Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que, ao ser santificada no ventre, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado atual. Pois, como já dissemos (A[3]), após a sua primeira santificação, o fomes permaneceu na Virgem. Ora, o movimento do fomes, ainda que preceda o ato da razão, é pecado venial, embora levíssimo, como diz Agostinho em sua obra *De Trinitate* [*Cf. Sent. ii, D, 24]. Logo, houve algum pecado venial na Bem-aventurada Virgem. **Objeção 2:** Ademais, Agostinho (Qq. Nov. et Vet. Test. lxxiii sobre Lc 2,35: "Uma espada traspassará a tua alma") diz que a Bem-aventurada Virgem "foi perturbada por uma dúvida de admiração na morte de Nosso Senhor". Ora, a dúvida nas coisas da fé é pecado. Portanto, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado atual. **Objeção 3:** Ademais, Crisóstomo (Hom. xlv in Matth.), comentando o texto: "Eis que tua mãe e teus irmãos estão fora, e te buscam", diz: "É claro que fizeram isto por mera vanglória." Ainda sobre Jo 2,3: "Não têm vinho", o mesmo Crisóstomo diz que "ela desejava fazer-lhes um favor e elevar-se na estima deles por meio de seu Filho; e talvez sucumbiu à fraqueza humana, assim como fizeram seus irmãos quando disseram: 'Manifesta-te ao mundo.'" E um pouco adiante diz: "Porque ainda não cria nele como devia." Ora, é bastante claro que tudo isto era pecaminoso. Logo, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado. **Ao contrário,** Agostinho diz (De Nat. et Grat. xxxvi): "Em matéria de pecado, é meu desejo excluir absolutamente todas as questões concernentes à santa Virgem Maria, por causa da honra devida a Cristo. Pois, como ela concebeu e deu à luz Àquele que certissimamente não era réu de pecado algum, sabemos que lhe foi dada uma abundância de graça, para que fosse de todo modo vencedora do pecado." **Respondo que:** Deus prepara e adorna aqueles que escolhe para algum ofício particular de modo que sejam tornados capazes de cumpri-lo, segundo 2 Coríntios 3,6: "(O qual) nos fez ministros idôneos do Novo Testamento." Ora, a Bem-aventurada Virgem foi escolhida por Deus para ser sua Mãe. Portanto, não pode haver dúvida de que Deus, por sua graça, a tornou digna daquele ofício, segundo as palavras que lhe foram ditas pelo anjo (Lc 1,30-31): "Achaste graça diante de Deus: eis que conceberás," etc. Mas ela não teria sido digna de ser a Mãe de Deus, se alguma vez tivesse pecado. Primeiro, porque a honra dos pais reflete sobre o filho, segundo Provérbios 17,6: "A glória dos filhos são os pais"; e, consequentemente, por outro lado, a vergonha da Mãe teria refletido sobre seu Filho. Segundo, por causa da singular afinidade entre ela e Cristo, que dela tomou a carne, e está escrito (2 Coríntios 6,15): "Que concórdia há entre Cristo e Belial?" Terceiro, por causa do modo singular pelo qual o Filho de Deus, que é a "Sabedoria Divina" (1 Coríntios 1,24), habitou nela, não só na alma, mas no ventre. E está escrito (Sabedoria 1,4): "A sabedoria não entrará na alma maliciosa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado." Devemos, portanto, confessar simplesmente que a Bem-aventurada Virgem não cometeu nenhum pecado atual, nem mortal nem venial; de modo que se cumpre o que está escrito (Cânticos 4,7): "Toda formosa és, amiga minha, e não há mácula em ti," etc. **Resposta à objeção 1:** Após a sua santificação, o fomes permaneceu na Bem-aventurada Virgem, mas atado, para que não fosse surpreendida por algum ato desordenado súbito, anterior ao ato da razão. E embora a graça da sua santificação contribuísse para esse efeito, todavia não bastava; pois de outro modo o resultado da sua santificação teria sido tornar impossível nela qualquer movimento sensível não precedido por um ato da razão, e assim ela não teria tido o fomes, o que é contrário ao que dissemos acima (A[3]). Devemos, portanto, dizer que o referido atamento (do fomes) foi aperfeiçoado pela divina providência, não permitindo que do fomes resultasse nenhum movimento desordenado. **Resposta à objeção 2:** Orígenes (Hom. xvii in Luc.) e certos outros doutores expõem estas palavras de Simeão como referindo-se à dor que ela sofreu por ocasião da Paixão de Nosso Senhor. Ambrósio (in Luc. 2,35) diz que a espada significa "a prudência de Maria, que tomava nota do mistério celeste. Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes" (Hebreus 4,12). Outros, ainda, tomam a espada como significando dúvida. Mas isto se deve entender da dúvida, não de incredulidade, mas de admiração e discussão. Assim, Basílio diz (Ep. ad Optim.) que "a Bem-aventurada Virgem, estando junto à cruz e observando cada detalhe, após a mensagem de Gabriel e o inefável conhecimento da Concepção Divina, após aquela maravilhosa manifestação de milagres, foi perturbada em sua mente": isto é, por um lado vendo-O sofrer tamanha humilhação, e por outro considerando suas obras maravilhosas. **Resposta à objeção 3:** Nessas palavras, Crisóstomo vai longe demais. Podem, contudo, ser explicadas como significando que Nosso Senhor corrigiu nela, não o movimento desordenado de vanglória a respeito de si mesma, mas o que poderia estar nos pensamentos de outros.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether by being sanctified in the womb the Blessed Virgin was preserved from all actual sin? · séc. XIII
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