Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que houve pecado em Cristo. Porque está escrito (Sl 21,2): "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Longe da minha salvação estão as palavras dos meus pecados." Ora, estas palavras são ditas na pessoa do próprio Cristo, como se vê por havê-las Ele proferido na cruz. Logo, parece que em Cristo houve pecados. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Rm 5,12) que "em Adão todos pecaram" — a saber, porque todos estavam em Adão por origem. Ora, Cristo também esteve em Adão por origem. Logo, pecou nele. Objeção 3: Demais, o Apóstolo diz (Hb 2,18) que "naquilo em que Ele mesmo sofreu e foi tentado, é poderoso para socorrer também os que são tentados." Ora, sobretudo necessitamos do seu auxílio contra o pecado. Logo, parece que houve pecado n'Ele. Objeção 4: Ademais, está escrito (2 Cor 5,21) que "Aquele que não conheceu pecado" (isto é, Cristo), "por nós" Deus "o fez pecado." Ora, realmente é aquilo que Deus fez. Logo, realmente houve pecado em Cristo. Objeção 5: Igualmente, como diz Agostinho (De Agone Christ. xi), "no homem Cristo o Filho de Deus se deu a nós como exemplo de viver." Ora, o homem necessita não só de exemplo de vida reta, mas também de penitência pelo pecado. Logo, parece que em Cristo deveria ter havido pecado, para que Ele se arrependesse do seu pecado e assim nos desse exemplo de penitência. Em contrário, Ele mesmo diz (Jo 8,46): "Qual de vós me convencerá de pecado?" Respondo que, como se disse acima (Q[14], A[1]), Cristo assumiu os nossos defeitos para satisfazer por nós, para provar a verdade da sua natureza humana e para nos ser exemplo de virtude. Ora, é manifesto que, por estas três razões, não devia assumir o defeito do pecado. Primeiro, porque o pecado de modo algum obra a nossa satisfação; antes, impede a força de satisfazer, pois, como está escrito (Eclo 34,23), "o Altíssimo não aprova os dons dos ímpios." Segundo, porque a verdade da sua natureza humana não se prova pelo pecado, já que o pecado não pertence à natureza humana, da qual Deus é a causa; mas antes foi semeado nela contra a sua natureza pelo diabo, como diz Damascono (De Fide Orth. iii, 20). Terceiro, porque pecando não poderia dar exemplo de virtude, pois o pecado é oposto à virtude. Portanto, Cristo de nenhum modo assumiu o defeito do pecado — seja original, seja atual — conforme está escrito (1 Pd 2,22): "O qual não cometeu pecado, nem se achou dolo na sua boca." Resposta à objeção 1: Como diz Damascono (De Fide Orth. iii, 25), coisas se dizem de Cristo, primeiro, quanto à sua propriedade natural e hipostática, como quando se diz que Deus se fez homem e que padeceu por nós; segundo, quanto à sua propriedade pessoal e relativa, quando se dizem d'Ele coisas em nossa pessoa que de nenhum modo lhe pertencem a Ele mesmo. Por isso, nas sete regras de Ticônio, que Agostinho cita em De Doctr. Christ. iii, 31, a primeira trata "de Nosso Senhor e do seu Corpo", porque "Cristo e a sua Igreja são tomados como uma só pessoa". E assim Cristo, falando na pessoa dos seus membros, diz (Sl 21,2): "As palavras dos meus pecados" — não que houvesse pecados na Cabeça. Resposta à objeção 2: Como diz Agostinho (Gen. ad lit. x, 20), Cristo esteve em Adão e nos outros pais não de todo como nós estávamos. Pois nós estávamos em Adão quanto à virtude seminal e quanto à substância corporal, porque, como ele prossegue, "assim como na semente há um volume visível e uma virtude invisível, ambos vieram de Adão. Ora, Cristo tomou a substância visível da sua carne da carne da Virgem; mas a virtude da sua conceição não proveio da semente do homem, mas de modo muito diverso — do alto." Por isso, Ele não estava em Adão segundo a virtude seminal, mas somente segundo a substância corporal. E portanto Cristo não recebeu a natureza humana de Adão ativamente, mas só materialmente — e do Espírito Santo ativamente; assim como Adão recebeu o seu corpo materialmente do limo da terra — ativamente de Deus. E assim Cristo não pecou em Adão, no qual esteve apenas quanto à sua matéria. Resposta à objeção 3: Na sua tentação e paixão, Cristo nos socorreu satisfazendo por nós. Ora, o pecado não promove a satisfação, mas a impede, como se disse. Por isso, convinha que Ele não tivesse pecado, mas fosse inteiramente livre de pecado; de outro modo, a pena que suportou lhe seria devida pelo seu próprio pecado. Resposta à objeção 4: Deus "fez Cristo pecado" — não, por certo, de modo que Ele tivesse pecado, mas porque o fez sacrifício pelo pecado; assim como está escrito (Os 4,8): "Comerão os pecados do meu povo" — eles, isto é, os sacerdotes, que por lei comiam os sacrifícios oferecidos pelo pecado. E desse modo está escrito (Is 53,6) que "o Senhor pôs sobre Ele a iniquidade de todos nós" (isto é, entregou-O para ser vítima pelos pecados de todos os homens); ou "fez d'Ele pecado" (isto é, fê-Lo ter "a semelhança da carne do pecado"), como está escrito (Rm 8,3), e isto por causa do corpo passível e mortal que assumiu. Resposta à objeção 5: Um penitente pode dar um exemplo louvável, não por ter pecado, mas por sofrer livremente a pena do pecado. E por isso Cristo deu o mais elevado exemplo aos penitentes, pois sofreu voluntariamente a pena, não do seu próprio pecado, mas dos pecados dos outros.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether there was sin in Christ? · séc. XIII
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