebidas; assim, a imaginação, a partir das imagens previamente concebidas de um monte e de ouro, pode formar a semelhança de um monte de ouro; e o intelecto, a partir das razões previamente concebidas de gênero e diferença, forma a razão de espécie; de igual modo, a partir da semelhança de uma imagem, podemos formar em nossa mente a semelhança do original da imagem. Assim, Paulo, ou qualquer outra pessoa que vê a Deus, pela própria visão da essência divina pode formar em si mesmo as semelhanças do que é visto na essência divina, as quais permaneceram em Paulo mesmo quando cessara de ver a essência de Deus. Todavia, esta espécie de visão pela qual as coisas são vistas por esta semelhança assim concebida não é a mesma pela qual as coisas são vistas em Deus.
Summa Theologiae — First Part · Article. 9 - Whether what is seen in God by those who see the Divine essence, is seen through any similitude? · séc. XIII
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