Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a presciência dos méritos é a causa da predestinação. Pois diz o Apóstolo (Rom. 8,29): «Aos que de antemão conheceu, também os predestinou.» Mais ainda, uma glosa de Ambrósio sobre Rom. 9,15: «Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia» diz: «Darei misericórdia àquele que, prevejo, se converterá a Mim de todo o coração.» Logo, parece que a presciência dos méritos é a causa da predestinação. Objeção 2: Além disso, a predestinação divina inclui a vontade divina, que de modo algum pode ser irracional; pois a predestinação é «o propósito de ter misericórdia», como diz Agostinho (De Praed. Sanct. ii, 17). Ora, não pode haver outra razão para a predestinação senão a presciência dos méritos. Logo, esta deve ser a causa ou razão da predestinação. Objeção 3: Além disso, «Não há injustiça em Deus» (Rom. 9,14). Ora, pareceria injusto que coisas desiguais fossem dadas a iguais. Mas todos os homens são iguais quanto à natureza e ao pecado original; e a desigualdade entre eles provém dos méritos ou deméritos de suas ações. Logo, Deus não prepara coisas desiguais para os homens, predestinando e reprovando, senão pela presciência de seus méritos e deméritos. Ao contrário, diz o Apóstolo (Tito 3,5): «Não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia nos salvou.» Ora, assim como nos salvou, assim predestinou que fôssemos salvos. Logo, a presciência dos méritos não é a causa ou razão da predestinação. Respondo que, visto a predestinação incluir a vontade, como foi dito acima (A[4]), a razão da predestinação deve ser buscada do mesmo modo que a razão da vontade de Deus. Ora, foi mostrado acima (Q[19], A[5]) que não podemos atribuir qualquer causa à vontade divina quanto ao ato de querer; mas uma razão pode ser encontrada quanto às coisas queridas, na medida em que Deus quer uma coisa por causa de outra. Por isso, ninguém foi tão insano a ponto de dizer que o mérito é a causa da predestinação divina quanto ao ato do predestinador. Mas esta é a questão: se, quanto ao efeito, a predestinação tem alguma causa; ou, o que vem a ser o mesmo, se Deus preordenou que daria o efeito da predestinação a alguém por causa de alguns méritos. Por isso, houve alguns que sustentaram que o efeito da predestinação era preordenado para alguns por causa de méritos preexistentes numa vida anterior. Esta foi a opinião de Orígenes, que pensava que as almas dos homens foram criadas no princípio, e segundo a diversidade de suas obras, diferentes estados lhes foram atribuídos neste mundo, quando unidas ao corpo. O Apóstolo, porém, refuta esta opinião onde diz (Rom. 9,11-12): «Porque, não tendo eles ainda nascido, nem feito bem ou mal algum … não das obras, mas daquele que chama, foi-lhe dito: O maior servirá ao menor.» Outros disseram que os méritos preexistentes nesta vida são a razão e causa do efeito da predestinação. Pois os pelagianos ensinavam que o início do bem procedia de nós, e a consumação de Deus; de modo que o efeito da predestinação era concedido a um e não a outro, porque um fazia um início preparando-se, enquanto o outro não. Mas contra isto temos a afirmação do Apóstolo (2 Cor. 3,5): «não somos suficientes para pensar alguma coisa de nós mesmos, como de nós mesmos.» Ora, nenhum princípio de ação pode ser imaginado anterior ao ato de pensar. Portanto, não se pode dizer que algo iniciado em nós possa ser a razão do efeito da predestinação. E outros disseram que os méritos que seguem o efeito da predestinação são a razão da predestinação; dando-nos a entender que Deus dá graça a uma pessoa e preordena que a dará, porque sabe de antemão que ela fará bom uso dessa graça, como se um rei desse um cavalo a um soldado porque sabe que ele fará bom uso dele. Mas estes parecem ter traçado uma distinção entre o que flui da graça e o que flui do livre arbítrio, como se a mesma coisa não pudesse vir de ambos. É, contudo, manifesto que o que é da graça é efeito da predestinação; e isso não pode ser considerado como a razão da predestinação, pois está contido na noção de predestinação. Portanto, se alguma outra coisa em nós é a razão da predestinação, estará fora do efeito da predestinação. Ora, não há distinção entre