Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Cristo não devia ter operado milagres. Porque as obras de Cristo deviam ser conformes às suas palavras. Mas Ele próprio disse (S. Mateus 16,4): «Uma geração má e adúltera pede um sinal; e não lhe será dado sinal, senão o sinal do profeta Jonas.» Logo, não devia ter operado milagres. Objeção 2: Além disso, assim como Cristo, na sua segunda vinda, há de vir «com» grande poder e majestade, como está escrito (S. Mateus 24,30), assim na sua primeira vinda veio em fraqueza, segundo (Isaías 53,3): «Varão de dores, e experimentado em fraquezas.» Ora, a operação de milagres pertence ao poder, não à fraqueza. Logo, não convinha que operasse milagres na sua primeira vinda. Objeção 3: Além disso, Cristo veio para salvar os homens pela fé, segundo (Hebreus 12,2): «Olhando para Jesus, autor e consumador da fé.» Mas os milagres diminuem o mérito da fé; por isso o Senhor diz (S. João 4,48): «Se não virdes sinais e prodígios, não credes.» Logo, parece que Cristo não devia ter operado milagres. Em contrário, foi dito na pessoa dos seus adversários (S. João 11,47): «Que faremos? porque este homem faz muitos milagres.» Respondo que Deus capacita o homem a operar milagres por duas razões. Primeira e principalmente, para confirmação da doutrina que ele ensina. Pois, como as coisas da fé excedem a razão humana, não podem ser provadas por argumentos humanos, mas necessitam ser provadas pelo argumento do poder divino: de modo que, quando um homem faz obras que só Deus pode fazer, cremos que o que diz vem de Deus; assim como, quando alguém é portador de cartas seladas com o anel do rei, crê-se que o que contêm exprime a vontade do rei. Segundamente, para dar a conhecer a presença de Deus em um homem pela graça do Espírito Santo: de modo que, quando um homem faz as obras de Deus, cremos que Deus habita nele pela sua graça. Por isso está escrito (Gálatas 3,5): «Aquele que vos dá o Espírito, e opera milagres entre vós.» Ora, ambas estas coisas deviam ser dadas a conhecer aos homens acerca de Cristo — a saber, que Deus habitava nele por graça, não de adoção, mas de união; e que a sua doutrina sobrenatural era de Deus. E portanto era muito conveniente que ele operasse milagres. Por isso ele mesmo diz (S. João 10,38): «Se não quiserdes crer em mim, crede nas obras»; e (S. João 5,36): «As obras que o Pai me deu para aperfeiçoar… elas mesmas… dão testemunho de mim.» Resposta à primeira objeção: Estas palavras, «não lhe será dado sinal, senão o sinal de Jonas», significam, como diz Crisóstomo (Hom. 43 sobre S. Mateus), que «eles não receberam o sinal que pediam, isto é, do céu»; mas não que ele não lhes desse nenhum sinal. Ou que «ele operou sinais não por causa daqueles que sabia estarem endurecidos, mas para emendar outros». Portanto, aqueles sinais foram dados, não a eles, mas a outros. Resposta à segunda objeção: Embora Cristo tenha vindo «na fraqueza» da carne, que se manifesta nas paixões, veio contudo «no poder de Deus» [cfr. 2 Coríntios 13,4], e isto devia manifestar-se pelos milagres. Resposta à terceira objeção: Os milagres diminuem o mérito da fé na medida em que se mostram duros de coração aqueles que não querem crer no que é provado pelas Escrituras a menos que (sejam convencidos) por milagres. Contudo é melhor que eles sejam convertidos à fé até mesmo por milagres do que permaneçam totalmente na sua incredulidade. Pois está escrito (1 Coríntios 14,22) que os sinais são dados «aos incrédulos», isto é, para que sejam convertidos à fé.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether Christ should have worked miracles? · séc. XIII
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