Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que o temor servil não permanece com a caridade. Pois Agostinho diz (In prim. canon. Joan. Tract. ix) que «quando a caridade estabelece morada, expulsa o temor que lhe havia preparado lugar». **Objeção 2:** Ademais, «A caridade de Deus é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rm 5,5). Ora, «onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade» (2 Cor 3,17). Visto que a liberdade exclui a servidão, parece que o temor servil é expulso quando sobrevém a caridade. **Objeção 3:** Ademais, o temor servil é causado pelo amor próprio, na medida em que a pena diminui o bem próprio. Ora, o amor de Deus expulsa o amor próprio, pois nos faz desprezar a nós mesmos; assim Agostinho testifica (De Civ. Dei XIV, 28) que «o amor de Deus até o desprezo de si mesmo edifica a cidade de Deus». Portanto, parece que o temor servil é expulso quando sobrevém a caridade. **Ao contrário,** o temor servil é um dom do Espírito Santo, como foi dito acima (A[4]). Ora, os dons do Espírito Santo não são perdidos pelo advento da caridade, pela qual o Espírito Santo habita em nós. Logo, o temor servil não é expulso quando sobrevém a caridade. **Respondo:** O temor servil procede do amor próprio, porque é temor da pena, que é prejudicial ao bem próprio. Por isso, o temor da pena é compatível com a caridade do mesmo modo que o amor próprio o é: pois vem a dar no mesmo que o homem ame o seu próprio bem e que tema ser dele privado. Ora, o amor próprio pode estar em tríplice relação com a caridade. De um modo, é contrário à caridade, quando o homem coloca seu fim no amor do seu próprio bem. De outro modo, está incluído na caridade, quando o homem se ama a si mesmo por amor de Deus e em Deus. De um terceiro modo, é, na verdade, distinto da caridade, mas não lhe é contrário, como quando o homem se ama a si mesmo do ponto de vista do seu próprio bem, sem contudo colocar seu fim nesse seu próprio bem; assim como se pode ter um outro amor especial pelo próximo, além do amor de caridade que se funda em Deus, quando o amamos por motivo de utilidade, consanguinidade ou alguma outra consideração humana, que, todavia, é referível à caridade. Portanto, o temor da pena está, de um modo, incluído na caridade, porque a separação de Deus é uma pena, que a caridade evita sumamente; de modo que isto pertence ao temor casto. De outro modo, é contrário à caridade, quando o homem recua da pena oposta ao seu bem natural, como sendo o mal principal em oposição ao bem que ele ama como fim; e assim o temor da pena não é compatível com a caridade. De outro modo, o temor da pena é, na verdade, substancialmente distinto do temor casto, quando, a saber, o homem teme um mal penal, não porque o separa de Deus, mas porque é nocivo ao seu próprio bem, e contudo não coloca seu fim nesse bem, de sorte que também não teme esse mal como mal principal. Tal temor da pena é compatível com a caridade; mas não se chama servil, senão quando a pena é temida como mal principal, como foi explicado acima (AA[2],4). Portanto, o temor considerado como servil não permanece com a caridade, mas a substância do temor servil pode permanecer com a caridade, assim como o amor próprio pode permanecer com a caridade. **Resposta à Objeção 1:** Agostinho fala do temor considerado como servil: e tal é o sentido das duas outras objeções.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether servile fear remains with charity? · séc. XIII
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