o que flui do livre arbítrio e o que é da predestinação; assim como não há distinção entre o que flui de uma causa secundária e de uma causa primeira. Pois a providência de Deus produz efeitos mediante a operação das causas secundárias, como foi mostrado acima (Q[22], A[3]). Por isso, o que flui do livre arbítrio é também da predestinação. Devemos, portanto, dizer que o efeito da predestinação pode ser considerado de dupla maneira — de um modo, em particular; e assim não há razão para que um efeito da predestinação não seja a razão ou causa de outro; um efeito posterior sendo a razão de um efeito anterior, como sua causa final; e o efeito anterior sendo a razão do posterior como sua causa meritória, que se reduz à disposição da matéria. Assim, poderíamos dizer que Deus preordenou dar glória por causa do mérito, e que preordenou dar graça para merecer a glória. De outro modo, o efeito da predestinação pode ser considerado em geral. Assim, é impossível que a totalidade do efeito da predestinação em geral tenha alguma causa proveniente de nós; porque tudo o que está no homem dispondo-o para a salvação está incluído sob o efeito da predestinação; até mesmo a preparação para a graça. Pois nem isso acontece senão pelo auxílio divino, segundo o profeta Jeremias (Lam. 5,21): «Converte-nos a ti, ó Senhor, e seremos convertidos.» Contudo, a predestinação tem deste modo, em relação ao seu efeito, a bondade de Deus por sua razão; para a qual todo o efeito da predestinação se dirige como a um fim; e da qual procede, como de seu primeiro princípio motor. Resposta à objeção 1: O uso da graça preconhecido por Deus não é a causa da concessão da graça, senão à maneira de causa final; como foi explicado acima. Resposta à objeção 2: A predestinação tem seu fundamento na bondade de Deus quanto aos seus efeitos em geral. Considerada, porém, em seus efeitos particulares, um efeito é a razão de outro; como já foi dito. Resposta à objeção 3: A razão da predestinação de alguns e da reprovação de outros deve ser buscada na bondade de Deus. Assim, diz-se que Ele fez todas as coisas por sua bondade, para que a bondade divina fosse representada nas coisas. Ora, é necessário que a bondade de Deus, que em si é una e indivisa, se manifeste de muitos modos em sua criação; porque as criaturas em si mesmas não podem atingir a simplicidade de Deus. Assim, para a perfeição do universo requerem-se diferentes graus de seres; alguns dos quais ocupam um lugar elevado e outros um lugar baixo no universo. Para que essa multiformidade de graus seja preservada nas coisas, Deus permite alguns males, para que muitos bens não deixem de acontecer, como foi dito acima (Q[22], A[2]). Consideremos, pois, todo o gênero humano, como consideramos todo o universo. Deus quer manifestar sua bondade nos homens; quanto àqueles que predestina, por meio de sua misericórdia, poupando-os; e quanto aos outros, que reprova, por meio de sua justiça, castigando-os. Esta é a razão pela qual Deus elege alguns e rejeita outros. A isto se refere o Apóstolo, dizendo (Rom. 9,22-23): «E que diremos, se Deus, querendo mostrar a sua ira (isto é, a vingança de sua justiça) e dar a conhecer o seu poder, suportou (isto é, permitiu) com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição; para que fizesse conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que preparou para a glória?» e (2 Tim. 2,20): «Ora, numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata; mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para honra, outros, porém, para desonra.» Contudo, por que Ele escolhe alguns para a glória e reprova outros, não tem outra razão senão a vontade divina. Donde diz Agostinho (Tract. xxvi in Joan.): «Por que atrai um e não atrai outro, não procures julgar, se não queres errar.» Assim também, nas coisas da natureza, pode-se atribuir uma razão, visto que a matéria prima é totalmente uniforme, por que uma parte dela foi formada por Deus desde o princípio sob a forma de fogo, outra sob a forma de terra, para que houvesse divers
Summa Theologiae — First Part · Article. 5 - Whether the foreknowledge of merits is the cause of predestination? · séc. XIII
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