Santo Thomas Aquinas
Artigo 4 — Se a desesperança procede da acídia? Objeção 1: Parece que a desesperança não procede da acídia. Porque causas diversas não dão origem a um mesmo efeito. Ora, a desesperança da vida futura procede da luxúria, segundo Gregório (Moral. xxxi, 45). Logo, não procede da acídia. Objeção 2: Ademais, assim como a desesperança é contrária à esperança, assim a acídia é contrária à alegria espiritual. Ora, a alegria espiritual nasce da esperança, segundo Rom. 12,12: "Alegrai-vos na esperança". Logo, a acídia nasce da desesperança, e não vice-versa. Objeção 3: Ademais, efeitos contrários têm causas contrárias. Ora, a esperança, cujo contrário é a desesperança, parece proceder da consideração dos favores divinos, especialmente da Encarnação, pois Agostinho diz (De Trin. xiii, 10): "Nada foi tão necessário para levantar nossa esperança do que mostrar-nos quanto Deus nos ama. Ora, que maior prova poderíamos ter disto do que o Filho de Deus ter-Se dignado unir-Se à nossa natureza?" Portanto, a desesperança procede antes da negligência da consideração acima do que da acídia. Em contrário, Gregório (Moral. xxxi, 45) considera a desesperança entre os efeitos da acídia. Respondo que, como foi dito acima (Q. 17, a. 1; Iª-IIae, Q. 40, a. 1), o objeto da esperança é um bem árduo, mas possível de alcançar por si mesmo ou por outro. Consequentemente, a esperança de alcançar a felicidade pode faltar a uma pessoa de duas maneiras: primeiro, por não considerá-lo um bem árduo; segundo, por considerá-lo impossível de alcançar, quer por si mesmo, quer por outro. Ora, o fato de os bens espirituais já não nos saberem bem, ou parecerem bens de pouca monta, deve-se principalmente ao fato de nossas afecções estarem infectadas pelo amor dos prazeres corporais, entre os quais os prazeres sexuais ocupam o primeiro lugar: pois o amor desses prazeres leva o homem a ter aversão pelas coisas espirituais e a não esperá-las como bens árduos. Deste modo, a desesperança é causada pela luxúria. Por outro lado, o fato de um homem considerar um bem árduo impossível de alcançar, quer por si mesmo, quer por outro, deve-se a estar demasiadamente abatido, porque, quando este estado de espírito domina suas afecções, parece-lhe que nunca poderá elevar-se a nenhum bem. E como a acídia é uma tristeza que abate o espírito, deste modo a desesperança nasce da acídia. Ora, este é o objeto próprio da esperança — que a coisa seja possível, porque o bem e o árduo dizem respeito também a outras paixões. Portanto, a desesperança nasce da acídia de modo mais próprio: embora possa surgir da luxúria, pela razão já dada. Isto basta para a Resposta à Primeira Objeção. Resposta à Objeção 2: Segundo o Filósofo (Rhet. i, 11), assim como a esperança dá origem à alegria, assim também, quando um homem está alegre, tem maior esperança; e, consequentemente, os que estão tristes caem mais facilmente na desesperança, conforme 2 Cor. 2,7: "Para que tal pessoa não seja devorada por excesso de tristeza." Contudo, como o objeto da esperança é o bem, para o qual o apetite tende naturalmente, e do qual ele se afasta não naturalmente, mas apenas por algum obstáculo superveniente, segue-se que, mais diretamente, a esperança gera a alegria, enquanto, ao contrário, a desesperança nasce da tristeza. Resposta à Objeção 3: Esta mesma negligência em considerar os favores divinos provém da acídia. Pois quando um homem é influenciado por uma determinada paixão, considera principalmente as coisas que pertencem a essa paixão: de modo que um homem cheio de tristeza não pensa facilmente em coisas grandes e alegres, mas apenas em coisas tristes, a menos que, com grande esforço, desvie seus pensamentos da tristeza.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether despair arises from sloth? · séc. XIII
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